Da realidade colonizada, uma outra completamente nova, alegre e tropical. O legado de Darcy Ribeiro na constituição do Brasil. Entrevista com César Benjamin

Fotografia: Fundação Darcy Ribeiro

Darcy Ribeiro inscreveu seu nome na história intelectual e material do Brasil como poucos. Antropólogo de formação e profissão, tornou-se político e seu legado se estende do trabalho com povos indígenas à construção da educação de massa no país, desde os Centros Integrados de Educação Pública – Cieps às Universidades como a UnB e da Estadual do Norte Fluminense, no Rio. Era uma pessoa de pensamento e ação. Intelectualmente sempre acreditou no Brasil.

“Ele [Darcy Ribeiro] é o último grande nome dos intérpretes do Brasil. Isso tem uma importância muito grande porque, ao longo de sua história, durante bem mais de 400 anos, o Brasil, já tendo entrado bastante no século XX, sempre foi um país que conviveu com a ideia de que não daria certo”, explica César Benjamin em sua conferência Darcy Ribeiro e os intérpretes do Brasil, agora publicada em formato de entrevista. Esta fala integra o Ciclo de Estudos O Brasil por Darcy Ribeiro. Potencialidades e Utopia.

“Darcy via no Brasil o surgimento de uma realidade humana nova, tropical miscigenada, alegre, pois essa mistura, esses componentes negros e indígenas de nossa cultura introduzem um elemento de alegria que não está presente na cultura judaico-cristã, principalmente na cultura protestante da América do Norte, de modo que Darcy anuncia que, no momento histórico em que a civilização fria e triste dos povos europeus estivesse em declínio, o Brasil poderia se anunciar como portador de uma nova civilização, de um novo projeto civilizatório mestiço, tropical, solar, alegre, amigo da natureza e sincrético. Assim, Darcy anuncia a civilização brasileira”, ressalta.

César Benjamin. Fotografia: Arquivo pessoal

César Benjamin é cientista político, editor e político brasileiro. Durante a ditadura militar brasileira (1964-1985), participou da luta armada contra o regime, foi perseguido e exilado. Cofundador do Partido dos Trabalhadores – PT, foi também filiado ao Partido Socialismo e Liberdade – PSOL, tendo se desligado dos dois partidos. Atualmente, César Benjamin é o editor da Contraponto Editora.

Confira a entrevista.

Em linhas gerais, o senhor poderia falar dos predicados biográficos mais importantes da formação e primeiras décadas de vida de Darcy Ribeiro?

Darcy Ribeiro foi um dos maiores brasileiros de todos os tempos. Ele sempre se autodefiniu como homem de fazimentos e, de fato, a vida dele é uma vida de fazimentos. O maior fazimento da Darcy não é algo de natureza material, mas intelectual, isto é, a compreensão do Brasil que ele nos legou.

Ainda muito jovem, Darcy começou a estudar medicina e, segundo ele mesmo, desistiu do curso na primeira aula de anatomia. Não aguentou. Aí foi fazer ciências sociais na Universidade de São Paulo – USP, de onde saiu antropólogo. Nessa condição, ele se ligou, então, a um dos maiores brasileiros vivos à época, o Marechal Rondon. Rondon foi um oficial militar que no final da década de 1910 e durante a década de 1920 foi enviado para uma longa missão no oeste brasileiro para colocação de linhas telegráficas. Permaneceu muitos anos no sertão e chegou até onde é, hoje, o estado de Rondônia, batizado em sua homenagem.

Rondon é filho de índia e falava algumas línguas indígenas. Ele mudou completamente a percepção da sociedade brasileira sobre os povos indígenas e a relação da sociedade com esses povos. Na época, em 1920, era muito comum a expectativa de eliminação dos indígenas, que eram considerados um obstáculo para o progresso do Brasil. A ideia de genocídio desses povos não era absurda naquela época e foi o Rondon quem conseguiu alterar essa percepção e definir as primeiras políticas indigenistas brasileiras com conteúdos positivos e criou o Serviço de Proteção ao Índio – SPI. Ele proibia sempre que sua tropa atirasse ou matasse indígenas, de onde ele se constitui um militar humanista que se tornou uma grande referência nacional.

Heróis brasileiros

Darcy foi trabalhar com o Rondon e participou de um grupo de pessoas que eu classifico como heróis brasileiros, pouco conhecidos hoje. Foi um grupo de homens e mulheres que deteve o processo de extinção dos povos indígenas brasileiros. O próprio Darcy tem textos de sua juventude, um jovem-adulto, muito pessimista da condição dos indígenas, ou seja, ele chegou, em algum momento da vida, a não ver possibilidade de recuperação da população indígena e considerou a inevitabilidade desse processo de extinção. Mas felizmente ele estava errado e, graças ao trabalho dele próprio e de seus companheiros, essa tendência se reverteu. Os povos indígenas chegaram a ter 150 mil pessoas no Brasil, mas voltaram a crescer nas últimas décadas e são um contingente expressivo de brasileiros hoje.

Nesse grupo de brasileiros, do qual Darcy Ribeiro fez parte, incluindo, além do Rondon, os irmãos Villas-Bôas, está entre as suas conquistas, uma das mais relevantes do mundo em termos de criação e respeito a direitos humanos, a criação da Parque Nacional Indígena do Xingu. Foi o próprio Darcy quem redigiu o anteprojeto de criação do Parque, que Getúlio Vargas encaminhou ao Congresso e que foi aprovado anos depois por Jânio Quadros. Situado ao Norte de Mato Grosso, no local foram levados remanescentes de diversas tribos indígenas que estavam em extinção e a partir dali recomeçou um trabalho de consolidação e recuperação física e cultural desses povos. O Brasil hoje pode se orgulhar de ter uma experiência tão bem-sucedida de proteção e de convívio com os povos indígenas graças ao trabalho de Darcy Ribeiro e seus companheiros.

Modernizador de universidades

Darcy foi professor de Língua Tupi na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Ele havia morado cinco anos entre os indígenas, na sua condição de antropólogo no SPI, e volta para a UFRJ para ensinar o idioma e conhece aquele que foi, talvez, o maior educador brasileiro da escola pública no século XX, Anísio Teixeira. O Darcy diz que Rondon e Anísio eram os dois maiores brasileiros que ele tinha conhecido. É muito significativo isso, porque Darcy era um homem de esquerda e nem Anísio e nem Rondon foram de esquerda. O reconhecimento da grandeza dos dois indica a grandeza do próprio Darcy, que trabalhou intensamente com o Anísio pela popularização da escola pública no Brasil.

Esta foi uma bandeira de vida do Darcy, que depois se tornaria um dos criadores da Universidade Nacional de Brasília – UnB. Juscelino Kubitschek transfere a capital para Brasília – e há uma curiosidade, que é o fato do projeto urbanístico e arquitetônico original não ter contemplado a existência nem de fábricas nem de universidades, para evitar a presença de “comunistas” – e o Darcy e o Anísio o convencem da importância de uma universidade na capital federal, de modo que a dupla se torna a responsável pela concepção do projeto e da aprovação no Senado Federal da implementação da UnB.

Em seguida, Darcy passa a ser ministro da Educação no governo João Goulart e depois Chefe da Casa Civil, condição na qual foi atingido pelo golpe militar de 1964. Passa muitos anos fora do Brasil, levando para o Chile, Peru, México, Venezuela e Uruguai sua experiência de criador e modernizador de universidades. A experiência da criação da UnB, uma universidade muito moderna, foi levada para este conjunto de países durante seu exílio.

Como foi o retorno de Darcy Ribeiro para o Brasil após o exílio?

Na sua volta, se filiou ao Partido Democrático Trabalhista – PDT e permaneceu muito ligado ao ex-governador Leonel Brizola, sendo vice durante seu mandato no Rio de Janeiro e tendo implantado talvez o maior projeto de escola pública do Brasil contemporâneo, que foram os Centros Integrados de Educação Pública – CIEPs. Isso tudo dentro da concepção de Anísio Teixeira com as escolas de tempo integral, que uniam educação, saúde e cultura, onde a criança chegava de manhã, tomava banho, tomava café da manhã, estudava, permanecia à tarde e voltava pra casa à noite, de banho tomado e tendo feito o jantar. Foi um projeto extenso de revolução do ensino público no Rio de Janeiro. Logo em seguida, Darcy foi o criador da Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF. A vida inteira ele foi um homem ligado a causas humanísticas, indígenas e da educação. Nos anos 1990, como senador, ele se torna o relator da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira – LDB.

Qual foi o maior “fazimento”, legado, de Darcy Ribeiro?

Penso que o maior “fazimento” dele foi ter completado uma teoria do Brasil. Isso tem uma importância transcendental para nós e é uma experiência coletiva de uma sucessão de gerações que vão pensar o Brasil de maneira profunda, na qual ele é o ápice. Ele é o último grande nome dos intérpretes do Brasil. Isso tem uma importância muito grande porque, ao longo de sua história, durante bem mais de 400 anos, o Brasil, já tendo entrado bastante no século XX, sempre foi um país que conviveu com a ideia de que não daria certo. Uma série de estereótipos europeus eram trazidos para cá e que confirmavam essa ideia de que o Brasil era um país menor, um país fadado ao fracasso.

Nós não tínhamos uma teoria intelectual brasileira, tudo o que fazíamos era olhar para a Europa e importar de lá as últimas teorias. Sempre que o Brasil se olhou nesse “espelho” europeu, a sua condição não europeia evidentemente o diminuía. A Europa nos transmitiu, na virada do século XIX para o XX, dois grandes determinismos que nos condenavam.

Determinismo racial

Primeiro o determinismo de natureza racial, cuja criação moderna do conceito de raças humanas provavelmente foi o empreendimento mais relevante e mais catastrófico da ciência social europeia no século XIX. Foi uma construção que levou décadas e envolveu cientistas muito prestigiosos, com trabalhos intensos, supostamente científicos, com medições do corpo etc. para estabelecer uma distinção fundamental entre os diferentes grupos humanos. Não por acaso esse trabalho foi feito em paralelo com a expansão do colonialismo europeu, tanto que as duas coisas se completavam.

A Europa implantando colônias em países de outros continentes e a antropologia física afirmando a existência de raças humanas e, evidentemente, colocando a raça branca no topo dessa hierarquia, de modo que essa antropologia física acabava por legitimar o colonialismo europeu. Esse colonialismo existia porque era a expressão de uma colonialidade intrínseca e natural da chamada “raça branca” sobre as demais. Esse é um conceito muito deletério que até hoje não foi superado culturalmente, embora sim cientificamente, de modo que é cientificamente abandonado, mas culturalmente continua a nos espantar. O Brasil, ao se olhar nesse espelho, acabava assumindo uma inferioridade intrínseca, natural, imutável por nossa condição não-europeia, por nossa ausência de raça pura, logo no nosso caso, que somos o país da miscigenação.

Determinismo geográfico

O segundo determinismo que a Europa nos exportava até o início do século XX era o de natureza geográfica. Ou seja, tinha a ver com a ideia de que civilização era uma conquista dos povos que viviam em ambientes hostis e frios e que desenvolviam técnicas para garantir a própria sobrevivência. É o velho ditado “não há pecado debaixo do equador”, o que pretende dizer que não há cultura abaixo do equador. Os europeus olhavam para os povos tropicais, que interagiam de outra maneira com a natureza e o corpo, sem o conceito de pecado que é associado intimamente à cultura, e nos consideravam povos de natureza inferior.

A cultura, até o início do século XX, foi muito marcada por isso, o que legitimou grandes genocídios, que foram tolerados na Europa até que esse veneno entrou no próprio continente. Isto é, quando o conceito de raça foi usado para extermínio de povos europeus é que a Europa se deu conta da monstruosidade que ela mesma tinha criado. O Brasil consegue escapar dessa armadilha e construir uma ciência social própria, capaz de olhar para si e despertar nossa particularidade e potencialidade, somente no século XX. Isso é algo muito recente, eu diria que tem menos de cem anos e foi algo empreendido pela geração de nossos pais.

Esse é um esforço de pessoas de disciplinas diferentes, que não necessariamente se conhecem e tampouco têm as mesmas opiniões. O que quero dizer é que tivemos um grupo de intelectuais de primeiro time e Darcy Ribeiro é o ponto culminante desta história. A sequência de obras seminais desse período é muito impressionante.

Darcy Ribeiro. Fotografia: Arquivo Fundação Darcy Ribeiro

Quem são esses intelectuais?

Ainda que cada um defina seus autores e seus inícios, podemos começar em 1934, quando Gilberto Freyre publica Casa Grande e Senzala (São Paulo: Global Editora, 2006), que faz uma releitura revolucionária do Brasil; o que é um certo paradoxo, porque Gilberto Freyre era um homem politicamente muito reacionário, mas como cientista social foi muito revolucionário. Ele nasceu em 1900 em Pernambuco, com 18 anos foi para os Estados Unidos e, meio por acaso, meio por mérito próprio, acabou cursando Antropologia Cultural de Franz Boas, que foi um dos fundadores dessa nova disciplina, quando se rompe com a Antropologia Física do século XIX e se passa a estudar o fenômeno humano a partir da cultura e não mais do corpo.

Gilberto Freyre participa desta primeira turma do Franz Boas, de onde saem antropólogos de primeiro time no mundo. Aí o Freyre começa esta obra muito importante para o Brasil, afirmando que os analistas do país estavam olhando para o lugar errado, que não tinha que se focar nos grandes homens ou na economia, mas sim observar a cultura, onde estava a especificidade do Brasil. A especificidade estava contida na “cultura de síntese”, ou seja, vivemos uma experiência cultural que tem aspectos mais interessantes do que aqueles encontrados nos países desenvolvidos.

É quando ele vai estudar a família patriarcal, as relações na escravaria doméstica, muito extensa no Brasil, e vai dar o máximo de atenção à vida do brasileiro. À comida, à fala, às lendas, à história, às músicas, à arquitetura etc. Ao fazer isso, ele acaba realizando um tremendo resgate do papel de negros e índios na formação social brasileira. Freyre diz que toda a história do Brasil negou a presença cultural de negros e índios, e passa a se interessar por questões como “E essa comida, de onde vem? Ah, vem da África”, “E aquela música, de onde vem? Esse instrumento e essa canção vêm de tal tribo”, “E esse tipo de arquitetura, de onde é? Vem dos indígenas”. Ele começa a ver que a sociedade brasileira é profundamente marcada por influências indígenas e negras.

Freyre elogia o colonizador português por sua miscibilidade, ou seja, por sua capacidade de se misturar, o que o diferenciava dos colonizadores anglo-saxões, que normalmente chegavam, exterminavam os povos originários e implantavam a própria cultura. Freyre usava a expressão que “negras e índias colonizaram o colonizador no Brasil”, porque o ensinaram a viver nos trópicos, muito diferente do olhar tradicional, de cima para baixo, no qual negros e índios eram apenas figurantes, dominados pela elite branca do Brasil.

Sérgio Buarque de Holanda – Raízes do Brasil

Dois anos depois, em 1936, sai Raízes do Brasil (São Paulo: Companhia das Letras, 2015), de Sérgio Buarque de Holanda. Assim como Gilberto Freyre tinha estudado em Columbia, nos EUA, o local por excelência da antropologia cultural, Sérgio Buarque era sociólogo e estudou em uma outra ponta da sociologia no mundo, em Berlim, na década de 1920, tendo sido aluno de discípulos de Max Weber, que morreu, justamente, em 1920.

O pensador propõe uma reinterpretação do Brasil com olhar sociológico, ressaltando que o Estado brasileiro sempre foi fraco e o que formou o país foi o que ele chamou de “complexo ibérico”. Ao escrever isso no começo da década de 1930, deste complexo ibérico, com relações internas, criando a figura do homem cordial, em que não existe cidadania, mas relações de amizade, parentesco e inimizade, ele avalia que este modelo não resistirá ao século XX, que é o século americano, do aço, do petróleo, da indústria. Holanda, então, vai se debruçar sobre essa transição do Brasil Ibérico para o Brasil Americano, afirmando, no início da década de 1930, que está aparecendo um ator novo na história do país e esse ator são as massas urbanas, que não seriam mais demandantes de favores, mas de direitos.

Aquilo que Holanda chamou de “homem cordial”, que nada tem a ver com bondade, mas com aquele que estabelece relações de natureza pessoal, teria que dar lugar ao cidadão e o Brasil teria que ter uma maneira própria de fazer esse trânsito para a cidadania. Em um espaço de dois anos, duas obras se tornam seminais para reinterpretação do Brasil propostas por Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.

Caio Prado Junior – Formação do Brasil contemporâneo

Então nós temos, no começo dos anos 1930, um antropólogo cultural influenciado por Boas, depois um sociólogo influenciado por Weber, e logo depois temos um autor marxista, Caio Prado Junior, que faz em 1942 a primeira grande releitura da história do Brasil em 100 anos, se nós contarmos desde Van Varnhagen, que foi o historiador da corte de D. Pedro II realizador de uma grande história do Brasil. Meus pais estudaram a História do Brasil de Van Varnhagen e eu tinha os seis volumes na minha casa. Até a minha adolescência ainda usávamos os seis volumes de Van Varnhagen, que não era mau historiador, mas era o historiador da monarquia.

O Caio Prado faz a primeira síntese historiográfica brasileira, praticamente 100 anos depois, em 1942. Ele parte do princípio de que os portugueses, quando encontraram o Brasil, logo se deram conta de que as três grandes maneiras de relação entre desiguais, entre dominador e dominado, não se aplicavam aqui. A primeira grande maneira era a pilhagem de grandes riquezas acumuladas. Era muito tradicional ao longo de toda a história humana que o conquistador praticasse a pilhagem da riqueza dos dominados, isso desde a Antiguidade. No entanto, não havia riquezas a serem pilhadas no Brasil. Tínhamos tribos indígenas relativamente pouco numerosas, bastante móveis, que não acumulavam riquezas, não tinham grandes cidades, não dominavam a mineração do ouro e da prata e, logo, não havia o que pilhar dessas tribos.

A segunda maneira normal de relação entre conquistador e conquistado era a cobrança de tributos, também muito usado desde a Antiguidade. O conquistador conquista uma região e impõe um pagamento de tributo anual pelos seus vassalos. E isso também era uma maneira que não se aplicava aqui, não havia como cobrar tributos dos índios brasileiros. A terceira maneira era o comércio desigual. Esse foi um modo muito usado na relação com a Ásia, onde havia grandes civilizações. Então, o intercâmbio desigual de mercadorias, por exemplo, entre Inglaterra e a Índia marcou fortemente a dominação da Inglaterra sobre a Índia. Assim como a pilhagem de riquezas acumuladas na América Espanhola marcou fortemente a dominação espanhola no México, no Peru, onde havia grandes civilizações indígenas com grandes cidades, grandes riquezas acumuladas. Mas essas três maneiras fáceis de se exercer a dominação não se aplicavam no Brasil. Isso criou um grande impasse que durou algumas décadas e a solução desse impasse foi a criação de uma empresa territorial produtora de mercadorias. Foi uma solução muito ousada, muito nova.

Na verdade, criou-se uma holding multinacional, com capitais de Veneza e da Holanda, com a administração portuguesa, com mão de obra indígena e africana, com tecnologia dos Açores, uma holding que foi colhendo no mundo elementos para constituir aqui a primeira produção de uma mercadoria de consumo de massas: o açúcar. Caio Prado vai dizer que o Brasil não nasce como uma sociedade, nasce como uma empresa territorial voltada para fora. E ele vai propor uma hipótese forte para a História do Brasil: a nossa história é a história da transição dessa empresa territorial para os outros numa nação para si. As lutas do povo brasileiro, o desenrolar de nossa história, o aumento de nossa densidade demográfica, de nossa capacidade etc. vai significando o passo a passo de nossa passagem daquela condição inicial de empresa para os outros na direção de uma nação para si. E esse processo não estava concluído: Caio chamava a conclusão desse processo de revolução brasileira. Veja que temos 1934, 1936 e 1942 numa sequência vertiginosa de obras que propõem uma profunda redefinição das leituras do Brasil.

Celso Furtado – Formação Econômica do Brasil

Antes de chegar a Darcy, cito apenas mais um autor: Celso Furtado, com Formação Econômica do Brasil (São Paulo: Companhia das Letras, 2007), escrito em Cambridge. Gilberto Freyre se formou e concebe sua obra em Columbia, nos Estados Unidos, Sérgio Buarque se forma e concebe Raízes do Brasil em Berlim e Celso Furtado faz seu doutorado e concebe Formação Econômica do Brasil em Cambridge, na Inglaterra, onde era o maior centro de economia na época. Percebam que estamos lidando com intelectuais muito cosmopolitas, mas ao mesmo tempo muito enraizados no Brasil.

Todos eles produziram obras que se voltam para decifrar o enigma brasileiro e retirar o Brasil daquela pasmaceira. O Sérgio Buarque tinha uma expressão que dizia que “nossa inteligência [a brasileira], ao longo dos primeiros séculos foi um ornamento”. E foi essa geração que vai culminar com Darcy Ribeiro que constitui uma inteligência brasileira que não é mais um ornamento, um beletrismo. É uma inteligência que é um chamado para a ação, é uma inteligência mobilizadora do potencial nacional. Furtado olha o Brasil como economista e ele vê que a história do Brasil e a história do sistema mundo moderno praticamente se confundem.

O Brasil nasce com o sistema mundo moderno e ele vê que esse é um sistema que contém uma heterogeneidade estrutural. Alguns países operam a economia com rendimentos crescentes, com atividades que induzem maior divisão do trabalho, com maior capacidade de absorção de mudanças tecnológicas, com produção de produtos que dificilmente enfrentam concorrência, porque são produtos muito sofisticados. Então, esses países sugam para si a riqueza do sistema mundo. E no outro polo países que se mantiveram gerando em torno da agricultura e da mineração estacionaram em níveis menores de produtividade.

A grande descoberta da geração de economistas de Celso Furtado foi que era uma falácia de que nesse sistema mundo os países atrasados naturalmente iriam ocupar o lugar dos países adiantados, que haveria um trânsito mais ou menos natural dos países atrasados na direção do centro do sistema. Celso Furtado e outros economistas mostraram que a condição de país desenvolvido e de país subdesenvolvido se repõem dinamicamente. Era impossível fazer espontaneamente essa transição e por isso era preciso realizar mutações.

No caso de Furtado, especialmente, tendo em vista conduzir o Brasil a condição de um país industrial, desenvolvido. Isso põe um conjunto de mutação que o Estado nacional brasileiro tinha como ponto de referência fundamental porque era preciso coordenar investimentos, evitar as crises cambiais, conter a inflação. Há uma modelagem entre 1930 e o final dos anos 1950 de um projeto econômico desenvolvimentista que também vai se associar a essa reinterpretação do Brasil, agora como sociedade integrada na economia mundial. E isso vem se constituindo em paralelo à trajetória pessoal de Darcy Ribeiro.

Darcy Ribeiro – O povo brasileiro

Darcy completa esse esforço na medida em que descreve, compreende, propõe uma leitura específica do povo brasileiro, que é a carne e a alma da nação. Não se entende o Brasil se não se entender o povo brasileiro. Darcy olha para o continente americano e vê aqui três grandes grupos de povos, sempre com seu olhar antropológico.

O primeiro grande grupo, o que chamou de povos transplantados, são aqueles grupos protestantes que saem perseguidos da Europa, bastante radicalizada, e vão colonizar a América do Norte, tentando fazer um transplante da civilização europeia para o continente americano. Os povos transplantados reproduzem aqui a sua língua, sua religião, seu modo de ser e normalmente exterminam os povos originários.

O segundo grande grupo foi o que ele chamou de povos testemunho, que são aquelas grandes massas humanas herdeiras das grandes civilizações pré-colombianas que foram avassalados pela invasão europeia, mas que não desapareceram. Continuaram construindo grandes massas humanas, mantiveram sua cultura e, principalmente, mantiveram a sua língua, ou seja, não permitiram que sua identidade linguística fosse diluída na identidade do colonizador. Povo bolivianos, equatorianos, peruanos em algumas regiões do México e da América Central, que ele via como povos testemunhos porque trazem o testemunho da América pré-colombiana.

O terceiro, que ele chamou de povos novos, foram os povos já formados na Modernidade a partir dos grupos humanos que o capitalismo mercantil encontrou aqui ou trouxe para cá. Diz que no Brasil, na Colômbia e na Venezuela, em Cuba e em outras áreas das Américas há povos que são realidades antropológicas, sociológicas e históricas novas e que estão em processo de formação. Ele dá ao povo brasileiro um estatuto muito interessante porque percebe que este é o maior povo novo da Modernidade. Ele é feito a partir de índios destribalizados, negros desafricanizados e brancos deseuropeizados num primeiro momento, mas que depois recebe contribuições inclusive de outras regiões do mundo. E o que é quase milagroso é que esses diferentes contingentes humanos, no Brasil, não continuam a se reproduzir separadamente. Eles se fundem numa massa humana de novo tipo. É um povo que fala a mesma língua, que divide um mesmo território que compartilha o mesmo estado nacional, que compreende que tem um futuro comum. Portanto, é um povo novo que está no início de sua história. E, no caso do povo brasileiro, o que o unifica é a cultura.

No livro do O povo brasileiro (São Paulo: Global Editora, 2014), destaco dois trechos. Logo no início, ele trabalha esse conceito. “Nessa confluência que se dá sob a regência dos portugueses, matrizes raciais díspares, tradições culturais distintas, formações sociais defasadas se enfrentam e se fundem para dar lugar a um povo novo. Num novo modelo de estruturação societária. Novo, porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadoras, fortemente mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela redefinição dos traços culturais delas oriunda”.

Quer dizer que esse povo novo redefine os traços culturais dos seus povos de origem. Nós brasileiros não somos mais pré-colombianos, não somos mais africanos, não somos mais europeus, não somos nada disso. Somos uma realidade antropológica nova. “Confluência de tantas e tão variadas matrizes formadoras poderia ter resultado numa sociedade multiétnica, dilacerada pela composição de componentes diferenciados e imiscíveis [que não pode se misturar]. Ocorreu justamente o contrário, uma vez que, apesar de sobreviverem na fisionomia somática e no espírito dos brasileiros o signo de sua múltipla ancestralidade, não diferenciaram em antagônicas minorias raciais, culturais ou regionais, vinculadas a lealdades étnicas próprias e disputantes de autonomia frente a nação”. Essas são frases que estão logo no início do Povo Brasileiro, que é a obra mais importante dele. É uma obra que tem até uma história épica.

Como foi a redação de O povo brasileiro?

Darcy, como todos sabem, enfrentou um câncer no pulmão durante a fase final de sua vida, estava internado no hospital e, durante sua última internação, fugiu do local para poder concluir esse livro. Ficou escondido, nem os amigos sabiam onde ele estava. E fez tudo isso porque sentia que essa seria sua grande obra da vida. Darcy via no Brasil o surgimento de uma realidade humana nova, tropical miscigenada, alegre, pois essa mistura, esses componentes negros e indígenas de nossa cultura, introduzem um elemento de alegria que não está presente na cultura judaico-cristã, principalmente na cultura protestante da América do Norte, de modo que Darcy anuncia que, no momento histórico em que a civilização fria e triste dos povos europeus estivesse em declínio, o Brasil poderia se anunciar como portador de uma nova civilização, de um novo projeto civilizatório mestiço, tropical, solar, alegre, amigo da natureza e sincrético. Assim, Darcy anuncia a civilização brasileira. Nesse sentido, creio que ele fecha esse grande ciclo de reinterpretação do Brasil propondo um lugar para si mesmo e para o Brasil no mundo. Completa-se, assim, aquilo que chamei em um texto, uma certa ideia de Brasil. Não devemos subestimar a importância disso.

Qual a ideia de se compreender o que é nuclear, fundamental, sobre como definimos o Brasil?

Nenhuma nação é forte se não tiver uma ideia de si mesma. O poderio dos Estados Unidos está muito relacionado à ideia de Estados Unidos, principalmente depositada em suas elites. A reconstrução do Japão depois da II Guerra Mundial está profundamente ligada à ideia de Japão. Quando os Estados Unidos jogaram duas bombas atômicas sobre o Japão, os japoneses não sabiam quantas bombas atômicas os Estados Unidos tinham. E na verdade só existiam duas, mas os japoneses não sabiam e aceitaram a rendição. Mas os Estados Unidos exigiram rendição incondicional e os japoneses colocaram uma condição: que a figura do imperador fosse respeitada e preservada, que o palácio do imperador fosse respeitado e preservado. A elite japonesa compreendeu ser um momento dramático da sua história na rendição da II Guerra Mundial, mas, se permitisse que o ocupante prendesse e exibisse o imperador, a ideia de Japão deixaria de existir. Buscaram preservar esse núcleo ideológico. E assim sucessivamente.

A ascensão da China hoje está extremamente ligada à recuperação da ideia de China, do império do meio, pois o país passou pelo que ele mesmo chamou de século de humilhações – do século XIX até meados do século XX – e vê a si próprio como a reconstrução da ideia de China. Então, esse esforço que nos conduziu a formar uma ideia de Brasil é um esforço decisivo para nossa história. Se nós não tivermos uma ideia de Brasil, não temos pelo que lutar; sem isso, o Brasil não tem significado, não tem sentido e não tem proposta e, então, não tem por que existir também.

Posso comparar, superficialmente, a sociedade com um computador: o computador tem sua parte física, seu hardware, seus circuitos, seu material e precisa disso para funcionar. Mas ele também precisa de uma outra coisa para funcionar, de um programa. A máquina em si não faz nada, porque ela não sabe o que deve fazer. O que diz para ela o que deve fazer é o programa, é o software, o componente não material do computador que diz para ele qual a tarefa que deve cumprir. As sociedades também têm um hardware: suas estradas, suas usinas hidrelétricas, seus prédios, tudo isso constitui a sua base material. Mas as sociedades também têm um software, que é a ideia que elas fazem de si mesmas.

Nossa crise atual, tão profunda e tão longa, vem muito do fato de termos perdido contato com esses imensos pensadores que constituíram a ideia de Brasil contemporâneo. E, dentro desses imensos pensadores, eu dou um lugar muito especial ao Darcy, não só pelo carinho enorme que ele merece como figura humana, mas também porque ele foi aquele que fechou essa ideia de Brasil, colocando a carne e a alma do país na nossa frente, que é o conceito de povo brasileiro. É um conceito que não podemos perder. Se perdermos esse conceito, o Brasil não tem sentido.

Fonte: IHU
Texto: Ricardo Machado e João Vitor
Data original da publicação: 29/04/2022

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