Como a “dança das cadeiras” trabalhista está dando fôlego aos sindicatos nos EUA

Fotografia: Spencer Platt/Getty Images

Ainda não sabemos a extensão das sequelas do coronavírus, mas uma, nos Estados Unidos, é tão conhecida que já tem até nome: “A Grande Renúncia”, ou a “A Grande Demissão”. O fenômeno é caracterizado pelo pedido de demissão em massa registrado no país. Seu ápice foi em agosto de 2021, quando mais de quatro milhões de americanos deixaram seus empregos.

As inúmeras placas com vagas de trabalho ou sinais que pedem paciência com a equipe reduzida nos estabelecimentos americanos podem levar uma pessoa mais desavisada a acreditar que essa seja mais uma onda da Grande Renúncia, mas os especialistas apontam para uma mudança no movimento.

“Há pouca evidência que sustente a continuação da ‘Grande Demissão’, o que vemos agora é o que um economista aqui dos Estados Unidos chamou sabiamente de ‘A Grande Reorganização'”, diz à reportagem do Brasil de Fato Harley Shaiken, professor da Berkeley, especializado no estudo do mercado de trabalho e força laboral.

Segundo ele, essa “reorganização” é um reflexo direto do contexto econômico presente, com alta inflação e outras instabilidades. “Por isso que esse fenômeno varia entre estados e cidades diferentes. Em regiões com alto custo de vida, como Los Angeles ou São Francisco, a gente percebe, por exemplo, que a média salarial tem aumentado consideravelmente, mas ainda não acompanha o passo da inflação”, complementa.

Para Ian Williamson, conselheiro internacional do Insper e reitor da Paul Merage School of Business University of California Irvine, essa “dança das cadeiras” do mercado de trabalho é um processo que vem se desdobrando ao longo da última década. “Não só aqui nos EUA, mas em todo o mundo, o que se vê é um aumento da rotatividade voluntária nos mais variados setores de trabalho”, conta, “acho que a pandemia potencializou esse turnover, mas ele certamente não é novidade”.

As pesquisas de campo mostram que essa realidade está mais contagiosa que nunca. Numa análise feita pela Microsoft, 52% dos jovens adultos que fazem parte da geração Z e Millennial afirmaram ter o desejo de mudar de emprego ainda este ano – 3% a mais que o volume registrado em 2021.

Vale lembrar que, para a Microsoft, pertencem a geração Z pessoas entre 18 e 26 anos de idade, enquanto os Millennials são aqueles que têm entre 27 e 41 anos. 

Essa sede por mudança não é restrita à faixa etária, embora seja mais controlada entre outros grupos. Cerca de 35% dos chamados Boomers, pessoas que têm entre 56 e 75 anos, e a geração X (42 a 55 anos) também afirmam querer mudar de trabalho. 

O corporativismo estadunidense, treinado para funcionar sob uma lógica capitalista apática, tende a avaliar essas pesquisas de forma exclusivamente financeira. Daí a quantidade de empresários dizendo que os americanos estão pedindo demissão porque “ganham mais dinheiro do governo” e outras tantas inverdades semelhantes.

Na verdade, os estudos mostram que os pedidos de demissão estão associados à falta de respeito, pouca perspectiva de crescimento e salário incompatível com a realidade financeira de cada um.

“Também precisamos colocar nessa conta o fato de que nunca foi tão fácil procurar trabalho. Nossos pais tinham que ler e marcar os jornais, escrever cartas… era um processo árduo. Agora é tudo online e uma pessoa têm acesso a dezenas ou centenas de oportunidades profissionais sem sair de casa, ao clique de poucos botões”, acrescenta o reitor Williamson, que pondera que isso não é bom ou ruim, mas um processo natural. 

Para Harley, porém, todas essas mudanças podem, sim, ser positivas – depende apenas do desenrolar político dessas implicações. “Aqui acho importante trazermos à tona o efeito de algumas manifestações de trabalhadores, que têm surtido efeito. Em Nova York, 8 mil empregados da gigante Amazon conseguiram a tão sonhada sindicalização, o que muita gente achava que era impossível”. 

O professor acredita que essa notícia deve dar fôlego a outros sindicatos de todo o país, e chama atenção para o fato de que os trabalhadores da rede de café Starbucks estão trilhando o mesmo caminho dos colegas da Amazon e devem, em breve, aderir à sindicalização. 

Essa união dos trabalhadores pode ressignificar toda a relação entre empregado e empregador, nos Estados Unidos – “o que seria muito bem-vindo”, analisa Williamson.

Segundo o reitor, a mensagem final desses movimentos de reorganização e sindicalização é que os líderes de hoje precisam estar mais atentos às necessidades de seus trabalhadores, e não apenas no quesito econômico. “As pessoas querem melhorar sua qualidade de vida, querem viver uma experiência mais equilibrada”.

Num primeiro momento, proporcionar a membros de uma equipe alguns benefícios vitais pode soar como uma estratégia custosa para a empresa, mas os dados apresentados pelo reitor mostram que, no curto e no longo prazo, investir em pessoas é a melhor estratégia empresarial, inclusive para a redução de gastos. “Se tem uma coisa que eu sei é que, quando uma companhia perde um bom empregado, ela vai gastar 122% de seu salário anual para repô-lo. Ou seja, se você tem um funcionário exemplar, é sempre melhor mantê-lo por ali. Eu não consigo imaginar sequer um cenário em que seja economicamente ou financeiramente vantajoso abrir mão de um trabalhador exemplar”. 

Fonte: Brasil de Fato
Texto: Eloá Orazem
Data original da publicação: 08/04/2022

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