As três maiores lições da economia sob a pandemia

Visão aérea de carros alinhados em um estacionamento para receber a vacina da COVID. Os carros fizeram fila no sábado para um evento de vacinação em massa de COVID-19 em Denver. Quase um ano após o início da pandemia, resolver a crise econômica significa derrotar o vírus. Fotografia: Michael Ciaglo/Getty Images

Dar a resposta política correta é extremamente importante. As estatísticas econômicas agregadas podem disfarçar muitas dificuldades individuais. E, de longe, o remédio mais eficaz para reviver a economia é derrotar o vírus.

John Cassidy

Fonte: Carta Maior, com The New Yorker
Tradução: César Locatelli
Data original da publicação: 01/02/2021

Desde que a pandemia do coronavírus atingiu a economia norte-americana como uma escavadeira, na primavera passada, aprendemos três lições importantes. Dar a resposta política correta é extremamente importante. As estatísticas econômicas agregadas podem disfarçar muitas dificuldades individuais. E, de longe, o remédio mais eficaz para reviver a economia é derrotar o vírus. Os desenvolvimentos nos últimos dias confirmaram todas essas lições.

Queda de 3,5% no PIB dos EUA em 2020

Na quinta-feira (28), o Departamento de Comércio informou que o produto interno bruto, que é a medida mais ampla da produção da economia, caiu 3,5 por cento em 2020. Esse foi o maior declínio em um único ano desde 1946, mas foi um resultado consideravelmente melhor do que muitos economistas previram na primavera passada, quando muitas fábricas, lojas e outros negócios foram forçados a fechar. Quando os membros do principal comitê de formulação de políticas do Federal Reserve se reuniram em junho passado, sua previsão média era de que o PIB cairia 6,5% em 2020 como um todo, e que a taxa de desemprego no final do ano seria de 9,3%. O declínio real do PIB foi quase a metade do previsto, e a taxa de desemprego também ficou aquém das projeções do Fed: em dezembro era de 6,7%.

A injeção de US$ 2,2 trilhões

Um motivo relevante para esse desempenho melhor do que o esperado foi que os formuladores de políticas – o Congresso e o próprio Fed – forneceram uma quantidade sem precedentes de apoio à economia quando ela mais precisava. A Lei CARES de US$ 2,2 trilhões, que o Congresso aprovou em uma base bipartidária em março, “proporcionou o alívio fiscal mais amplo da história dos Estados Unidos. Além disso, o auxílio voltou-se principalmente para famílias vulneráveis, trabalhadores e pequenas empresas”, observou o Conselho de Consultores Econômicos da Casa Branca em um relatório recente. Do lado monetário, o Fed lançou uma série de programas de empréstimos emergenciais, cortou as taxas de juros para quase zero e injetou trilhões de dólares nos mercados de títulos.

Juntos, esses programas impediram o que os formuladores de políticas mais temiam na época: uma espiral descendente, em que as dispensas causadas pela pandemia levariam a grandes quedas na receita e nos gastos, o que, por sua vez, resultaria em mais dispensas e assim por diante. Esse processo de retroalimentação é o que transforma recessões em depressões. Ao enviar dinheiro para famílias, trabalhadores desempregados e pequenas empresas, e tornando mais fácil para as grandes corporações levantar dinheiro (por meio dos programas do Fed), o governo federal sustentou a renda e os gastos agregados, que de outra forma teriam se reduzido fortemente. Na verdade, esses programas foram tão bem-sucedidos que a renda pessoal disponível geral – o valor total da renda que os norte-americanos dispunham para gastar depois de pagar os impostos – não diminuiu. Na sexta-feira, o Departamento de Comércio informou que a renda pessoal disponível aumentou ligeiramente em dezembro, para US$ 15,5 trilhões em uma base ajustada pela inflação. Isso é cerca de 300 bilhões de dólares acima do valor de fevereiro passado, antes da pandemia chegar.

Essa operação sem precedentes para aumentar a renda familiar ajudou a sustentar os gastos dos consumidores, que representam cerca de dois terços do produto interno bruto. Em abril, com muitas pessoas presas em casa e muitas lojas fechadas, os gastos dos consumidores despencaram. No entanto, seus gastos se recuperaram fortemente por seis meses, antes de cair um pouco novamente nos últimos dois meses do ano, quando a segunda onda do vírus começou. Em dezembro, as despesas gerais de consumo pessoal totalizaram cerca de US$ 12,9 trilhões. Isso representa uma queda de quatrocentos bilhões de dólares em relação a fevereiro passado, mas essa queda foi muito menor do que muitos economistas temiam.

Taxa de desemprego não dá a imagem completa

Para repetir a Lição 2, esses números agregados não capturam o destino de milhões de norte-americanos que sofreram muito nos últimos onze meses. Muitas dessas pessoas trabalham nas indústrias mais afetadas pelos fechamentos – hotéis, restaurantes e empresas de hospitalidade ou lazer. Outros foram forçados a abandonar o trabalho para cuidar dos filhos ou de outros membros da família. De acordo com o Departamento do Trabalho, o total oficial de desempregados era de 10,7 milhões em dezembro, dos quais quatro milhões estavam sem trabalho há 27 semanas ou mais. No entanto, mesmo esses números terríveis não dão uma imagem completa.

Por um lado, eles não contam os norte-americanos que abandonaram a força de trabalho. Graças ao crescimento populacional, a força de trabalho geralmente cresce a cada ano, mas entre dezembro de 2019 e dezembro de 2020, diminuiu em quatro milhões de pessoas. Os números dos desempregados também não nos falam de trabalhadores que tiveram suas horas cortadas ou sofreram redução de salários. “Existem agora 26,8 milhões de trabalhadores – 15,8% da força de trabalho – que estão ou desocupados por causa do vírus, ou sofreram uma queda nas horas trabalhadas ou salários por causa da pandemia”, Heidi Shierholz, economista do Economic Policy Institute, escreveu no início desta semana. “Além disso, começamos a perder empregos novamente em dezembro.” Na quinta-feira, o Departamento do Trabalho informou que mais 1,3 milhão de pessoas solicitaram auxílio-desemprego na semana passada. Dois terços desses novos requerentes solicitaram benefícios estaduais regulares de desemprego; o outro terço entrou com um pedido de benefícios de acordo com um programa que o Congresso introduziu para os trabalhadores temporários ou em plataformas em março passado.

Maior dificuldade para grupos minoritários e de baixa escolaridade

O fardo da pandemia caiu com mais força sobre os membros de grupos minoritários e trabalhadores de baixa remuneração – incluindo trabalhadores sem documentos – que não podem trabalhar em casa e não têm reservas financeiras para enfrentar uma recessão prolongada. No mês passado, por exemplo, quando o clima mais frio e a disseminação do vírus levaram a mais demissões, a taxa de desemprego latino-americano aumentou de 8,4 por cento para 9,3 por cento, e a taxa de desemprego entre trabalhadores com escolaridade inferior ao ensino médio aumentou de 9,2 por cento para 9,8 por cento. Em comparação, a taxa de desemprego entre brancos era de 6%, e entre pessoas com diploma universitário era de apenas 3,8%.

1 em cada 5 com aluguel atrasado

Apesar da expansão dos benefícios aos desempregados, que o Congresso escandalosamente permitiu que expirassem brevemente antes de renovar o programa em dezembro, a pandemia continua causando muita ansiedade e sofrimento. Para avaliar o impacto, o Census Bureau lançou uma nova pesquisa em abril passado, na qual pergunta às pessoas sobre suas condições de vida. A última pesquisa foi feita no início de janeiro. “Quase 24 milhões de adultos – 11 por cento do total – relataram que suas famílias às vezes ou frequentemente não tinham o suficiente para comer nos últimos sete dias”, disse Claire Zippel, analista do Centro de Orçamento e Prioridades Políticas, em uma postagem no blog sobre os resultados da pesquisa. “Estima-se que 15,1 milhões de adultos morando em casas para alugar – 1 em cada 5 adultos que moram em residências alugadas – não estão em dia com o aluguel.

O projeto de lei de gastos do coronavírus que o Congresso aprovou em dezembro, de cerca de novecentos bilhões de dólares, já está fornecendo algum apoio adicional às famílias duramente atingidas, e o pacote de US$ 1,9 trilhão incentivado pelo governo Biden, se aprovado, proporcionará muito mais. No entanto, praticamente todos os economistas concordam que a verdadeira chave para reviver a economia e aliviar as adversidades é derrotar o vírus. Dada a resistência a medidas rígidas de bloqueio nos Estados Unidos e em outros países ocidentais, isso equivale a vacinar a maioria da população nos próximos meses. Se isso acontecer, muitos analistas econômicos estão prevendo uma recuperação econômica vigorosa no segundo semestre do ano. O Goldman Sachs, por exemplo, está prevendo que o PIB dos Estados Unidos aumentará 6,6 por cento em 2021, o que seria o maior aumento desde 1984.

22,9 milhões já vacinados

No sábado, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças, 22,9 milhões de norte-americanos, ou cerca de 6,9 por cento da população, haviam recebido pelo menos uma dose de vacina. Isso coloca os Estados Unidos à frente de muitos países, mas muito atrás de Israel, onde 52,6% da população foi vacinada, e um pouco atrás do Reino Unido, onde 12,3% foram imunizados. O presidente Biden se comprometeu a aumentar o número de vacinados para cem milhões até o final de abril, o que teria um grande impacto. Isso presumindo, é claro, que as vacinas forneçam proteção adequada contra quaisquer cepas do vírus predominantes nessa época. Com base nos estudos científicos mais recentes, incluindo os resultados dos testes clínicos de uma nova vacina da Johnson & Johnson, essa parece ser uma hipótese razoável. Embora os testes tenham mostrado que a vacina J. & J. foi apenas 57 por cento eficaz na prevenção de infecções na África do Sul, onde quase todas as infecções no teste foram causadas por uma variante particularmente virulenta do coronavírus, a vacina foi mais de oitenta e nove por cento eficaz na prevenção de doenças graves. Isso é encorajador. Mas os formuladores de políticas econômicas, como epidemiologistas e todos nós, estamos monitorando de perto o curso que o vírus pode tomar a seguir.

John Cassidy é redator da equipe da The New Yorker desde 1995.

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