Arranhar e quebrar: das ações individuais aos engajamentos coletivos no racismo estrutural

Jogadores do Paris Saint Germain e Istanbul Basaksehir ajoelham-se em protesto contra o racismo antes da partida de futebol remarcada pela Liga dos Campeões da UEFA, no estádio Parque dos Príncipes, em Paris, 9 de dezembro de 2020. Fotografia: Julien Mattia/Agência Anadolu

Racismo, homofobia, misoginia, xenofobia. Presenciar males imensos e ignorar é só um pouco menos ruim que a participação ativa.

Rodrigo Trindade

Fonte: Revisão Trabalhista
Data original da publicação: 09/12/2020

É sobre solidariedade entre colegas de trabalho e como posturas individuais podem levar a grandes comprometimentos coletivos.

Em novembro de 2019 – praticamente um ano atrás –, em partida de futebol por campeonato europeu, o atleta Taison ouviu ofensas racistas e não se curvou. Xingou os agressores e, mesmo vítima, acabou expulso da partida. Seus brancos companheiros de clube seguiram normalmente jogando, não era com eles.

Em dezembro de 2020 o jogo virou. Em jogo pela Champions League, após comentário racista de árbitro auxiliar, todos os jogadores de ambos os times (PSG e Istanbul Basaksehir) decidiram não aceitar a ofensa e, juntos, abandonaram o campo em protesto.

Foi a primeira vez que duas equipes se uniram para protestar contra atitude de árbitro por racismo. Em termos justrabalhistas, presenciamos greve de solidariedade a empregado desrespeitado durante a realização de seu ofício. Não há lei que, expressamente, acolha o que fizeram. Mas não havia outra coisa a fazer. Diferente do episódio com Taison, o incidente de 2020 não tem precedentes e provoca problema regulamentar e trabalhista inédito.  

Atleta negro, Taison insurgiu-se em ato pessoal de resistência e restou sozinho. A reação contundente de todos os atletas da partida recente mostra o avanço na percepção de que o racismo não pode ser encarado como agressão individual. É ato de violência contra toda a humanidade e as reações de reprovação devem ser imediatas, firmes e, principalmente, coletivas. Se o racismo diz-se estruturante porque condiciona repetições comportamentais automáticas e organiza ossaturas institucionais básicas, é em sua completude que precisa ser afrontado. Ou, no máximo, será arranhado.

Racismo, homofobia, misoginia, xenofobia. Presenciar males imensos e ignorar é só um pouco menos ruim que a participação ativa. Dentro ou fora do local de trabalho, atitudes individuais servem principalmente à simbologia e inspiração das resistências, mas apenas o engajamento coletivo contra a violência social pode se constituir em combate efetivo. Há uma roda de destino que já foi bem arranhada, está na hora dela ser quebrada.

Rodrigo Trindade é professor universitário, ex-Presidente da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 4ª Região – AMATRA IV, juiz do Trabalho na 4ª Região.

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