Após assassinato de homem negro, Carrefour mantém desigualdade racial em cargos de comando

Ilustração: Denise Matsumoto/Alma Preta

A rede Carrefour informa regularmente à CVM (Comissão de Valores Mobiliários), autarquia ligada ao Ministério da Economia, quais são os fatores de risco para os negócios do grupo, metas de desenvolvimento e quais medidas estratégicas estão sendo tomadas na condução da gestão da rede. O envio desses dados é obrigatório para manter os acionistas informados e garantir a transparência das atividades. 

Os relatórios referentes a 2019/2020 e 2020/2021, elaborados anualmente, indicam que, após o assassinato de Beto Freitas, em novembro de 2020, a empresa tomou diversas medidas de gestão de crise e implantou programas de combate ao racismo, além de reestruturar o modelo de segurança. No entanto, nos cargos de comando, não há representatividade racial, apenas 21% dos diretores sênior da rede, que tem 95 mil funcionários no país, são negros.

De acordo com os relatórios, em dezembro de 2020, a rede Carrefour tinha 74 diretores seniores, sendo que três deles trabalhavam na região Nordeste (Bahia, Ceará e Pernambuco), enquanto na região Sudeste haviam 66 diretores seniores: 63 em São Paulo (63), um no Rio de Janeiro, um no Espírito Santo e um em Minas Gerais. No Rio Grande do Sul, onde o Beto Freitas morreu, há apenas uma diretor sênior, que não é negro.

No relatório enviado à CVM, em outubro de 2021, o Carrefour cita a morte de Beto Freitas como exemplo de fator de risco à imagem da marca. “No caso da ocorrência de quaisquer incidentes causados por colaboradores e/ou terceirizados, seja por ação ou omissão, podem ocorrer lesões ou morte de clientes e/ou funcionários, que podem acarretar sérios danos de imagem, bem como danos materiais, como ocorreu em novembro de 2020, na loja Carrefour localizada em Porto Alegre, onde ocorreu uma situação trágica”, diz o trecho do relatório.

Na sequência, o documento diz que, além da imagem da marca, há o risco do grupo ser responsabilizado e ter que pagar indenizações. “A ocorrência desses incidentes pode nos sujeitar à imposição de responsabilidade civil e/ou criminal, obrigação do ressarcimento às vítimas ou pagamento de indenizações, causando um efeito material adverso para nossos negócios”, aponta outro trecho do relatório.

Falta de transparência

No dia 11 de junho de 2021, a rede assinou um acordo judicial de ajuste de conduta (TAC) com entidades civis, com o Ministério Público do Trabalho, com o Ministério Público do Rio Grande do Sul, com a Defensoria Pública do Rio Grande do Sul, com a Defensoria Pública da União, com o Ministério Público Federal referente a quatro inquéritos civis, duas ações públicas e um processo da DPU, todos eles relacionados ao assassinato que aconteceu no loja de Porto Alegre. 

O documento, de 45 páginas, impõe uma série de medidas, prazos e investimentos para o combate ao racismo estrutural e à desigualdade racial. O advogado Marlon Reis, responsável por uma ação de dano moral coletivo e dano social apresentada pela Associação EducAfro e pelo Centro Santo Dias de Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo, afirma que, passados mais de seis meses da assinatura do acordo, falta transparência na apresentação de dados sobre o cumprimento do TAC.

“Foi feito o acordo, mas a postura da rede é de intransigência ao prestar contas dos passos que já foram realizados. Não foi permitido, por exemplo, o acesso público pleno aos dados e do que está sendo feito. Por sua vez, a empresa insiste na divulgação de relatórios”, diz Reis, do escritório Márlon Reis, Estorilio & Léda Advogados Associados.

Segundo o advogado, há um pedido judicial feito pelas entidades para o pleno acesso aos dados do cumprimento do TAC. A solicitação feita à Justiça ainda está em tramitação. 

“O acordo precisa ser cumprido – e transparentemente cumprido. Nós lamentamos que o Carrefour não esteja assegurando que isso aconteça”, pontua Reis.

O TAC também prevê que seja contratada uma empresa de auditoria independente para que seja acompanhada a execução do acordo. “Não sabemos ainda qual a empresa de consultoria foi contratada para fazer essa auditoria. É possível que o Carrefour só revele essa informação  quando sair o primeiro relatório de auditoria. Lamentamos muito essa falta de transparência”, acredita o advogado.

Durante o ano de 2020, quando Beto Freitas foi assassinado, a rede Carrefour teve um faturamento líquido de R$2,8 bilhões no Brasil. Nos três primeiros trimestres de 2021, o faturamento ficou em R$2,1 bilhões. Os dados consolidados do quarto trimestre, quando o faturamento do varejo é maior por conta das festas de final de ano, devem ser divulgados até o final de fevereiro, mas é possível que o lucro da rede em 2021 supere o de 2020, mesmo com o aumento das despesas com a mudança no sistema de segurança das lojas, sem empresas terceirizadas, como uma medida antirracista.

“Mas não basta internacionalizar a segurança que não representa mudanças efetivas no modo de pensar da empresa, mas, sim, construir uma cultura interna antirracista, com o envolvimento da alta administração, com um exemplo que chega de cima para baixo e uma promoção de ações concretas no dia-a-dia”, defende o advogado Marlon Reis.


Ato de 26.11.20, em Brasília, marca o sétimo dia da morte de João Alberto Silveira Freitas, assassinado por seguranças de uma unidade do Carrefour em Porto Alegre (RS). Fotografia: Leopoldo Silva/Agência Senado

Funcionários negros

Segundo os dados do Carrefour, 63% dos funcionários do grupo são negros, ou seja, autodeclarados pretos ou pardos. Nos cargos de nível gerencial, são 54,3% de negros. No que diz respeito ao gênero, o Carrefour tem 48% de funcionárias mulheres, porém, elas representam 36,5% dos titulares em cargos de gerente, uma desigualdade de quase 12 pontos percentuais.

Durante o ano de 2021, a rede mudou o sistema de segurança, que era na maior parte terceirizada, para um modelo próprio com a diretriz de contratação de mais pessoas negras (cerca de 60% das vagas) e mulheres (40%). A efetivação desse sistema ainda está sendo desenvolvida.

Nas demais vagas que a rede abriu, ao longo dos últimos dois anos, segundo os dados enviados para a CVM, a orientação é que, no mínimo, 50% delas fossem preenchidas por pessoas negras. Além disso, a rede informou que tem planos de investir no desenvolvimento da carreira de funcionários negros.

Nos relatórios de fatores de risco do Carrefour, a repercussão negativa de casos de racismo e discriminação nas lojas é apontada como um sinal de alerta que expõe a marca a um prejuízo de imagem. Em 2020, o lucro líquido do grupo no Brasil foi de R$ 2,84 bilhões, superando o ano de 2019, quando foi de R$ 1,32 bi – e o de 2018, com lucro líquido de R$ 1,86 bilhão.

Ações afirmativas de combate ao racismo 

De acordo com os dados dos relatórios anuais de sustentabilidade do Carrefour, a rede afirma que os objetivos a curto prazo são justamente aumentar a contratação de funcionários negros para cargos de liderança na empresa. O documento de referência 2019, divulgado em 2020 – antes da morte de Beto Freitas – afirma que a empresa investiu na criação do GARU (Grupo de Afinidade Racial Ubuntu), que visa  atuar no enfrentamento do racismo institucional, contribuindo para o avanço da representatividade de negros em posições de liderança.

Já no relatório de 2020, ano da morte de Beto Freitas em uma das unidades do Carrefour, a rede reafirmou seu compromisso com a luta antirracista e destacou o fato ocorrido no documento dizendo que “João Alberto não será esquecido”. 

“Apesar dos esforços e compromissos já consolidados, a tragédia do dia 19 de novembro de 2020, na loja Carrefour de Porto Alegre, suscitou no grupo o desejo de ir além, engajando-se ainda mais na luta antirracista no país. Assim, paralelamente às providências e acompanhamento integral à família da vítima, o Carrefour se comprometeu publicamente a adotar medidas para evitar que episódios como esse se repitam”, diz o texto. 

Para isso, o Carrefour afirma que mobilizou expertises internas e externas para construir e efetivar um plano de ação de combate ao preconceito e racismo estrutural na sociedade. Nove líderes de movimentos e personalidades ativas em questões de diversidade foram convidados a compor um “Comitê externo independente”: Adriana Barbosa, Anna Karla da Silva Pereira, Celso Athayde, Mariana Ferreira dos Santos, Maurício Pestana, Rachel Maia, Renato Meirelles, Ricardo Sales e Silvio Almeida são os nomes citados pelo grupo. 

“Com base nas orientações desse Comitê, bem como nas contribuições do Grupo de Afinidades GARU, a Companhia apresentou, no dia 25 de novembro de 2020, um plano de ação de curto, médio e longo prazos, que reforça o compromisso com a valorização da diversidade com maior ênfase na inclusão de negros e negras e no combate à discriminação. Para contribuir ao enfrentamento do racismo estrutural no país, o grupo estabeleceu oito compromissos, desdobrados a três esferas de stakeholders: interna (colaboradores); ecossistema (parceiros e fornecedores da rede); e externa (sociedade)”, salienta a rede. 

O documento ainda aponta que outra iniciativa voltada à população carente, criada em 2020, é o Guia gastronômico das quebradas. Patrocinado pelo Atacadão, o projeto mapeia estabelecimentos bons e baratos nas periferias de São Paulo e Região Metropolitana, com o objetivo de valorizar e difundir as manifestações culturais de periferias. Em 2020, foram realizadas duas ações principais: o lançamento do guia gastronômico Prato Firmeza Preto e uma série de cinco podcasts, aprofundando discussões dos temas levantados no guia.

Fonte: O Joio e o Trigo
Data original da publicação: 04/02/2022

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *