A Renda Básica Universal e as relações no pós pandemia

Fotografia: João Mattos

É hora da união entre os continentes para definir globalmente a instalação da RBU, bem como os valores, sem adiamento do tempo.

Iana Pires

Fonte: GGN
Data original da publicação: 24/02/2021

Tudo mudou na sociedade com a chegada da pandemia do coronavírus. Quem não mudou está vivendo num mundo paralelo apegado, rígido e sem desenvolvimento cognitivo.

Os que são do mundo que viveu realmente a pandemia, seus efeitos, o empenho nos cuidados e o distanciamento social deverão estar permeáveis às mudanças. Entre elas, a necessidade de olhar para si e para os outros reforçando a tendência de mover para produzir a nova realidade: aceitar o fato de que precisamos da Renda Básica Universal (RBU) e, com ela, viver experiências diferentes com o trabalho, reduzindo a competição e aumentando a qualidade da relação com o trabalho e das relações interpessoais.

No contexto político brasileiro atual, o foco do governo é devastar os direitos sociais e trabalhistas (leia aqui), em meio a diversas crises espalhadas pelo mundo. O foco primordial da sociedade será o de combater qualquer prática que agrave a tristeza dos brasileiros e buscar soluções para alcançar o bem-estar social, além da mudança global de governos para outros que não somente protejam, mas ampliem os direitos das pessoas e tratem a necessidade da RBU não como assistencialismo que não garante a sobrevivência, e sim como um direito básico e fundamental que promova, de fato, a vida. A Renda Básica Universal deve garantir “a todos os indivíduos uma quantia suficiente para satisfazer suas necessidades básicas, como alimentação e moradia, sem exigir nenhuma contrapartida” (Fonte: Agência Senado). No entanto, ao olharmos para ela e para nós mesmos, a responsabilidade é também nossa de enxergar num contexto mais amplo, em que condições básicas de vida são para muito além de moradia, saneamento e alimentação. Em meio a isto, é preciso a experiência de modos subjetivos de viver. “Ocupar-se consigo mesmo” era o que Sócrates, na Grécia Antiga, ensinava aos atenienses e os incentivava para que se ocupassem de se tornar mais sensatos quanto possível, se importarem mais com “a razão, a verdade e a melhoria da própria alma”. Sócrates foi censurado e condenado por incentivar os valores humanos, mas hoje está conosco a responsabilidade de promovê-los, cuidando da qualidade do tempo e de vida da coletividade como um todo. A RBU será um dos elementos que favorecerá este cuidado, da melhoria da qualidade do tempo e de vida, de modo que as pessoas possam, enfim, cuidar de melhorar a si mesmos e a pensar na própria cidade em vez de pensar nas coisas, nas dificuldades enfrentadas no desalinhamento dos interesses dos patrões, com medo de perder o emprego ao assumir uma luta por justiça, nos interesses de (ou desejo por) correntes políticas e, no caso dos mais pobres, ter um tempo qualificado para não precisar pensar apenas em sobreviver.

Os pais, devido a elevadas cargas horárias de trabalho, não conseguem atender a todas as demandas da casa, trabalho e filhos. E isso não se trata de um fracasso pessoal: trata-se do fato de terem muitas exigências e pouco tempo para executá-las. Segundo o Coletivo Feminista de Sexualidade e Saúde, o desenvolvimento dos filhos, por conta do problema de qualidade do tempo e de vida dos pais, fica comprometido diante da falta de estímulos adequados.

Pensando neste sofrimento das famílias, a RBU permitirá a distribuição das cargas horárias de modo a aliviar a jornada dos trabalhadores, ao passo que promoverá a qualidade na geração e movimentação saudável de empregos. Ou seja, os empregos deverão tornar seu entorno mais atrativo para a socialização dos trabalhadores, para a flexibilidade entre trabalho individual e em equipe, para o desenvolvimento livre de pressões, bem como prazeroso das habilidades pessoais e para uma integração mais rica entre o trabalho e diferentes áreas da vida. Deste modo, o trabalho, independentemente da função, não será executado por necessidade de sobrevivência, mas sim de existência plena, subjetivação, colaboração e experiência humana. O trabalho, livre da necessidade de ser executado como meio de sobrevivência, por si só é uma necessidade humana genuína e a sociedade deveria enxergá-lo assim, como uma necessidade natural, uma força colaborativa que pulsa do interior de cada um para elaboração da vida. Com tudo isto, outra tendência será a eliminação dos excessos burocráticos, já que o foco deverá ser, justamente, a própria vida.

No contexto geracional, temos o problema de jovens adultos que precisam deixar a casa dos pais e enfrentam dificuldades decorrentes de motivos sobrepostos: exigência do mercado de trabalho de mais anos de estudo e preparação profissional, alto custo de vida e desemprego. A vida dessas pessoas adultas precisa de soluções urgentes para o problema da dependência financeira, já que o cérebro humano necessita de independência, tanto econômica como pessoal, para desenvolver adequadamente as funções executivas (leia aqui). Na situação da pandemia, sabe-se que a proporção destes adultos aumentou, já que muitos, obrigado a voltar a morar com a família de origem tiveram reduções ou perdas totais de rendimentos, inviabilizando o autossustento (leia aqui).

Um dos reflexos deste distúrbio é a menor manutenção, aquisição ou aluguel de imóveis. Portanto, a adoção da RBU deve movimentar o setor de modo mais equilibrado.

No entanto, não é só isso. O setor imobiliário deverá passar por importante mudança e ser incentivado a produzir modos diferentes de lucro, como o foco no engajamento dos acionistas proativos, tornando-se ESG (Environmental, Social and Governance), diante da necessidade de tornar as compras e locações de imóveis acessíveis à população, facilitando que os jovens adultos possam deixar a casa da família de origem e se dediquem a buscas mais genuínas e produtivas para si e para a sociedade, sendo que, dentre eles, há casos graves de jovens escravizados em famílias disfuncionais e que, por isto, nunca conseguiram superar a situação de moradia. Com relação às mulheres que se mantêm em relacionamentos agressivos, a dependência financeira é, de fato, um dos principais motivos, sendo preciso urgentemente o engajamento do setor imobiliário nesta causa, além dos governos e sociedade como um todo empregarem incentivos para melhorar a qualidade de tempo e de vida dessas mulheres. De modo geral, a dependência financeira é responsável pela geração de sofrimentos psíquicos e outras consequências insalubres, problema que vem sendo pontuado pela psicanálise.

Por outro lado, a arte precisa ser acessada como meio de expressão por todas as pessoas, como ferramenta de saúde mental, mas, sobretudo, de criação para um novo mundo. As mudanças necessárias com a RBU possibilitariam o desenvolvimento artístico da sociedade como um todo, removendo parte dos distúrbios de competição e outros sofrimentos no meio artístico, pois a arte passará a ser vista de maneira mais humanizada e integral. Os fazeres e instrumentalizações de arte nos ambientes online, que se intensificaram durante a pandemia, já apontam para esta tendência, buscando dissolver os padrões de competição e críticas nocivas, enquanto alimenta a acessibilidade das diversas linguagens de arte como necessidade de expressão humana e ferramenta de saúde psíquica.

Outras mudanças a que teremos de estar empenhados são os deslocamentos dos investimentos para empresas ESG, forçando, assim, todas elas a se empenharem na preservação e melhorias de ações de proteção do meio ambiente e dos Direitos Humanos. Toda a população teria maior participação consciente nas relações econômicas, de modo que estejam todos alinhados com a saúde da sociedade, da natureza e das relações humanas.

A RBU é uma medida que deve ser realizada globalmente, ou seja, envolvendo todos os países do planeta, junto ao Banco Mundial, já que as facilidades e dificuldades entre eles são heterogêneas. Vale lembrar que o Banco Mundial, que possui mais 180 nações como membro, já precisou reinventar-se para seguir relevante no combate à desigualdade social pelo mundo. Embora as decisões do Banco tenham grande influência política, é hora de permeá-las com as urgências globais humanas de bem-estar social.

Não são mais tempos de apenas testar o funcionamento da RBU pelo mundo. E não são tempos de nenhum país fazer isso sozinho, até porque muitos não sairão do lugar, um velho retardo estratégico. É hora da união entre os continentes para definir globalmente a instalação da RBU, bem como os valores, sem adiamento do tempo. Atualmente, o Estado do Alasca, nos EUA, paga a cada habitante dois mil dólares (cerca de 11.300 reais), destino dos rendimentos de um fundo que investe os royalties do petróleo recebidos pelo Estado. Outros países de diferentes continentes testam ou projetam a instalação da RBU, cujos valores variam para mais, comparados ao Alasca, como é o caso do projeto rejeitado de 2017 da Suíça, a distribuir 2,5 mil francos (cerca de 15.425 reais) para cada adulto e 625 francos (cerca de 3.856 reais) para cada menor de 18 anos de idade, ou para menos, como é o caso do experimento da Holanda, a transferir 1.300 euros (cerca de 8.606 reais) para cada pessoa. O economista britânico Thomas Paine, um dos fundadores dos EUA, propôs que cada indivíduo recebesse uma “subvenção de capital” que lhe permitiria “fugir à indigência e exercer os direitos declarados universais”. Os defensores da RBU destacam que a implantação deste sistema reduziria a desigualdade, ajudaria os desempregados e quem se dedica a cuidar de familiares sem ser remunerados, e equilibraria o aumento da automatização do trabalho (leia aqui).

São tempos em que só é possível viver neste mundo com novas perspectivas. Vamos ter de aceitar que, para tanto, precisaremos exigir globalmente a Renda Básica Universal, além de estarmos abertos para sua era, de modo a não somente a sociedade sobreviver, mas também, desta vez, urgente e finalmente, viver movimentos mais saudáveis e relações genuínas com dignidade.

Referências

A hermenêutica do sujeito”, Michel Foucault

Pereira, D. C. de S., Camargo, V. S., & Aoyama, P. C. N. (2018). Análise funcional da permanência das mulheres nos relacionamentos abusivos: Um estudo prático. Revista Brasileira De Terapia Comportamental E Cognitiva20(2), 10-25. https://doi.org/10.31505/rbtcc.v20i2.1026

A desconstrução da sociedade salarial

https://outraspalavras.net/trabalhoeprecariado/a-desconstrucao-da-sociedade-salarial/embed/#?secret=BlxpvrtqRw

Página do Coletivo Feminista de Sexualidade e Saúde

https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2019/05/geracao-canguru-os-filhos-adultos-que-moram-com-os-pais-cjwavy0wn018v01qt7mm1eczs.html

https://oglobo.globo.com/ela/volta-de-jovens-adultos-para-casa-dos-pais-torna-se-realidade-em-varias-de-familias-brasileiras-com-pandemia-1-24482105

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-38489876

Iana Pires é mestre em Ciências (USP) e atua com Comunicação Humana.

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