A recuperação em forma de ‘raiz quadrada’

Fotografia: Roberto Parizotti/Fotos Públicas

As projeções para o crescimento de 2022 não são entusiasmantes; hoje estão em torno de 2%.

Flavio Fligenspan

Fonte: Sul21
Data original da publicação: 17/08/2021

O Banco Central do Brasil divulgou, na semana passada, o IBC-Br de junho, um indicador sintético considerado uma prévia do PIB, que tem a vantagem de ser medido mensalmente e publicado antes do PIB calculado pelo IBGE. O PIB é o número oficial, mais abrangente e mais “completo”, contudo, por ter periodicidade trimestral, é conhecido depois do IBC-Br.

O IBC-Br tem confirmado, mês a mês, cada vez mais, o que se pensava que deveria ocorrer com a economia brasileira desde a metade do ano passado. Naquele momento discutia-se qual seria o formato da recuperação depois da queda abrupta dos meses iniciais da pandemia, quando houve uma semi paralisação das atividades. O Ministério da Economia pregava que já estava se desenhando uma recuperação em “V”, tal como se observava na economia chinesa, com queda aguda e retomada rápida. Eu achava que o formato seria diferente, o de um “V” assimétrico, com queda aguda e recuperação mais lenta, mais parecido com a logomarca da Nike, ou uma forma semelhante a do símbolo da raiz quadrada, queda seguida de recuperação e longos meses de estabilidade. Como discuti nas Colunas publicadas neste espaço em 3 de agosto e 28 de setembro de 2020, me parecia que a recuperação seria suave e não teria fôlego para manter o ritmo de alta.

Passado um ano daquele debate, o gráfico que acompanha esta coluna mostra a evolução do IBC-Br dessazonalizado desde o início de 2020 até junho de 2021 e deixa claro que vingou uma forma combinada, do “V” assimétrico com a raiz quadrada. Dois fatos merecem destaque: (i) somente em fevereiro deste ano se alcançou novamente o nível de pré-pandemia, de fevereiro de 2020, o que conforma o “V” assimétrico; e (ii) este nível não foi superado nos meses seguintes e sequer se sustentou, pois entre março e junho de 2021 houve avanços e recuos, o que aproxima a forma gráfica do símbolo da raiz quadrada.

Olhando para o futuro, a maioria dos analistas de conjuntura acredita que a economia brasileira vai crescer cerca de 5% neste ano, o que significa repor tudo que perdemos com a pandemia em 2020, mas é bom lembrar que isto ainda nos deixaria um pouco abaixo do PIB de 2014, antes da recessão anterior à da pandemia. E as projeções para o crescimento de 2022 não são entusiasmantes; hoje estão em torno de 2%, retomando o ritmo morno que se viu no triênio 2017-2019.

De qualquer forma, ter suplantado os reveses da pandemia em 2021 é uma boa notícia, ainda que atualmente isto não tenha reflexo direto no emprego e na renda das famílias. Muito da recuperação a partir do meio do ano passado se deve às políticas públicas implantadas pelo Governo Federal de apoio a famílias e a empresas, sendo a mais importante delas o Auxílio Emergencial. Sem os programas de apoio, a situação atual seria bem pior do que é, e as previsões ruins teriam se confirmado, tal como a do FMI, feita no início da pandemia, de que poderíamos encolher até 9% em 2020. Naquele momento ainda não estavam funcionando os programas de apoio e o Governo Federal relutava em fazer despesas que sacrificassem seus resultados fiscais. Se efetivamente não gastasse como gastou, a economia cairia mais do que caiu, talvez próximo do que previu o FMI, aumentando a crise social e destruindo ainda mais o capital das empresas, com quebradeira generalizada.

Ainda na semana passada o Ministro da Economia revelou à imprensa que nunca se importou muito com o que os técnicos do FMI diziam sobre o Brasil. É verdade que no passado esta instituição já errou muito nas suas recomendações e nas suas previsões sobre a economia brasileira, mas se em 2020 não tivéssemos aplicado os recursos que aplicamos nos programas de apoio, a recessão prevista pelo Fundo poderia se concretizar. E não devemos esquecer que o Governo lutou muito para segurar os recursos e preservar seus resultados fiscais, mesmo diante da tragédia que se anunciava – lembre-se a tentativa do Ministério de fixar o Auxílio Emergencial em R$ 200/mês, que só foi ampliado para R$ 600/mês por ação do Congresso.

É curioso que para preservar o dogmatismo fiscal, o Ministério prefira criticar o FMI e não realçar o fato de que os programas de apoio a famílias e a empresas foram exitosos, afastando um mal maior. Parece que o Governo evita reconhecer suas ações, para não ter que admitir que as medidas tomadas foram no sentido contrário às suas crenças econômicas.

Flavio Fligenspan é professor do Departamento de Economia e de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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