A opção subordinada do Brasil

Fotografia: Ernesto de Souza/Globo

Frente a ascensão da China e do capitalismo informacional, país aprofunda o desmonte da indústria em nome da reprimarização e das velhas riquezas.

Marcio Pochmann

Fonte: Outras Palavras
Data original da publicação: 07/02/2022

O Brasil se encontra atualmente submetido a uma nova condição periférica que se configura no interior do sistema capitalista mundial. A cada uma de suas fases (comercial, industrial, financeira e, atualmente, informacional), o capitalismo opera a partir da existência de um centro dinâmico específico que compõe, diante de suas próprias circunstâncias, o seu entorno periférico.

Para assumir o centro dinâmico, três são os seus elementos constitutivos: moeda de curso internacional, poder militar e produção e difusão tecnológica. Uma vez constituída essa tríade centralizadora, a hierarquia do sistema capitalista se consolida, sendo atualizada ao longo do tempo a relação direta e indireta com a periferia de países e regiões do mundo.

O Brasil pós-colonial se manteve relacionado perifericamente com os distintos centros dinâmicos ocidentais. Há 200 anos, por exemplo, com a crise do sistema colonial europeu, o Brasil emergiu como Estado nacional, integrando-se à perspectiva do desenvolvimento capitalista liderado pela Inglaterra e ancorado ainda na prevalência da sociedade agrária.

Na época, a integração brasileira transcorreu na forma periférica, pagando a conta do consumo importado de bens e serviços industriais com a receita obtida pela exportação de produtos primários. No século 20, com a decadência inglesa e a ascensão estadunidense, a condição periférica do Brasil foi alterada, passando à posição de semiperiferia, com a internalização da produção de manufaturas e a constituição da nova sociedade urbana e industrial.

Neste início do século 21, com os sinais crescentes do declínio estadunidense e a ascensão da Ásia, especialmente da China, avança o capitalismo informacional. É nesse cenário que o Brasil vem alterando a sua condição periférica, regredindo da posição alcançada de semiperiferia produtora e exportadora de bens industriais para a de periferia primário-exportadora.

A desistência histórica que se constata atualmente corresponde à opção dos governos Temer e Bolsonaro que aceleraram a passagem à nova condição periférica, cada vez mais rebaixada. Isso porque a resistência política interna que até então procurava resguardar a soberania nacional, concomitantemente com as garantias possíveis de vida e trabalho melhor para todos, passou a ser minada insistentemente.

Face à inédita fase do capitalismo informacional que se estrutura fortemente polarizado internacionalmente, transcorre o deslocamento do centro dinâmico do mundo do Ocidente para o Oriente. Neste contexto, o Brasil, que aderiu à globalização de forma equivocada – por ser passiva e subordinada –, convive com a desarticulação do seu complexo e diversificado sistema produtivo acumulado até o final dos anos 1980.

O resultado disso é o seu reposicionamento na Divisão Internacional do Trabalho, passando de produtor e exportador de bens manufaturados para ser majoritariamente primário-exportador. Por consequência, a perda de vitalidade interna da economia nacional tornou o país crescentemente dependente de estímulos estrangeiros, uma vez que as decisões internas de produzir commodities não decorrem do atendimento do consumo nacional, mas da demanda externa.

O que sobra ao Brasil atual tem sido o avanço do capitalismo de plataforma que ao destruir o emprego de classe média e do operariado industrial encaminha à desproletarização a serviço das grandes massas e à situação da mera subsistência. Nestas condições, o papel do Estado tem se limitado à gestão das emergências, buscando postergar – como se comprasse tempo – a própria barbárie.

Para tanto, o Estado busca oferecer ao andar “de cima” a valorização financeira do estoque de sua riqueza velha, enquanto ao andar “de baixo” restam os programas assistenciais de formação de clientelas. Essa perspectiva não abre a possibilidade de reversão da trajetória periférica atual que já acumula oito anos de decrescimento econômico em meio à simultânea consolidação do país como quarto maior consumidor/importador de bens e serviços digitais e como primeiro exportador de produtos primários do mundo.

O reconhecimento de que o Brasil se encontra diante de uma nova condição periférica, regressiva, requer outra orientação nacional assentada na formação de uma nova maioria política, capaz de construir um horizonte de expectativas superiores ao conjunto da população. Do contrário, prevalecerá o rumo que cancela o futuro da nação.

Marcio Pochmann é economista, pesquisador e político brasileiro. Professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi presidente da Fundação Perseu Abramo de 2012 a 2020, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, entre 2007 e 2012, e secretário municipal de São Paulo de 2001 a 2004. Concorreu duas vezes a prefeitura de Campinas-SP (2012 e 2016). Publicou dezenas de livros sobre Economia, sendo agraciado três vezes com o Prêmio Jabuti.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *