A economia norte-americana hoje

Fotografia: Aditya Vyas/Unsplash

Os 100 dias de Biden mostram que ele foi capaz de fazer a leitura correta dos eventos que assolaram a economia americana desde 2008.

Bruno Biasetto

Fonte: A terra é redonda
Data original da publicação: 30/06/2021

Desde a crise de 2008, a economia americana tem tido uma performance que pode ser considerada bastante positiva. O desemprego tem estado abaixo dos 5% na maior parte do tempo, à exceção do primeiro semestre de 2020. A economia americana nos anos pré-pandemia tem um crescimento médio de 3%, o maior entre os países desenvolvidos, conforme dados do US Bureau of Economic Analysis (BEA), de 2021. O país ainda apresenta um forte setor de tecnologia e de serviços, além da tradicional presença no mundo financeiro.

Por trás dessa pujança, porém, existem grandes desafios que aguardam o governo Biden. Nos primeiros 100 dias de governo, Joe Biden teve nos temas econômicos um grande destaque. O desenvolvimento econômico americano afeta diretamente questões de segurança, diplomacia e saúde. Os primeiros sinais do governo Biden são muito interessantes e apontam para uma estratégia disruptiva que está sendo colocada em prática. A ênfase em infraestrutura e em tecnologia verde contida no ambicioso plano de estímulo econômico de US$ 1,9 trilhão é promissora.

Dessa forma, visando a compreender como esse complexo planejamento vai funcionar, este artigo será dividido em duas seções. Na primeira parte, vai-se abordar os problemas deixados em aberto pelos governos Barack Obama e Donald Trump. Já na segunda, o planejamento econômico de Biden será analisado.

Um fosso cada vez maior: economia americana nos anos Obama e Trump

A crise da bolha imobiliária de 2008 colocou a credibilidade da economia americana em xeque. O fato de o colapso do capitalismo ter sido evitado fez a opinião pública e o mundo acadêmico se esquecerem da importância desta crise e de como suas consequências ainda afetam a economia global. A principal consequência da crise de 2008 foi o aumento da desigualdade de renda nos Estados Unidos, nem Obama nem Trump conseguiram lidar com esse problema.

O impacto direto disso foi o crescimento das mortes por overdose, o fortalecimento do populismo e a destruição definitiva da vida econômica de antigos centros industriais (Stanford, 2021). Desde a década de 1980, a economia americana apresenta duas realidades muito distintas. De um lado, a nova economia ligada aos setores de tecnologia e finanças se desenvolve de uma forma impressionante. Em contrapartida, as tradicionais cidades do interior empobreceram de uma forma dramática desde 2008. Milhões de trabalhadores se viram sem possibilidades de um novo emprego, já que a nova economia não necessita do tipo de conhecimento que eles acumularam ao longo de uma vida. A recuperação econômica vista durante o governo Obama teve como marca o aumento da desigualdade entre estes dois grupos.

A nova economia gerava prosperidade e um boom no setor de serviços em cidades como San Francisco e Nova York. Enquanto isso, trabalhadores de regiões industriais decadentes em Michigan e Wisconsin trocavam antigos empregos bem remunerados na indústria por empregos com salários menores em um setor de serviços bastante empobrecido. É importante frisar que, nos Estados Unidos, o amparo ao trabalhador desempregado é menor do que em outros países desenvolvidos (Morabito, 2020). Além disso, programas de treinamento e de reinserção ao mundo do trabalho receberam pouca atenção das autoridades.

Trump foi muito hábil em fazer a leitura deste cenário e se aproveitar da revolta destes trabalhadores com a diminuição de seu padrão de vida, enquanto Obama e os democratas se concentraram no êxito da nova economia. Justamente por isso, Trump afirmou que Obama havia fracassado na economia, a despeito de sua boa gestão na condução da crise de 2008. Obama entregava um país com pleno emprego, poder de compra e inflação baixa.

Trump apelava, contudo, para os trabalhadores que perderam tudo após 2008. Essa estratégia teve relevante papel na vitória do republicano em 2016, aliado a outros fatores conjunturais daquele ciclo eleitoral. Ao assumir a Presidência, em 2017, Trump prometia o retorno das indústrias para os EUA. Ele afirmava que isso seria possível por meio de uma guerra comercial com a China. A promessa de Trump era algo que não encontrava eco na realidade, já que a pressão comercial exercida sobre a China e sobre outros países asiáticos não seria suficientemente forte para reverter a lógica da globalização.

As fábricas seguiram na Ásia, e Trump teve de mudar o foco. Ao implementar um corte de impostos em um período de plena expansão econômica, Trump acelerou ainda mais o ritmo do crescimento econômico americano. O corte de impostos, o oitavo maior da história americana, teve como benefício o aumento dos salários das camadas mais sofridas da população, por causa do aumento da atividade econômica gerada por essa medida. A maioria dos benefícios fiscais foi dada, porém, para o 1% mais rico da população, além de aumentar a dívida pública americana (Gale, 2020). Em resumo, Trump optou por acelerar o crescimento da economia em seu mandato em detrimento das consequências para o futuro.

A ponte: a construção da economia americana no pós-pandemia

Joe Biden não possui o carisma de um Kennedy, ou Reagan, mas o atual presidente americano é um ótimo observador e um hábil gestor de pessoas. Seu estilo discreto e sua experiência são mudanças bem-vindas em relação ao que foi visto no mandato anterior. No que diz respeito à economia, Biden está mais ao centro, podendo ser considerado um liberal moderado. O atual presidente sabe que foi eleito com o apoio da classe média urbana e dos socialistas do partido. Dessa forma, Biden precisa combinar seus instintos liberais, com as demandas da base democrata e as necessidades do país.

Em seus primeiros 100 dias de mandato, Biden surpreendeu a maioria dos analistas. Suas ações no campo econômico foram mais ousadas do que qualquer medida implementada por Obama, ou por Trump. Biden soube fazer uma leitura adequada do que envolve o contexto econômico americano e como ele afeta a política do país. A reconstrução pós-pandemia é uma oportunidade única para a implementação de programas ambiciosos que sejam capazes de reinserir no mercado de trabalho os trabalhadores renegados pela nova economia. O tamanho do pacote de estímulo da economia, de US$ 1,9 trilhão, reflete a ambição de Biden. O atual presidente entende que os pacotes de ajuda anteriores, o de Obama (2009) e o de Trump (2020), deram conta apenas de problemas conjunturais. Em 2009, Obama desejava atacar questões estruturais da política americana, mas o pacote de USS 700 bilhões era insuficiente para tratar dessas demandas, e não havia apoio suficiente no Congresso para isso.

Em 2021, existe uma conscientização dos democratas de que o país vive um momento único para a implementação de medidas econômicas mais amplas, tendo o Estado como o carro-chefe deste processo (Edelberg, 2021). A principal virtude do planejamento de Biden está no fato de que ele reconhece que a reinserção das regiões menos produtivas da economia americana se dará por meio de uma forte parceria público-privada. Biden traz o Estado como um parceiro da iniciativa privada em grandes projetos. Essa combinação de forças foi vital em momentos-chave da história econômica dos Estados Unidos: desde a construção do Canal Erie, em 1825, até a parceria entre a NASA e a Tesla para a construção da Space X.

O sucesso do governo federal na condução do processo de pesquisa e de distribuição das vacinas para combater a covid-19, outra parceria público-privada, trouxe de volta a ideia de que o Estado tem um papel importante nesta hora de crise. O estímulo econômico de Biden demonstra como as demandas sociais e a economia andam juntas no pós-pandemia. Em torno de 25% do estímulo são cheques de até US$ 2.000 para a população, bem como a extensão do seguro-desemprego. Além disso, outros 25% do pacote serão alocados para projetos de infraestrutura. Biden também está articulando um pacote separado voltado apenas para a infraestrutura, concentrado na construção de estradas, portos e aeroportos. Ao contrário do que parece, os Estados Unidos possuem uma malha rodoviária e uma estrutura aeroviária bastante antiquada, especialmente quando comparada aos demais países desenvolvidos (McBride, 2021).

E, tão importante quanto os projetos em si, é o foco em projetos que fomentam tecnologias ecologicamente sustentáveis. A preservação do meio ambiente não é um empecilho para a economia, é o motor de desenvolvimento no século XXI. Para supervisionar o desenvolvimento de seu programa para a economia, Biden conta com Janet Yellen no comando da Secretaria do Tesouro. Yellen é preparada para o cargo, tendo sido presidente do Banco Central americano (FED, na sigla em inglês) entre 2014 e 2018, além de ter tido uma carreira acadêmica destacada.

Existe, porém, uma preocupação entre diversos economistas que uma injeção de recursos deste porte na economia possa gerar uma alta da inflação (Summers, 2021). Essa é uma preocupação justificada, já que é difícil prever qual será o real impacto desta medida sobre o ciclo inflacionário. Outro aspecto a ser ponderado é a questão fiscal, já que a dívida pública americana segue aumentando fortemente desde 2001. Enquanto os juros permanecerem baixos, como estão agora, isso não será um problema. Entretanto, juros futuros mais altos como uma consequência de um provável surto inflacionário, podem afetar diretamente este cálculo.

Por fim, o esforço de Biden em ser ousado vale o risco inerente às suas medidas. Apenas com um ambicioso programa econômico, as graves diferenças entre as economias regionais podem diminuir. O êxito deste plano é vital para que o chamado Rust Belte seus trabalhadores sejam reintegrados à nova economia global. Os 100 dias de Biden mostram que ele foi capaz de fazer a leitura correta dos eventos que assolaram a economia americana desde 2008. Resta saber se as ideias vão funcionar conforme o planejado.

Bruno Biasetto é pesquisador de pós-doutorado no Centro de Estudos da América Latina e Caribe da York University (Canadá). Autor de A Era de Trump (Edipucrs).

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