A dissolução do trabalho

Ilustração Le Figaro

A destinação humana ao trabalho em seu enquadramento capitalista não tem nenhum sentido porque se apresenta como ausência de sentido.

Cesar Sanson

Fonte: A Terra é Redonda
Data original da publicação: 08/07/2022

Os trabalhadores trabalham porque necessitam, não porque gostam. Dito de outra forma, a centralidade que o trabalho ocupa na vida é uma exigência do capital e não uma reivindicação dos trabalhadores. A destinação humana ao trabalho em seu enquadramento capitalista não tem nenhum sentido porque se apresenta como ausência de sentido.

Há uma toda uma tradição marxista a partir da leitura dos textos marxianos que apresenta o trabalho como central na vida humana. Marx, é evidente, reconhece o trabalho como essência da atividade humana, mas critica no que ele se transformou com a chegada do modo de produção capitalista e desde o início dos seus estudos em economia política, abandona o trabalho como um dado antropológico e o identifica como lugar da miséria humana.

A literatura marxiana é abundante neste sentido. Já nos Manuscritos Econômicos-Filosóficos, os conceitos de entäusserung (alienação) e entfremdung (estranhamento) manifestam a armadilha do trabalho no capitalismo. No primeiro caso, na entäusserung manifesta-se a transferência da atividade trabalho para o objeto do trabalho, ou seja, o processo de objetivação da subjetivação. Nesse caso, o objeto se exterioriza de quem o produziu e o morto (a mercadoria) passa a dominar o vivo (o trabalhador). O conceito entfremdung condensa, por sua vez, o conjunto das exteriorizações que se fazem sobretudo pelo trabalho, mas não apenas por ele. O estranhamento, no caso, diz respeito, acima de tudo, à inversão que o capitalismo promove na sociedade entre as pessoas e as coisas.

O capital(ismo) em Marx é um “mundo invertido” em que as relações sociais são relações entre as coisas, e essas coisas são mercadorias. Como destaca Jan Spurk,[1] “os seres humanos criam suas relações sociais coisificadas e são dominadas pelas coisas, a saber, as mercadorias”. Algo similar afirma John Holloway [2] para quem “Marx condena o capitalismo não apenas pela miséria que provoca, mas sobretudo pela inversão entre coisas e pessoas: em outras palavras, pela fetichização das relações sociais”. É isto que o trabalho produz. O trabalho não produz emancipação, produz subordinação, exploração, alienação e estranhamento.

Nos Grundrisse, Marx retoma a apresentação de como capital se apropria materialmente do trabalho e subjetivamente do trabalhador. O processo produtivo passa a ser prescrito, não sendo necessário nenhum enriquecimento do trabalhador. Trata-se do que denominou de eliminação do trabalho vivo. O mesmo tema é visitado novamente em O capital em que descreve como os meios de produção deixam de ser meios para a realização do trabalho e tornam-se meios de exploração do trabalho. É extensa e dramática a explanação de Marx sobre as consequências na vida dos trabalhadores a forma como o trabalho é organizado no capitalismo, ocasionando inclusive danos irreparáveis à saúde.

A centralidade da vida individual e coletiva subordinada ao trabalho em seu enquadramento capitalista é, portanto, desprovida de sentido. Viver para trabalhar e trabalhar para viver empobrece a condição humana.  Em Marx, apenas a dissolução do trabalho em seu modo capitalista permite o retorno ao trabalho subjetivo, autônomo, criativo e portador de sentido à vida humana.

É um equívoco defender a centralidade do trabalho em seu retorno ao padrão fordista-produtivista na vida humana, ao contrário, é preciso ousar o seu êxodo, como afirma André Gorz.

Aliás, é o próprio Marx nos Grundrisse quem sugere esta utopia ao afirmar que a engenhosidade humana coletiva – o “cérebro social”, o “intelecto geral” – ao permitir o desenvolvimento da técnica possibilita essa condição. Ocorre que a inteligência humana em seu processo histórico-civilizatório passou a ser apropriada privadamente pelo capital. Trata-se agora de transformar o desenvolvimento da técnica resultante do “cérebro social”, objetivado nas máquinas, em um projeto a serviço da vida. A produtividade alcançada pelo intelect generall permite reorganizar a vida social do trabalho.

A ideia aqui subjacente não é a do desaparecimento do trabalho, mas sim a de que a produtividade alavancada pelas máquinas-ferramentas – hoje maquinas ferramentas-informacionais – pode distribuir ganhos para todos, eliminar o trabalho subordinado e dar potência ao trabalho emancipado da tutela do capital. As condições para a entrada nesta sociedade estão dadas.

Notas

[1] SPURK, Jan. A noção de trabalho em Karl Marx. In: MERCURE, D.; SPURK, J. (Orgs.). O trabalho na história do pensamento ocidental. Petrópolis (RJ): Vozes, 2005, pp. 189-212.

[2] HOLLOWAY, John. Mudar o mundo sem tomar o poder. São Paulo: Editora Viramundo, 2003.

Cesar Sanson é professor de sociologia do trabalho do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

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