6 de dezembro de 1969: morre João Cândido, o “Almirante Negro”, líder da Revolta da Chibata

Há 52 anos, morria João Cândido, o “Almirante Negro”, líder da Revolta da Chibata

João Cândido. Fotografia: Arquivo do Estado de São Paulo

Igor Natusch

Com o passar dos anos, a Revolta da Chibata – promovida por marinheiros, em sua ampla maioria negros, contra o tratamento de quase escravos que recebiam nas embarcações da Marinha Brasileira – transformou-se em símbolo da luta dos afro-brasileiros por condições dignas de trabalho e de vida. Líder da rebelião, João Cândido Felisberto entrou para a história como o “almirante negro”, a figura que liderou com coragem e retidão os que se ergueram contra os castigos físicos. As honras atuais, porém, não tiveram reflexo no tratamento recebido em vida, e o militar faleceu, pobre e sem reconhecimento, há exatos 50 anos, no dia 6 de dezembro de 1969.

João nasceu em 24 de junho de 1880, na fazenda Coxilha Bonita, localizada no município de Encruzilhada, atual Encruzilhada do Sul (RS). Filho de uma família pobre de ex-escravos, apresentou-se, ainda adolescente, como aprendiz marinheiro, sendo transferido depois para a Marinha do Brasil, no Rio de Janeiro, como grumete. Esteve ativo na Marinha de Guerra durante mais de 15 anos, participando especialmente de viagens de instrução, quando ensinava marinheiros mais novos sobre os procedimentos dentro do navio.

Era admirado pelos colegas marinheiros e respeitado pelos oficiais, em especial pela disciplina e habilidade em diferentes funções – o que, porém, não impediu que fosse alvo de alguns dos castigos comuns nas embarcações militares de então. Com as muitas viagens pelo Brasil e pelo mundo, Cândido foi desenvolvendo também um senso crescente de justiça, em especial diante do mau tratamento recebido pelos aprendizes. Essas características foram decisivas para que fosse escolhido como representante dos marinheiros em uma série de negociações.

Após as brutais 250 chibatadas dadas no marinheiro negro Marcelino Rodrigues Menezes, acusado de ter ferido um colega com uma lâmina de barbear, as disposições já existentes para a revolta explodiram de vez. Devido à ascendência que tinha sobre os demais marinheiros, João Cândido, à época dentro do navio Deodoro, foi naturalmente nomeado líder dos amotinados, que tomaram o controle de vários navios de guerra no dia 22 de novembro de 1910. Na carta enviada ao presidente Hermes da Fonseca, Cândido registrou as hoje históricas palavras:

“Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá; e até então não nos chegou; rompemos o negro véu, que nos cobria aos olhos do patriótico e enganado povo.”

A Revolta da Chibata encerrou-se no dia 26 daquele mês, com a garantia do fim das chibatadas e de anistia aos revoltosos – a segunda promessa imediatamente descumprida, a partir de decreto assinado pelo presidente dois dias após o fim do motim. Mesmo atuando a favor do governo em uma nova revolta, que eclodiu dias depois, João Cândido foi preso. Após sobreviver nas masmorras da Ilha das Cobras (onde foi trancado em uma cela desinfetada com cal viva, em um total de 18 presos, e apenas ele e mais um resistiram ao sufocamento), Cândido foi julgado não culpado de participação na revolta posterior à Chibata, mas ainda assim expulso da Marinha.

A vida do marinheiro ficou marcada para sempre pelos dramáticos eventos relacionados à Revolta da Chibata. Sustentou-se de forma precária, como estivador e ajudando a desembarcar cargas de peixes, e enfrentou dramas familiares como o suicídio da segunda esposa, Maria Dolores Vidal, em 1928. Durante os anos 1930, engajou-se na Ação Integralista Brasileira, chegando a ocupar posições de razoável destaque dentro da organização. Embora tentativas de resgatar a história de Cândido e dos demais revoltosos tenham ocorrido desde pelo menos a segunda metade dos anos 1950, a Marinha interferiu durante décadas no sentido de impedir qualquer homenagem. João Cândido viveu seus últimos dias em São João do Meriti (RJ), onde morreu de câncer, aos 89 anos de idade. Hoje, o Almirante Negro é citado por muitos como um herói, lembrado em monumentos e obras artísticas, mas ainda não foi plenamente reabilitado: em 2008, uma lei concedeu anistia a ele e a outros marinheiros, mas não o reincorporou postumamente à Marinha, luta mantida até hoje por seus familiares.

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