23 de novembro de 1887: ocorre o Massacre de Thibodaux, quando dezenas de trabalhadores negros são assassinados nos EUA

Há 123 anos, ocorria o Massacre de Thibodaux, quando dezenas de trabalhadores negros são assassinados nos EUA

Trabalhadores do cultivo de cana de açúcar na Lousiana, Estados Unidos, década de 1880. Fotografia: William Henry Jackson/Library of Congress

Igor Natusch

Um dos dias mais sangrentos da história sindical dos EUA aconteceu em 23 de novembro de 1887, no estado de Louisiana. Diante dos ainda incipientes esforços de organização dos trabalhadores negros que atuavam nas plantações de cana de açúcar, o racismo e a repressão dos patrões se uniram, resultando em uma violenta série de ataques que ficou conhecida como o Massacre de Thibodaux. Há divergência sobre o total de vítimas, embora a maioria dos historiadores admita que entre 50 e 60 pessoas foram assassinadas – uma repressão brutal que eliminou, por décadas, qualquer chance de proteção sindical aos camponeses do Sul norte-americano.

Embora a 13ª Emenda (que aboliu legalmente o trabalho escravo e a servidão nos Estados Unidos) estivesse em vigor desde 1865, as condições de trabalho e de vida dos negros que cortavam cana em Louisiana pouco se distinguiam da escravidão. Sem qualquer perspectiva fora das plantações, os trabalhadores viviam nas mesmas choupanas que abrigavam escravos em tempos idos, trabalhando em péssimas condições e recebendo salários de fome – isso quando recebiam algum pagamento em dinheiro, já que era igualmente comum o uso de vales para aquisição de alimentos, aceitos apenas nas mercearias das próprias fazendas.

Em semelhante cenário, era natural a ocorrência de uma série de conflitos. A partir de 1874, pequenos núcleos organizados começaram a surgir em algumas cidades, promovendo paralisações em nome de um pagamento diário mínimo e refeições durante os longos turnos de trabalho. A associação dos produtores de cana de açúcar, contudo, resistia em aceitar mesmo essas mínimas demandas – o que logo fez com que a Knights of Labor, maior organização sindical dos EUA à época, passasse a representar de forma mais efetiva os interesses daqueles trabalhadores.

Em 1887, a entidade organizou uma greve de três semanas, que teve efeito mais acentuado nas paróquias de Assumption, Lafourche, St. Mary e Terrebonne. A paralisação coincidia com o período crítico da produção, em novembro daquele ano – e os fazendeiros, com o apoio do governador Samuel Douglas McEnery (ele mesmo um plantador de cana), resolveram endurecer a resposta. Os núcleos foram violentamente desfeitos com o uso de milícias (o que, por si só, resultou em mortes, em especial em St. Mary), enquanto mão de obra era trazida do estado do Mississipi para que a produção não fosse interrompida. Acossados, muitos negros da região refugiaram-se no vilarejo de Thibodaux, na paróquia de Lafourche. O juiz da região, Taylor Beattie, declarou lei marcial e autorizou vigilantes brancos a patrulhar a área, exigindo identificação de todos os negros que por ali passassem. 

Na madrugada do dia 23 de novembro, dois desses guardas foram feridos por tiros de pistola, presumidamente disparados por grevistas que temiam estar sendo encurralados. A resposta dos milicianos foi uma carnificina. Arrancando negros de suas residências, os atiradores mataram de forma indiscriminada, fuzilando tanto grevistas escondidos quanto moradores sem participação alguma nos acontecimentos. Relatos dão conta de que jovens e velhos, mulheres e crianças foram massacrados, sem que pudessem oferecer resistência. Os corpos foram jogados em covas rasas, enquanto sobreviventes se escondiam nos pântanos para escapar à chacina. À época, o jornal The Weekly Pelican falou em pelo menos 35 assassinatos; a tradição oral da comunidade negra da região fala em centenas de mortes, com corpos ainda sendo descobertos semanas depois do dia fatídico.

Não houve investigação federal dos crimes, e nenhum dos assassinos foi punido. Ao contrário: alguns dos fazendeiros implicados no massacre de Thibodaux chegaram a ser eleitos para o Congresso norte-americano em anos posteriores. Além da impunidade, outra consequência das mortes foi o fim de qualquer organização sindical entre os trabalhadores rurais do Sul dos EUA. Aterrorizados, e diante da certeza de que seus patrões não seriam punidos por abusos, os cortadores de cana só voltariam a buscar representação a partir dos anos 1930, quando a Southern Tenant Farmers Union passou a aceitar negros entre os sindicalizados – uma decisão que também motivou episódios de violência racial. Injustiçados, os mortos de Thibodaux nunca receberam sequer um monumento que lembrasse o seu martírio, em mais um dos trágicos episódios  de violência racial nos Estados Unidos.

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