Um novo olhar necessário para o novo mundo do trabalho

O que se tem é a realização crescente do trabalho imaterial em qualquer local proporcionado pelo uso recorrente das tecnologias de comunicação e informação inovadoras, capaz de manter o ser humano plugado no trabalho heterônomo 24 horas por dia.

Marcio Pochmann

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Fonte: Rede Brasil Atual
Data original da publicação: 28/11/2014

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Concomitante com a passagem para o século 21 observa-se a afirmação de mudanças importantes nas modalidades de organização do trabalho. Uma delas – talvez a principal – resulta da emergência da economia dos serviços que redefine as categorias básicas como o capital, valor e trabalho. Esta última categoria, aliás, termina por incorporar crescentemente o saber em novas bases, tornando antiquados os atuais sistemas de educação e formação laboral.

Com a elevação das competências laborais e a possível ampliação da expectativa de vida para próximo de 100 anos, expande-se a demanda pela formação por toda a vida e faz-se romper a lógica educacional do século passado – comprometida somente com as fases mais precoces da vida humana (crianças, adolescente e alguns jovens). Adiciona-se a isso o avanço da criação dos postos de trabalho no setor terciário das economias (trabalho imaterial), cuja natureza formativa diverge da inserção e trajetória laboral contínua no interior das atividades primárias e secundárias da produção (trabalho material).

As novas formas de organização da produção de bens e serviços extrapolam o exercício laboral para além do exclusivo local de trabalho. Ou seja, a realização crescente do trabalho imaterial em qualquer local proporcionado pelo uso recorrente das tecnologias de comunicação e informação inovadoras, capaz de manter o ser humano plugado no trabalho heterônomo 24 horas por dia.

Não obstante o avanço tecnológico gerador de ganhos importantes de produtividade material e imaterial, aumenta a pressão por maior tempo de uso do trabalho para a sobrevivência. Trata-se do paradoxo contemporâneo concentrado na falta de sintonia entre a possibilidade da menor dimensão do tempo de trabalho heterônomo e o avanço das novas doenças do trabalho originadas pela intensificação do trabalho nos tradicionais locais de emprego da mão de obra e extensão das jornadas laborais em outras localidades (em casa ou em espaços públicos) impostas pela combinação patronal das mudanças organizacionais com inovações tecnológicas comunicacionais.

Em síntese, a emergência do trabalho imaterial encontra-se associada à intensificação e ao alargamento da jornada laboral frente à maior expectativa de vida. É nesse contexto de transformação do novo do mundo do trabalho que se deve reconsiderar a funcionalidade do atual sistema de educação e formação laboral no Brasil.

Nesse sentido que vai se constituindo uma agenda inovadora sobre o trabalho. Se a aprendizagem, por exemplo, torna-se cada vez mais o requisito necessário da inserção e sustentação ascendente no trabalho, indaga-se a respeito do ingresso no mercado de trabalho por parte dos jovens antes de ter completo o ensino superior.

Ao mesmo tempo, a aprendizagem se transforma em processo recorrente ao longo da vida, não mais circunscrita à condição de criança, adolescência e de alguns jovens. Por conta disso, como reorganizar o sistema de ensino e aprendizagem para o novo desafio de se estudar a vida toda?

Por fim, o tempo de trabalho. Na presença das novas tecnologias de comunicação e informação, as ocupações de serviços tendem a se utilizar cada vez mais e, por consequência, da extensão da jornada de trabalho, que se manifesta cada vez maior por ser efetivada fora do local determinado do trabalho.

Assim, a nova agenda do trabalho deve contemplar a existência de aprendizagem ao longo da vida, ampliação do prazo de ingresso no mercado de trabalho e menor jornada de trabalho.

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Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas.

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