Taylorismo do século XXI

Gestores têm tentado controlar trabalhadores há mais de um século. As novas pulseiras de rastreamento da Amazon são apenas a mais recente inovação.

Richard Salame

Fonte: Jacobin
Tradução: DMT
Data original da publicação: 20/02/2018

O último escândalo a emergir dos depósitos da Amazon foi um novo patenteamento de uma pulseira que permite o rastreamento e registro, em tempo real, das mãos dos trabalhadores que as usam. Alguns descreveram a tecnologia como uma forma “distópica” de vigilância. A Amazon, por sua vez, afirma que os jornalistas estão envolvidos em uma especulação equivocada. Segundo a gigante varejista, tudo que o aparelho faz é mover seu sistema de rastreamento de inventário das mãos dos trabalhadores diretamente para seus pulsos – o que há demais nisso?

Considerando o nível de vigilância e arregimentação já em utilização nos depósitos da Amazon, a companhia não foge da realidade. Atualmente, os empregados de depósito – os selecionadores – carregam um scanner que passam de produto em produto. A cada turno eles competem com um relógio de contagem regressiva, que registra quantos segundos eles possuem para encontrar um item, colocá-lo no carrinho e escanear o código de barras.

Uma variação desse método existe em depósitos onde robôs trazem as estantes até os trabalhadores. Desse modo, os empregados permanecem em um mesmo local enquanto as pilhas de produtos são apresentadas a eles, uma a uma. Por dez horas e meia eles devem inclinar-se e esticar-se para obter um item a cada nove segundos. Os scanners controlam o comportamento dos empregados através da mensuração, evitando desacelerações e permitindo que os gestores criem novos parâmetros de referências para as performances laborais. Trabalhadores rápidos aumentam os níveis para todos, enquanto que os lentos correm o risco de serem demitidos.

As pulseiras introduzem um novo ponto a esse modelo, monitorando não apenas a tarefa, mas o trabalhador em si. É interessante notar o quanto os administradores ficaram obcecados com o movimento da “administração científica”, de mais de um século atrás, o cristalizando. De acordo com a cultura peculiar da Amazon, as pulseiras não oferecem nada novo, tecnologicamente ou conceitualmente. O que mudou foi a habilidade dos trabalhadores de desafiar esse tipo de vigilância.

Quem vigia os vigilantes?

Os primeiros trabalhadores a terem sua localização registrada mecanicamente enquanto trabalhavam foram os vigilantes do século XIX. Contratados para andar no entorno de instalações à noite, os vigilantes procurariam por irregularidades como incêndios, saqueadores, janelas abertas ou odores desagradáveis. Mas os empregadores tinham um problema: quem vigiaria os vigilantes?

Em 1861, obteve-se a resposta quando o inventor alemão John Bürk patenteou o primeiro detector prático de tempo – um enorme relógio com uma tira de papel em seu revestimento interno. Os empregadores encadeariam diferentes chaves em cada cômodo de sua propriedade; quando os vigilantes entrassem em um dos cômodos, deveriam inserir a chave no relógio, fazendo com que a tira de papel no interior fosse marcada com uma indentação. Já que cada chave possuiria um padrão único e que a tira de papel estaria presa ao relógio, o empregador poderia vir na manhã seguinte, puxar a tira e examinar os registros de quando o vigilante visitou cada local.

Após a invenção de Bürk, a descrição do trabalho de vigilante mudou. Agora, ele era cobrado a levar o detector de tempo de estação a estação de chave. Ele tornou-se uma extensão do relógio, auxiliando os patrões a controlar e acumular capital.

Como uma tecnologia portátil de vigilância, o detector de tempo de Bürk era brilhante. Ainda assim, não conseguia capturar a negligência laboral no momento em que ela acontecia. Bancos, joalherias e residências de classe alta começaram a demandar rastreadores de tempo real, fazendo com que empresas de segurança e vigilância desenvolvessem a tecnologia.

O rastreamento de quase tempo real dos vigilantes começou em Nova Iorque, na década de 1870. A American District Telegraph Company (hoje chamada American District Company, ADT) e outras empresas se dedicaram a trabalhar no desenvolvimento de alarmes telegráficos contra incêndio. Assim, substituiu-se as chaves dos vigilantes por contatos eletrônicos conectados a uma estação central. Quando o guarda fizesse suas rondas, ele fecharia o circuito enviando um sinal eletrônico ao escritório, onde o administrador o receberia. Não haveria mais a espera até a manhã seguinte.

Uma solução em que todos ganham

Na década de 1880, quando a administração estava sendo formalizada em uma série de práticas e em um campo distinto, um grupo de engenheiros de vanguarda começou a tentar aplicar um método experimental para o trabalho humano. Eles desenvolveram o que se chamaria de “administração científica” ou “Taylorismo” (o que originou-se do famoso engenheiro Frederick W. Taylor).

O ato de prepotência mais radical da administração científica é que ela foi pioneira de uma ciência do movimento humano, com o “engenheiro de eficiência” como um novo tipo de cientista. Esses engenheiros experimentariam com diferentes localizações de objetos, movimentos, linhas de visão, ferramentas e posturas corporais – tudo com o objetivo de encontrar “a melhor maneira” para cada tarefa.

A “melhor maneira” deveria ser não apenas a mais rápida, mas a mais eficiente. Com bônus de pagamento atrelados à produtividade, os trabalhadores experienciariam menos pressão e ganhariam (de alguma forma) salários mais altos. Enquanto isso, o administrador receberia mais (muito mais) produtos. Era uma solução em que todos ganhavam no conflito de classes.

É impossível negar o quanto os engenheiros mediram e pesquisaram a eficiência dos corpos dos trabalhadores. Eles usaram cronômetros, filmaram e fotografaram trabalhadores, anexaram lâmpadas aos dedos dos indivíduos de forma a traçar os movimentos das mãos, o que era registrado por fotografias de longa exposição. Um engenheiro, Frank Gilbreth, desagregou dedos, ombros e pés, para demarcar os movimentos individuais em unidades de milésimos de minutos. Os trabalhadores deveriam estudar a evidência de suas próprias inadequações e aprender melhores métodos. Aqueles que não alcançassem os novos padrões eram demitidos.

Décadas antes da câmera de vídeo surgir nos locais de trabalho – quanto mais os softwares de monitoração de trabalho em computadores – essa rede proselitista de consultores e engenheiros uniram a vigilância mecânica, revisão de performance iterativa, administração por dados e monitoramento individual em experimentos.

Enquanto o grupo fragmentou-se devido a diferenças internas e sua principal instituição – a Sociedade Taylor, fechada em 1936 -, é difícil olhar para suas patentes arquetipais e para a tecnologia de pulseiras da Amazon e não ver a relação com a administração científica.

A patente de Gilbreth, “Método e aparato para o estudo e correção dos movimentos”, 1916
A patente de Gilbreth, “Método e aparato para o estudo e correção dos movimentos”, 1916. Imagem: Reprodução/Jacobin
Patente da Amazon, “Pulseira ultrassônica e receptor para a detecção de posição em plano 2D”, 2018. Imagem: Reprodução/Jacobin
Patente da Amazon, “Pulseira ultrassônica e receptor para a detecção de posição em plano 2D”, 2018. Imagem: Reprodução/Jacobin

Preocupando-se com a resistência

Na virada do século, uma vasta gama de trabalhadores reconheceu que a administração científica foi um meio de controlar o processo laboral, destruir seu monopólio no conhecimento especializado e desqualificar trabalhos de salários altos. Porém, foram os trabalhadores altamente especializados os que se posicionaram melhor na resistência contra os consultores de cronometração do que os trabalhadores menos especializados.

As experiências divergentes dos maquinistas e foguistas foram ilustrativas. Maquinistas detinham segredos do negócio, o que dificultava a interferência dos administradores em seu trabalho. Eles organizam seus próprios processos, fazendo com que ditassem o quanto produziriam e o quanto receberiam em troca. Quando os administradores tentaram exercer um maior controle, os artífices resistiam coletivamente, levando as intrusões como insultos à sua honra (masculinizada). Em 1916, eles obtiveram sucesso ao pressionar o governo a banir os cronômetros e os estudos de tempo e movimento nos arsenais federais.

Os foguistas – menos organizados e mais fáceis de substituir – não tiveram a mesma capacidade de combater o insidioso Taylorismo. Um influente estudo descobriu que esses trabalhadores acabaram carregando 270% mais peso do que antes da chegada dos especialistas em eficiência. Enquanto os maquinistas conseguiam racionalizar seu ofício e sindicatos, os foguistas estavam à mercê de seus empregadores.

Assim como o ofício de foguista, o trabalho que hoje a Amazon exige de seus empregados nos depósitos é repetitivo e desqualificado, além de ter alta rotatividade – características que enfraquecem a negociação com a administração. Para piorar a situação, o gradual aumento de técnicas no estilo da administração científica tem feito com que pareça inevitável essa expansão.

Quando se iniciou o debate sobre as pulseiras da Amazon recentemente, até mesmo a indignação pareceu resignada: isso é terrível, mas é apenas como as coisas são. A ideia de que a crescente tecnologia avançada de monitoração de trabalhadores não deveria ser desenvolvida ou implementada parece positivamente utópica.

Nos anos 1900, o fato de os engenheiros de eficiência anexarem lâmpadas aos dedos dos indivíduos pelo menos foi motivo de inquietação a respeito da resistência dos trabalhadores. Já a Amazon, pelo que parece, não se preocupa muito com isso.

Richard Salame é escritor e pesquisador radicado em Nova Iorque. Seus principais interesses são a história social dos Estados Unidos e Oriente Médio, abrangendo o final do século XIX.

One Response

  • Os diferentes momentos do desenvolvimento do processo de trabalho no capitalismo imprimiram perdas progressivas do controle do trabalhador sobre o processo produtivo. Ao lado disso cresce o controle sobre o trabalho e sobre o trabalhador pela gerência, as inovações tecnológicas também contribuem com isso, as novas pulseiras de rastreamento da Amazon são apenas a mais recente inovação.

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