Os frigoríficos e os trabalhadores. Covid-19 manifesta lógicas coloniais e paternalistas na atualidade. Entrevista com Leandro Inácio Walter

Leandro Inácio Walter. Fotografia: Arquivo pessoal

A grande ocorrência de contaminações pelo novo coronavírus em frigoríficos em todo o Brasil – levando à suspensão das atividades em algumas cidades – trouxe luz para uma realidade que parecia esquecida: a das condições de trabalho de quem atua nesses locais. Setor que ainda depende do trabalho humano nas linhas de produção, com muitas pessoas em ambiente fechado, com pouca ventilação e refrigerado a baixas temperaturas são algumas das razões apontadas pela grande incidência da covid-19. Mas, quem acompanha de perto há muito tempo esse tipo de trabalho sabe que a saúde desses profissionais sempre foi um problema, especialmente para empresas que querem mão de obra barata e pouco investimento no empregado. “As organizações precisam ser menos reativas e mais propositivas na proteção das pessoas que nela ganham a vida através do trabalho”, aponta o mestre em Psicologia Social Leandro Inácio Walter, que tem se dedicado ao tema.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, ele observa que esse aumento de casos de covid-19 nos frigoríficos “revela o negacionismo existente em muitos setores de nossa sociedade. 60 unidades em 11 estados é a ponta do iceberg da questão. Demonstra a fragilidade, no Brasil, de fiscalização do trabalho e, também, sanitária neste contexto de pandemia”. Sob o argumento de que o setor de frigorífico está entre os essenciais, empresas tocam suas produções – ainda aumentadas pelas necessidades do mercado externo e alta do dólar – sem muitos cuidados. Além disso, lembra Leandro, esse sempre foi um setor muito reativo. “É perceptível uma visão rancorosa do papel de fiscalização de muitas dessas empresas no sentido de que estes aparatos venham a criar empecilhos para a livre iniciativa de empreender nesse ramo de atividade econômica”, observa.

Para Leandro, embora muito já se tenha feito em termos de conquistas de direitos e regulamentação de proteção das atividades desses trabalhadores, o labor em frigoríficos ainda representa lógicas colonialistas que se aproveitam de pessoas mais simples e com pouca instrução, muitos até mesmo imigrantes, para assegurar salário baixo e alta produção. “Os desafios são descolonizar nossa cultura e modo de trabalhar e superar o paradigma do paternalismo ainda muito presente em nosso meio”, aponta. E completa: “Há que se tencionar uma mudança de mentalidade: trabalhadores/as, sindicatos, órgãos de fiscalização não são antagonistas, todos desempenham um papel, certamente com muitas contradições, que tornam a produção e o cuidado da força de trabalho necessário e possível”.

Leandro Inácio Walter é mestre em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Ainda possui graduação em Psicologia pela Unisinos e especialização em Ética e Educação em Direitos Humanos pela UFRGS. É autor do livro A saúde por um fio: submissão voluntária de afastados de frigoríficos de aves (Brasília: Abecer/IPeditora, 2012) e também do artigo “O trabalho nos frigoríficos: escravidão local e global?”, publicado no Cadernos IHU ideias número 238.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Mais de 60 unidades de frigoríficos em 11 estados são investigadas por desrespeitar protocolos de prevenção e disseminar a covid-19. O que esse dado revela sobre o trabalho nesses ambientes?

Leandro Inácio Walter – Além de subnotificação de casos da covid-19 pela falta de testes em massa, revela o negacionismo existente em muitos setores de nossa sociedade. 60 unidades em 11 estados é a ponta do iceberg da questão. Demonstra a fragilidade, no Brasil, de fiscalização do trabalho e, também, sanitária neste contexto de pandemia. Tudo se agrava somado às incertezas da própria ciência associada ao ceticismo/negacionismo que dificulta a informação assertiva nas providências necessárias para conter a propagação do vírus nas plantas industriais.

Sabe-se da essencialidade da produção de alimentos, especialmente para não gerar desabastecimento, e dos impactos na cadeia produtiva de eventual parada na industrialização de carnes. No entanto, tal fato não justifica um estado de exceção sanitário, com a exposição sem proteção das pessoas que trabalham nestes locais.

Para ilustrar meus argumentos, apresento duas matérias de destaque na página da Associação Brasileira de Proteína Animal que são bastante ilustrativas do atual momento no setor: “Exportações de carne de frango mantêm alta de 5,1% em 2020” e “Exportações de carne suína crescem 19% em abril”. O setor de frigoríficos e proteína animal de longe passa por crise financeira, inclusive é favorecido em termos cambiais. A ameaça a esse cenário favorável é a crise sanitária da propagação do coronavírus que pode levar à interdição de plantas industriais – como já ocorreu em Lajeado e Passo Fundo, no Rio Grande do Sul – pelas Procuradorias do Trabalho, como forma de mitigar a disseminação do vírus. Estas, por sua vez, desde março divulgaram protocolos com orientações a este segmento produtivo no intuito de garantir a saúde da força de trabalho e manutenção das atividades essenciais de produção e industrialização inclusive de toda a cadeia que a envolve, bem como de seus integrados.

Trabalhadores e familiares atingidos

É importante mencionar dados epidemiológicos para corroborar o exposto anteriormente. Dos 36 surtos de coronavírus oficialmente divulgados através de Boletim Epidemiológico do Centro Estadual de Vigilância em Saúde – CEVS do Rio Grande do Sul – Semana Epidemiológica 21 de 2020 –, 23 eram de unidades frigoríficas, expondo ao contágio diretamente 24.693 pessoas, com mortes confirmadas em Garibaldi (02 pessoas), Nova Araçá (01 pessoa) e Lajeado (01 pessoa), tendo havido 11 mortes secundárias (óbito de contactante domiciliar de caso confirmado de covid-19). É preciso observar que nessas cidades e nas cidades próximas que possuem trabalhadores laborando nestes estabelecimentos há maior incidência de casos confirmados, fato que corrobora a suspeita das autoridades sanitárias como possivelmente originário destas plantas produtivas. Segundo último Boletim Epidemiológico emitido em 25/05/20, “As maiores taxas de mortalidade por 100.000 habitantes encontram-se nas Regiões Passo Fundo – R17 R18 R19 e Lajeado – R29 R30”, regiões que concentram grandes indústrias frigoríficas e que têm sido apontadas como potenciais vetores nesta pandemia.

Medidas de segurança

Tais acontecimentos não querem dizer que as empresas não estejam tomando suas medidas de cautela e cuidado. Algumas têm sido mais zelosas que outras, tomando medidas, por exemplo, de afastamento imediato do trabalhador com sintomas respiratórios, evitando aglomerações na chegada e partida bem como no transporte e refeitórios. Tais medidas auxiliam a manutenção da produtividade dos demais. Pode parecer uma obviedade, mas ainda assim, têm ocorrido surtos em empresas, em especial do setor de abate, possivelmente por não adesão integral às orientações sugeridas pelos protocolos de biossegurança, gerando Termos de Ajustamento de Conduta nas Procuradorias do Trabalho.

Somente no dia 27 de maio é que a Associação Brasileira de Proteína Animal – ABPA realizou uma ‘live’ com profissionais da área de infectologia do Hospital Albert Einstein para tratar de cuidados na infecção e orientações sobre a eficácia das testagens, haja vista diversos falsos negativos e o risco de acabar afastando do trabalho quem não está doente, bem como a permanência de pessoas infectadas na produção, o que tem disseminado o vírus. Um protocolo foi sugerido pelos profissionais, pois enquanto não há melhores evidências é preciso utilizar o protocolo clínico de identificação de sintomas respiratórios, recomendado pelo próprio Ministério da Saúde, o que também pode não ser a metodologia mais segura, mas a possível na indisponibilidade de testagem padrão ouro.

Outrossim, é perceptível uma visão rancorosa do papel de fiscalização de muitas dessas empresas no sentido de que estes aparatos venham a criar empecilhos para a livre iniciativa de empreender nesse ramo de atividade econômica. No entanto, é um ramo de atividade que não possui mecanização e automação de processos que possibilitem dispensar ou diminuir o emprego de homens e mulheres, sendo estes vitais para todo o processo.

IHU On-Line – A grande incidência de contaminação por covid-19 na indústria de beneficiamento de carne também está presente em países como Alemanha, França, Irlanda, EUA. Como compreender esse dado? O que une a indústria desses países com a do Brasil?

Leandro Inácio Walter – São questões pertinentes à biossegurança e a normas pactuadas internacionalmente para exportação/importação das diferentes proteínas animais, são fatores que são comuns em maior parte nesses estabelecimentos por conta destas diretrizes e do que se poderia chamar de “boas práticas na industrialização”. O próprio leiaute das plantas industriais favorece aglomerações no início, ao longo e no fim dos expedientes, inclusive no transporte coletivo disponibilizado pelas empresas, no trabalho ombro a ombro sem distanciamento ou isolamento físico e na problemática da falta de renovação de ar destes espaços, visto que geralmente é refrigerado por ar central, contribuindo para a circulação do vírus neste espaço. Então, com a característica do novo coronavírus que é a transmissão mesmo estando assintomático, a planta se torna um espaço potencialmente vetor do vírus se medidas de contenção não forem tomadas de forma enérgica.

A negação como estratégia

Tenho observado a divulgação de dados sobre supostos imunizados em empresas frigoríficas, muito embora profissionais da infectologia têm sido mais reticentes e cautelosos sobre o assunto. Aliás, mais do que nunca é indispensável boas fontes de informação e orientação no campo da biossegurança e o auxílio de profissionais da área psicossocial no enfrentamento da pandemia. Outra ideia muito recorrente e também fruto do negacionismo é a da imunização. Como psicólogo e à luz da clínica do trabalho, sabe-se que a negação é uma estratégia defensiva mais primitiva que possibilita o trabalho de forma alienada. Negar o contágio ou criar uma ideia de imunização tem sido recorrente não apenas em frigoríficos, mas em profissionais de saúde e outros profissionais essenciais na manutenção de serviços indispensáveis à sociedade.

É justamente a negação dos riscos que engendra o comportamento ou o não fornecimento das medidas por parte de empregadores dos protocolos de biossegurança, o fornecimento e orientações assertivas no uso de EPI, a criação e manutenção do distanciamento social ou isolamento físico no ambiente de trabalho etc. A suposta imunização, ainda uma tese científica, traz consequências na disseminação do vírus, fato que pode gerar o fechamento temporário pelas autoridades sanitárias e de fiscalização do trabalho.

Vulnerabilidade também em casa

Outro fator que pode estar contribuindo na disseminação do vírus fora dos espaços frigoríficos são as condições de habitação no Brasil das famílias dos/as operários/as. Muitas dessas unidades habitacionais são compartilhadas com várias pessoas em espaço físico reduzido, sendo um fator dificultador no isolamento adequado ou no próprio distanciamento social no espaço doméstico. Muitas destas famílias possuem esta característica de vulnerabilidade social e seria um importante investimento levantar a demanda habitacional no pós-pandemia.

IHU On-Line – Que outros problemas, especialmente relacionados à atenção à saúde física e psicológica, estão presentes nessa realidade do trabalho em frigoríficos?

Leandro Inácio Walter – Antes de responder efetivamente a esta questão é preciso ponderar que há empresas mais zelosas com sua força de trabalho do que outras e que boa parte dos trabalhadores não desenvolve doenças ocupacionais, o que pode ser um bom tema de estudo a implantação de medidas nas próprias empresas para compreenderem como esses fatores de proteção psicossocial ocorrem em seus processos de trabalho. É uma minoria que efetivamente adoece ou se afasta do trabalho em frigoríficos, embora em números absolutos, em termos epidemiológicos e previdenciários, seja bastante preocupante. O fator prevenção precisa entrar nas planilhas não como um custo, mas como um elemento que contribui com a manutenção da saúde da força de trabalho produtiva.

Ao menos desde a graduação, que realizei na Unisinos, aprendi que lucro é uma, apenas uma das dimensões dos resultados, e para uma empresa ser considerada sólida não se pode levar em conta apenas a que gera espetaculares resultados financeiros, mas a que sobrevive e permanece no mercado. É possível hoje imaginar que se há acusações de que estes estabelecimentos industriais são possíveis vetores de coronavírus, as possíveis dificuldades de seleção, contratação e retenção de pessoal atuais e futuras podem colocar em risco o funcionamento desses estabelecimentos.

É necessário ressaltar que há diferenças entre empresas, embora não conheça alguma que seja “risco zero ocupacional”. Há empresas ou setores que se empenham menos em mitigar riscos psicossociais em seus ambientes, e estes são bastante descritos na literatura científica sobre o tema: problemas relacionados a má gestão do trabalho, a imposição do ritmo acelerado que pode engendrar lesões por esforço repetitivo ocasionados pela sobrecarga, a violência psicológica produzida como metodologia para gerir a força de trabalho, tudo isso torna-se assédio moral organizacional, fato comprovado por ganho de causas na justiça do trabalho.

Adoecimentos

Este clima de trabalho eleva os riscos de desenvolver depressão e ansiedade ou mesmo a consumar suicídio ou tentativas. Fatores mais comuns recorrentes são a medicalização das dores físicas com analgésicos e psíquicas com o uso de psicotrópicos por situações desencadeadas pelo contexto de trabalho. Tal cenário, muitas vezes, é consolidado pelos próprios Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho – SESMT da empresa e do plano de saúde empresarial, que acaba não notificando os casos. Pela crença de não estar produzindo o nexo com o trabalho, não há registros e não é possível implementar programas ou ações para mitigar os riscos psicossociais mencionados.

IHU On-Line – Qual é o perfil dos trabalhadores em frigorífico e por que, muitas vezes, aceitam situações insalubres de trabalho?

Leandro Inácio Walter – Vivemos atualmente um período de recessão de geração de emprego formal. São trabalhos em geral que não exigem qualificação prévia e que são facilmente aprendidos. Geralmente são pessoas das camadas mais vulneráveis da população e com baixa instrução, grande parte possui ensino fundamental incompleto, o que contribui para a dificuldade de perceberem-se como sujeitos com direitos. Muitas vezes, a gestão em algumas empresas se vale de ameaças de demissão e força os trabalhadores a aceitarem as condições de trabalho por questões de sobrevivência.

Obviamente, preciso dizer que o trabalho repetitivo, por mais vazio e sem sentido que pareça num primeiro momento, não é um trabalho fácil do ponto de vista subjetivo. Isso porque exige um “não pensar” para não errar ou ocasionar um acidente, como um corte no caso de uso de facas. Esse “não pensar” gera uma repressão da subjetividade/afetiva que pode ser compensada por muitos trabalhadores com longos trajetos in itineres como forma de lidar com esse sofrimento. Os riscos são o embotamento afetivo que tem como consequência o desejo de evitar contatos sociais externos ao trabalho, ver um filme e não conseguir compreender (empobrecimento simbólico), passar a maior parte do tempo dormindo fora da jornada de trabalho, fatores que são descritos com frequência na literatura.

Não raro ocorrem violências entre funcionários, imagina-se o potencial risco de uma discussão rodeada de instrumentos cortantes, sendo estes e outros aspectos observados nas políticas de seleção das empresas, e devem obter respaldo nas políticas de treinamento das chefias. Muitas dessas empresas possuem elevado turnover e rotatividade, o que pode mascarar outros problemas como sair do trabalho ao perceber alterações físicas ou psíquicas ocasionadas pelo trabalho.

IHU On-Line – Como tem observado a atuação sindical dessas categorias? Onde estão e como compreender as principais falhas na proteção do trabalhador?

Leandro Inácio Walter – Percebeu-se inclusive uma vontade muito grande de realizar horas extras em algumas situações. Isso corrobora o negacionismo social que vivenciamos acerca da pandemia. De um modo geral, o movimento sindical tem gerado algumas conquistas nos últimos anos como a Norma Regulamentadora dos Frigoríficos, mas precisa permanentemente mobilizar as pessoas para que se compreendam como sujeitos de direitos, cuja luta não deve ser apenas questões de remuneração, mas também as condições de trabalho. Os sindicatos na verdade estão tendo dificuldades financeiras, alguns correm o risco de extinção, o que impacta as condições de luta e aponta a necessidade de ser criativos em novas formas de mobilização e comunicação digital.

IHU On-Line – Você é originário de uma região, município de Bom Retiro do Sul, no Rio Grande do Sul, em que os frigoríficos e a indústria de carne têm grande peso econômico. Como compreender essas relações de poder desde essa realidade local?

Leandro Inácio Walter – A indústria frigorífica foi historicamente uma das precursoras no sul do Brasil. Isso inclui a tradição das charqueadas e a própria produção de couro que engendrou toda uma industrialização do ramo coureiro calçadista, outro segmento produtivo que já foi mais vigoroso no Rio Grande do Sul. Esta indústria foi responsável pelo primeiro emprego de pessoas negras escravizadas ou alforriadas, o que ainda hoje é possível perceber em algumas comunidades de afrodescendentes que mantêm a tradição intergeracional do trabalho frigorífico em suas famílias.

Não é uma história para se orgulhar. Ainda temos muitos resquícios de paternalismo nos modos de trabalhar e é uma tarefa social a superação desse paradigma que ainda é reproduzido socialmente. Ambas as atividades, calçadista e frigorífica, são manufaturas e não exigem grandes qualificações da sua força de trabalho, e não possuem uma remuneração mais elevada como outros setores (metalomecânico, que por sinal exige mais capacitação).

IHU On-Line – Tomando como base especialmente a realidade dos frigoríficos, é possível afirmar que a indústria de carne é arcaica e está doente?

Leandro Inácio Walter – Houve avanços tecnológicos e percebe-se que unidades frigoríficas que avançaram na observância da legislação em saúde ocupacional e têm planos de gestão de riscos psicossociais, geram dados para efetivar planejamento e estruturar programas, ou ao menos demonstram esforço neste sentido. Certamente são empresas que irão ter menos dificuldades de obter reconhecimento perante trabalhadores e órgãos de fiscalização do trabalho, demonstram inclusive estar mais comprometidas com o desenvolvimento regional onde atuam.

Enquanto há outras ainda que estão mais próximas da época da alforria dos escravos, ao não reconhecer que algum trabalhador pode ter piorado sua condição de saúde pelo trabalho desempenhado no frigorífico. Como consequência, a empresa acaba medicalizando o trabalhador ou o demitindo, não tendo registros dessas situações, o que favorece a invisibilidade do problema e também a possibilidade de ação para mitigar o problema.

Muitas vezes, as empresas temem a judicialização das relações de trabalho, mas não se veem como protagonistas na remissão desses problemas. É arcaico na medida em que sua gestão ainda está calcada no paradigma paternalista.

IHU On-Line – O senhor tem estudado a relação entre a mobilidade humana, as migrações, e o trabalho nos frigoríficos. Por que os imigrantes, especialmente de países ou regiões pobres, que buscam uma vida melhor no Brasil, acabam trabalhando em frigoríficos?

Leandro Inácio Walter – Não é exatamente algo novo em termos de exploração do trabalho. Já havia relatos no setor metalúrgico francês nos anos de 80 e 90 do século passado de alocação de imigrantes nas linhas de produção. Se colocava um falante de cada idioma no posto de trabalho de forma a evitar qualquer contato verbal, em uma nítida tentativa de evitar que, por ventura, viessem a tentar alguma articulação.

O idioma é um problema, assim como a própria legislação trabalhista diferente dos países de origem, e abusos podem ocorrer. Há sindicatos que favorecem o aprendizado do português e confeccionam material básico bilíngue sobre nossa legislação trabalhista, como o elaborado há alguns anos pela Central Única dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul. Do mesmo modo, há necessidade de políticas de educação que atendam essa demanda, pois o idioma interfere inclusive na própria observância de normas de segurança nos espaços de trabalho.

IHU On-Line – Como melhorar as relações entre esses trabalhadores/imigrantes e a indústria?

Leandro Inácio Walter – A realidade do trabalho migrante pode ser uma constante por conflitos locais nos seus países de origem, sejam conflitos armados, seja por adversidades oriundas das alterações climáticas/aquecimento global, por exemplo. As dificuldades vão desde as diferenças culturais, o idioma e a legislação trabalhista. As organizações precisam ter programas de acolhimento e articulação com as políticas públicas para essas famílias, bem como abordar esse tema com os/as trabalhadores/as nativos/as brasileiros/as no intuito de não contribuir com a xenofobia, a intolerância religiosa, entre outros problemas que podem surgir ou ressurgir com estrangeiros/as.

Oportunizar acesso a grupos para essas famílias manterem sua identidade cultural ou mesmo incluir essa diversidade em momentos de confraternização do trabalho podem ser formas de acolher a diversidade cultural, seja na gastronomia ou em apresentações culturais, entre outras.

IHU On-Line – Quais os desafios para se mudar a realidade do trabalho em frigoríficos?

Leandro Inácio Walter – A pandemia do novo coronavírus é “à nossa imagem e semelhança”, ideia originalmente cunhada por Paul Preciado. A pandemia expôs nossas vulnerabilidades individuais e sociais de uma maneira antes impensada em termos de escala que atinge todos nós. Ela mudou alguns conceitos, como o de que uma máscara não é mais apenas uma proteção individual, mas protege também as demais pessoas. A covid-19 parece se espalhar descontroladamente, mas nunca foi tão necessário compreender como se propaga um vírus, assim como também se faz necessário proteger pessoas para que se mantenham os trabalhos essenciais operando. É um grande desafio e a ciência é convocada a desempenhar o papel de proteger vidas e levar alimentos às mesas de muitos.

No que diz respeito ao trabalho e trabalhadores/as em frigoríficos, há muitas contradições, incertezas sobre contaminação, testagens eficientes, dúvidas sobre imunização. Não é recente nem novidade a dificuldade de observância da legislação em saúde ocupacional no âmbito dos frigoríficos. Houve esforços e conquistas importantes como a Norma Regulamentadora, construída especificamente para este segmento produtivo e certamente já há empresas que trilham o caminho do cuidado com mais seriedade por compreenderem o valor do que produzem e que responsabilidade social não é apenas uma palavra bonita no seu balanço social.

Os desafios são descolonizar nossa cultura e modo de trabalhar e superar o paradigma do paternalismo ainda muito presente em nosso meio. Há que se tencionar uma mudança de mentalidade: trabalhadores/as, sindicatos, órgãos de fiscalização não são antagonistas, todos desempenham um papel, certamente com muitas contradições, que tornam a produção e o cuidado da força de trabalho necessário e possível. Apesar dos ataques aos direitos trabalhistas nos últimos anos e a própria consolidação das normas regulamentadoras, é preciso compreender que mais adiante poderá haver uma verdadeira epidemia de adoecimentos (não apenas da covid-19) e também de judicialização.

A pergunta que se precisa ter presente é: que tipo de reputação se quer construir perante os stakeholders [o termo diz respeito a toda e qualquer pessoa que tenha alguma relação com a empresa, seja cliente, funcionários, ou ainda quem não tem contato algum, mas que sabe algo sobre o produto dessa marca]? As organizações precisam ser menos reativas e mais propositivas na proteção das pessoas que nela ganham a vida através do trabalho, gerando indicadores, avaliando riscos de contágio, construindo programas e mensurando os impactos dos riscos psicossociais e de saúde ocupacional imediatos e a médio prazo. Organizações que tentam esconder suas questões, acabam por sofrer as consequências da judicialização e do próprio “apagão de talentos” de uma forma muito dura mais adiante. Há experiências positivas que sinalizam que é possível cuidar e produzir, ao menos, uma caminhada nesta direção.

Fonte: IHU On-Line
Texto: João Vitor Santos
Data original da publicação: 03/06/2020

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