O vírus da desigualdade

Fotografia: Dibyangshu Sarkar/Getty Images

No Brasil a situação é das piores, onde seis brasileiros, todos homens brancos, concentram a mesma riqueza que a metade mais pobre da população, mais de 100 milhões de pessoas.

José Lorenzato de Mendonça

Fonte: GGN
Data original da publicação: 19/08/2020

Atualmente estamos em guerra mundial contra um vírus, um inimigo silencioso e mortal. E para nos dizimar ainda mais, o vírus conta com um aliado poderoso e também mortal, a desigualdade econômica – uma permissão para que as riquezas produzidas por um povo fiquem concentradas nas mãos de pouquíssimos indivíduos. De acordo com a Oxford Committee for Famine Relief (OXFAM), 1% da população mundial já possui mais riqueza do que todo o resto da humanidade, o que tem levado a um crescimento perigoso da desigualdade global. No Brasil a situação é das piores, onde seis brasileiros, todos homens brancos, concentram a mesma riqueza que a metade mais pobre da população, mais de 100 milhões de pessoas.

Voltando na história para tentar entender o que está se passando hoje no mundo, em 1927, o médico austríaco Sigmund Freud, fundador da psicanálise, escreveu que a civilização era tudo em que a vida humana havia se elevado acima de sua condição animal: a ciência para controlar as forças da natureza e dela extrair riquezas, assim como as relações dos homens com a distribuição dessas riquezas. Para ele, civilização significava a soma das realizações e dos regulamentos que servem para proteger os homens das forças da natureza e ajustar os relacionamentos mútuos – ou seja, para nos proteger contra os perigos da natureza e de outros humanos, em suas diversas formas de violência social.

A vida em sociedade civilizada, assim, só se torna possível quando se reúne uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado. A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade constituiria o passo decisivo da civilização. Entretanto, os maiores bilionários estão mais poderosos do que comunidades inteiras.

Segundo Freud, a agressão humana constitui uma disposição instintiva original e é o maior impedimento à civilização, que teria surgido justamente como forma de dominar o perigoso desejo de agressão do indivíduo, estabelecendo no seu interior um agente para cuidar dele, como uma guarnição militar numa cidade conquistada – o sentimento de culpa. O psicanalista acrescenta uma ideia seminal: uma mudança real nas relações dos seres humanos com a propriedade (a riqueza) seria de muito mais ajuda do que quaisquer ordens éticas.

Discorrendo sobre o poder da riqueza, o cientista Albert Einstein, por sua vez, numa troca de cartas com Freud, em 1932, alerta para o fato de que uma minoria – a elite econômica – detém, além da indústria bélica, o controle das comunicações e das igrejas no planeta. Explicitamente, reconhece que as armas e a mídia são instrumentos indispensáveis para ampliar e garantir as grandes fortunas, possibilitando a uma pequena classe implantar ideias e manipular as emoções das massas, admitindo que a justiça e o poder econômico inevitavelmente andam de mãos dadas.

Ainda nesse intercâmbio de correspondências, Einstein pergunta a Freud se havia alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra, Em resposta, o médico austríaco reconhece a antítese entre direito e violência, afirmando que quando a classe dominante se recusa a admitir a mudança, a rebelião e a guerra civil costumam vir a seguir.

Se Einstein e Freud estiverem com a razão, para evitar ou enfrentar uma guerra, contra um país ou um vírus, a melhor forma é através da distribuição da riqueza. Ou seja, a distribuição mais justa dos bens, além de tornar a ética visível, possibilitaria a todos acesso às condições materiais mínimas de sobrevivência, reais condições de adquirir poder e justiça, educação, saúde, moradia e segurança.

Dessa forma, além de menor necessidade de buscar a riqueza na violência, a maioria das pessoas terá mais poder de limitar a violência à sua volta, de ter as mãos dadas com a justiça. Muitos passariam a ter o que perder, tanto em bens materiais como emocionais, e suas riquezas seriam maiores do que a criminalidade ou as drogas podem oferecer. O problema do narcotráfico e a defesa da ecologia seriam enfim abordados de uma forma nova, nada tradicional.

Para esclarecer melhor, se recorrermos ao dicionário veremos que justiça é a virtude de dar a cada um aquilo que é seu, enquanto poder é a faculdade de fazer acontecer. Ora, na medida em que poucos vão concentrando o poder econômico, esses poucos fazem acontecer as leis de que necessitam, e não as que a maioria precisa. Exatamente o contrário do que a justiça eleitoral propaga. Ou seja, como o poder econômico tem a justiça e o legislativo à mão, quanto mais concentrado o poder das riquezas nas mãos de poucos, mais falso e ineficaz o sistema eleitoral, mais doente a democracia – terreno fértil para todo tipo de violência.

Nessa linha de raciocínio, a maioria do povo pobre, nas eleições, não sabe que tem votado nos candidatos que a minoria bilionária precisa para manter seus negócios. Quanto mais concentrada a riqueza com poucos, mais facilmente a maioria pode ser subliminarmente levada a eleger os representantes da elite econômica. E pior, a votar acreditando que estão elegendo representantes dos pobres. Como o cérebro é um processador de informações, se um pequeno grupo de humanos detém o monopólio da mídia, ele é capaz de conduzir o comportamento de milhões de pessoas, manipulando o resultado das eleições.

Segundo Einstein, como o poder econômico é quem dita a última palavra, o legislativo e o judiciário sempre estiveram e estarão a serviço da elite econômica, dos bilionários. Ou seja, uma concentração econômica nas mãos de pouquíssimos fatalmente deixará muitíssimos pobres de dinheiro e de justiça e ruas mais violentas, apesar de cadeias cada vez mais lotadas. A sonhada paz só poderá estar nas casas e nas ruas se houver limites na riqueza e na pobreza.

As ideias de Albert Einstein e de Sigmund Freud são valiosas, ainda mais agora, diante da pandemia do Coronavírus e para definirmos o futuro pós-pandemia que desejamos – se quisermos encontrar soluções mais adequadas para nossos problemas, desconstruir vícios e injustiças sociais, inventar e consolidar novas bases éticas, nacionais e internacionais para assegurar a sobrevivência da espécie humana. Inclusive será necessária a renúncia de todas as nações à sua soberania sobre as demais, diferentemente do que temos visto. Não há evidência científica de que não se podem mudar as raízes do sistema econômico num país ou no mundo. Será necessário um novo contrato social: a distribuição mais justa da riqueza, no país e no planeta. Todos nós continuaríamos obrigados a morrer, mas, pelo menos, não mais a conviver com níveis diários tão elevados de violência e medo.

José Lorenzato de Mendonça é psiquiatra, psicanalista e professor aposentado da Faculdade de Medicina da UFMG. Além de uma vasta experiência clínica, ele atuou por muito tempo na coordenação do Serviço de Saúde Mental e da Residência em Psiquiatria do Hospital das Clínicas e foi coordenador de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais de 1978 a 1983.

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