O Dieese e os trabalhadores

O Dieese e os trabalhadores

Charles Soveral
DMT

Ricardo Franzói, supervisor técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) no Rio Grande do Sul, concedeu entrevista ao site Democracia e Mundo do Trabalho em Debate e nos fala da fundação, do funcionamento e da importância da instituição para os trabalhadores. Confira abaixo os principais tópicos desta entrevista.

Fundação do Dieese

“O Dieese surgiu na década de 50 como uma iniciativa dos trabalhadores de São Paulo, onde se concentrava, então, a esmagadora maioria das indústrias brasileiras. A ideia original era criar uma universidade para o trabalhador que pudesse qualificar para a nova realidade industrial do Brasil. Nesta universidade, que teria horários e currículos adaptados ao mercado de trabalho e à carga horária dos trabalhadores, teria também um departamento que se encarregaria dos estudos técnicos da reposição salarial diante das perdas inflacionárias. Este departamento, que se transformou no Dieese, foi o que realmente vingou e passou a ser o contraponto nas negociações.

Isto porque, até o Dieese existir, só havia os números do governo que nunca dava para confiar. O custo da cesta básica era sempre inferior ao da realidade, os dados inflacionários eram em grande parte manipulados, e o resultado eram perdas frequentes para os assalariados.

Essa situação perdurou até que as lideranças sindicais começaram a colocar na mesa os números do Dieese feitos com base nas reais despesas dos trabalhadores. Na década de 80 somente o Dieese começou a ganhar caráter nacional, vindo para o Rio Grande do Sul exatamente no momento de grandes transformações da sociedade, especialmente com a recuperação da democracia e em um cenário de grande turbulência econômica. O Dieese chegou no Rio Grande do Sul no final dos anos 80 para pegar  todo um período de efervescência, de embates dos trabalhadores e de retomada das perdas salariais acumuladas durante anos.

No Rio Grande do Sul, começou a trabalhar no final de 1979, embora estivesse atuando no estado dois anos antes. O Cristiano Tatsch foi o primeiro supervisor técnico do Estado.”

Estrutura e gestão

“O Dieese tem uma gestão compartilhada entre todas as representações de trabalhadores. Todas as centrais estão contempladas. Há um entendimento que isso precisa ser assim. Internamente, somos uma única organização assim representada. Esta característica nos dá força e sustentação.

No Dieese, as diferenças entre as centrais não são observadas. Aqui, temos um objetivo claro e não há espaço para outras questões. A pesquisa emprego e desemprego, o custo da cesta básica, o valor real do salário mínimo, a qualidade de vida e de trabalho estão acima de quaisquer outras questões. Assim, para nós, o trabalhador tem um lado só.”

Tecnologia

“Para se fazer uma análise das perdas salariais e de qualidade de vida dos trabalhadores, é preciso colocar na balança muitos fatores. O Dieese, com sua equipe técnica, foi, ao longo dos anos, aprimorando isso. No início, se buscaram modelos de fora do Brasil, mas aí se viu que era preciso ajustar à nossa realidade e, aos poucos, construímos a nossa tecnologia muito eficiente. De tal maneira que hoje o próprio governo se espelha no processo desenvolvido por nós. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) usa uma metodologia que se espelha na nossa.

Às vezes, somos criticados porque muitos gostariam que o Dieese desse números mais favoráveis aos trabalhadores.

“Nosso papel é ser fiel à realidade… É daí que vem nossa força, nossa credibilidade.”

O Dieese não dá números favoráveis a ninguém. Se o resultado da análise não agrada a quem queria mais, paciência. Nosso papel é ser fiel à realidade. Nós buscamos apresentar o número real, algumas vezes podemos ser criticados até pelos trabalhadores que gostariam de índices maiores, mas nossa credibilidade decorre exatamente do valor científico e técnico dos estudos. É daí que vem nossa força, nossa credibilidade. É difícil alguém hoje contestar nossas avaliações técnicas. A informação que a gente gera é para o bem ou para o mal. Não importa se a nossa taxa de inflação está igual à divulgada pelo governo. Se o governo não manipula a inflação, vai ser igual à nossa. Na verdade, trata-se de um retrato da realidade

Foi este trabalho contínuo que deu aos sindicalistas a certeza de que o Dieese não era apenas um serviço de aferição inflacionária, mas de grande valor como base de negociação com os governos e os empresários. É a partir deste trabalho que a pauta das negociações passou a avançar. Quando se tem noção das perdas, busca-se a recuperação, o que pode avançar e o que não pode. Uma negociação tem que ter por base a realidade. Com o Dieese, a realidade foi para a mesa de negociação.

Nós fazemos uma avaliação do desemprego adaptada à nossa realidade, que é totalmente diferente da América do Norte, da Europa e de outras partes do mundo. Se nós olharmos o mercado de trabalho nas regiões mais ricas do mundo, vamos ver que as coisas são muito claras, perfeitamente divididas entre empregados e desempregados, porque existe uma base formal de relações de trabalho. Aqui, no Brasil, o trabalhador pode estar desempregado, mas não sem trabalho. Pois existe um gigantesco mercado informal. Nossa tecnologia de estudo e avaliação revela de forma mais fiel que entre o branco e o preto temos todos os matizes de cores intermediárias.”

Mudanças no Brasil

“No Brasil, se a gente olhar detalhadamente, vai ver que há uma migração etária da população. Na década de 80, havia uma maior participação da população jovem (de zero a 14 anos). Se olharmos para frente, digamos até 2040, veremos que mais de 50% da população vai estar na faixa de idade ativa (15 aos 64 anos). A população idosa, nesse período, deverá ser inclusive maior do que a população jovem. Essa migração etária vai gerar uma mudança de mercado, de educação, alterando as políticas públicas e privadas, as demandas dos trabalhadores. Muita coisa vai mudar, o consumo e as necessidades dos trabalhadores também vão mudar.

“O Brasil não pode pensar só no hoje, mas para frente e começar a corrigir problemas estruturais…”

Se abre diante desta realidade uma oportunidade, talvez a última, de criar uma política adequada para ocupar estas pessoas (com mais idade), porque, caso contrário, teremos muitos desempregados. Isso pode desequilibrar a economia. O Brasil precisa pensar não só no hoje, mas para frente e começar a corrigir problemas estruturais que passam ainda pela má distribuição de renda e de desenvolvimento regional. Temos ainda regiões muito desenvolvidas e regiões muito pobres. E, hoje, temos na nossa população pouca gente rica e muita gente pobre. Nós temos o desafio e a oportunidade de resolver isso nos próximos 20 anos. Se não fizermos isso neste momento, não teremos como fazer mais depois ou será muito mais difícil fazer depois.”

Futuro

“O papel dos sindicatos e o papel das organizações dos trabalhadores, via centrais sindicais, são os de ter política econômica que valorize os salários, que valorize o crescimento econômico, que estão interligados. Não podemos cometer o erro cometido na época da ditadura, quando se teve desenvolvimento econômico, mas não houve distribuição de renda. O mesmo foi feito após a Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil migrou do campo para a cidade e não se planejou nada, e os grandes centros viraram pontos de concentração de força de trabalho sem trabalho.

Por isso, é fundamental que a gente comece a trabalhar neste momento de certa tranquilidade econômica, que os pisos salariais cresçam e que os salários se valorizem. Agora é a hora de apertar este parafuso, porque o trabalhador brasileiro pode perder a oportunidade. Este é o maior risco. Se não fizermos isso, não vamos sair desta condição. Para ser um país verdadeiramente desenvolvido, temos que atender às necessidades da maior parte da população.

De outro lado, os desafios estruturais do Brasil são muito grandes. Existe uma classe que hoje está começando a ter acesso a bens e serviços, que, antes, estavam limitados a uma faixa estreita da população. Então, isso significa que vamos ter que ter mais aeroportos, mais rodovias, mais carros nas ruas, mais desgastes dos bens públicos e mais investimentos. E o desafio hoje é maior que no passado. Estados Unidos e Europa chegaram num nível de desenvolvimento sem ter que discutir meio ambiente, sustentabilidade, etc… Não havia regras. E agora que a oportunidade é nossa, é tudo muito mais complexo. Temos que pensar no hoje e no amanhã na negociação direta.

Antigamente, no tempo da inflação, os caras davam 102% de aumento. Mas aquilo era meramente ilusório porque o teu salário real não melhorava e o lucro do empresariado não era afetado. Hoje, com toda a concorrência, qualquer aumento que tu tiveres é resultado de uma luta de classe, é uma batalha vencida na guerra entre salários e lucro.

Exatamente porque o cenário hoje é mais complexo, o dirigente sindical precisa ser um cara mais bem informado. Ele precisa ter também o apoio dos trabalhadores que têm que estar mobilizados. Mas, pra isso, é preciso estar lá na base, fomentando, informando, orientando. Estamos acostumados a agir na crise, quando a corda está esticada. Temos que agir antes, com preparo e organização. Os empresários são organizados. Chegam no governo com demandas prontas. Se antecipam e levam a melhor.

Outro aspecto importante está na qualificação dos trabalhadores. Temos que investir nisso. Por isso, o Dieese está resgatando a Universidade do Trabalhador, que era um dos objetivos lá da década de 50. Por falta de profissional qualificado, tem estrangeiro ocupando vaga no mercado brasileiro. Já reconhecida pelo Ministério da Educação, a Faculdade do Dieese está em fase inicial em São Paulo. É presencial, tem uma grade que possibilita o trabalhador estudar sem interferir em suas atividades normais, e é o retrato de uma nova época em que mais do que simplesmente ter emprego, é preciso ter um bom emprego.

Nossa sociedade é aberta e deve receber todos, mas fica difícil pensar que na hora de aproveitar, nossos melhores postos caiam na mão dos trabalhadores que estão vindo para cá. É nisso que os sindicatos e as centrais precisam trabalhar, porque a construção de uma sociedade exige esforço e competência.”

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