Mercado de trabalho: no fundo do poço, e cavando

Fotografia: Kisie Ainoã/Campo Grande News

Dezenas de milhões de novos empregos serão necessários para repor os empregos perdidos e para cobrir a enorme ociosidade que já existia antes da eclosão da pandemia. Mas o que faz o governo?

Emilio Chernavsky

Fonte: Brasil Debate
Data original da publicação: 27/07/2020

Em maio, havia no Brasil 10,5 milhões a mais de pessoas acima de 14 anos do que havia cinco anos antes. Ao mesmo tempo, havia 5,7 milhões a menos de pessoas ocupadas. Ou seja, o número de pessoas em idade de trabalhar que no período ficou desocupada ou, com dificuldade para encontrar, não procurou trabalho, cresceu 16 milhões, quase 10% do total.

No último mês de junho, a eles se somaram mais 2 milhões, número que deve continuar a crescer. Além deles, há mais de 13 milhões de trabalhadores vinculados ao programa do governo (BEm) que suspende os contratos de trabalho ou reduz sua jornada e paga parte dos salários. Boa parte dos quais têm futuro incerto quando o programa se encerrar.

Esta situação absolutamente trágica e inédita no Brasil resulta do impacto da pandemia da covid-19 sobre um mercado de trabalho que já havia anos se encontrava com desemprego e informalidade em patamares historicamente elevados, e deve perdurar por muito mais tempo do que a maioria dos analistas prevê. Se vier, a retomada da economia criará muito menos empregos do que em outras ocasiões.

Isto porque, em primeiro lugar, grande número de empresas, especialmente no setor de serviços, que é o maior empregador no país, teve suas atividades suspensas para combater a pandemia e não recebeu apoio do governo para enfrentar a situação ou, se o recebeu, ele foi tardio, insuficiente, descoordenado e mal comunicado. Com isso, muitas empresas fecharam definitivamente as portas durante o período de suspensão. Sem elas, a recuperação do emprego será muito mais lenta e incerta.

Em segundo, parte das empresas que ainda não fecharam sofre e sofrerá queda importante na demanda por seus serviços e terá dificuldades em manter suas atividades. Essa queda é resultado não apenas da redução da renda de parte da população em razão do desemprego, mas, também, da maior incerteza entre os ocupados, que afeta o consumo em geral, e da mudança de hábitos impulsionada pela pandemia, que reduz, por um período prolongado, quando não permanente, o consumo em setores como bares, restaurantes e de recreação.

A sobrevivência de segmentos inteiros destes setores intensivos em trabalho está ameaçada. Empresas continuarão a fechar, e as que permanecerem demorarão a expandir seu quadro de pessoal.

Em terceiro, as limitações ao trabalho presencial aceleraram a automatização de processos e expandiram fortemente o trabalho remoto. Mesmo com o fim daquelas limitações, este deve retroceder somente em parte. Ambos os movimentos aumentam a produtividade das empresas, poupando mão de obra em suas atividades principais, bem como nos serviços auxiliares, intensivos em trabalho.

A eliminação de postos de trabalho nesse processo está em curso com a economia em queda, e deve continuar numa eventual retomada.

Os empregos das empresas que fecharam, das que ainda fecharão com a demanda contida e a mudança de hábitos, e das que transferiram parte das suas atividades para o teletrabalho não voltarão. Dezenas de milhões de novos empregos serão assim necessários para repô-los e para cobrir a enorme ociosidade que já existia antes da eclosão da pandemia.

A resposta do governo a essa necessidade tem sido a de acenar com novas rodadas de flexibilização laboral, mesmo tendo as anteriores falhado miseravelmente em gerar empregos. Ao contrário, ao ajudar a rebaixar o salário dos empregados e reduzir o consumo, contribuíram para a estagnação. No fundo do poço, o governo oferece uma pá.

Emilio Chernavsky é doutor em economia pela USP.

Compartilhe

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *