Indústria: a crise dentro da crise

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Flavio Fligenspan

[/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text]Fonte: Sul21
Data original da publicação: 04/02/2019[/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text]A desindustrialização da economia brasileira, que é representada pela perda de participação da indústria no total da economia, é um movimento que começou a ser timidamente observado na década de 1980 e ganhou cada vez mais força nas décadas seguintes. Por problemas estruturais não resolvidos ou mal resolvidos, a indústria brasileira, de tão relevante papel no processo de desenvolvimento do século XX, foi ficando para trás, perdendo ímpeto, criando defasagens tecnológicas significativas em relação aos melhores padrões internacionais e, sofrendo um processo de descapitalização. Em suma, foi “murchando”, em termos relativos.

Diferentes governos, com diferentes orientações políticas, se sucederam neste período. É injusto e errado dizer que todos trataram o problema da mesma forma ou que todos foram igualmente negligentes ou não prestaram a devida atenção ao tema. Não é verdade, mas, cada um à sua forma, por incompetência, descoordenação entre políticas de longo e curto prazo ou simplesmente por irresponsabilidade, cometeu pecados e o fato é que chegamos ao ponto de mais baixa participação da indústria de transformação na economia brasileira, hoje pouco acima de 11%. Este fato muito ajuda a explicar a estagnação de nossa economia e a baixa geração de emprego nas últimas décadas.

Como outras vezes já escrevi nesta Coluna, algumas escolas de pensamento econômico se importam pouco com este tema, pois para elas uma unidade monetária de PIB gerada na indústria vale tanto quanto uma unidade originada noutro setor. Porém, isto não é verdade, já que a indústria tem características específicas e relações especiais com os demais setores, dinamizando mais a atividade econômica como um todo, gerando melhores empregos e produzindo e difundindo tecnologia mais avançada. Por isto a indústria – e a desindustrialização – importam.

Na semana passada o IBGE divulgou os números finais da produção industrial brasileira de 2018; soube-se que a produção cresceu 1,1% em relação à de 2017, ano que já havia expandido 2,5% em relação a 2016. É claro que é sempre melhor aumentar a produção, mas estes dois anos de (pequeno) crescimento foram incapazes de recuperar o tombo causado pelo triênio recessivo 2014-2016. Basta ver que em 2018 estamos produzindo cerca de 16% menos do que em 2013, o momento anterior à crise recente. Dito de outra forma, é certo que a crise recessiva da passagem do Governo Dilma para Temer já faz parte dos registros históricos, mas também é certo que a retomada tem sido tão lenta que, mesmo com dois anos de (suave) expansão, ainda estamos longe de voltar ao nível de produção anterior.

Isto caracteriza bem a profundidade da crise recessiva de curto prazo que se viveu no meio desta década. Contudo, é preciso não perder de vista que tal recessão deve ser vista dentro do quadro maior de desindustrialização que ocorre no Brasil há pelo menos três décadas. Ou seja, a crise recente foi um episódio de curto prazo, que pode ser caracterizado como conjuntural, dentro de um movimento estrutural – de desindustrialização – que já vem ocorrendo há bastante tempo. Este é mais profundo, tem mais força para desconstruir o tecido industrial, descapitalizando as empresas, destruindo empregos e cadeias produtivas organizadas a duras penas.

Sair de uma recessão não é tarefa simples; depende de reorientar a política econômica, contar com um ambiente internacional favorável, com o ânimo de empresários que acreditem num novo ciclo de curto prazo e com consumidores entusiasmados pela segurança que seus empregos devem oferecer. Porém, sair de um ciclo longo de perda de densidade industrial é, seguramente, bem mais difícil. Exige política industrial ativa, consistente no tempo e com a credibilidade suficiente para dar segurança aos investimentos de médio-longo prazo; exige também um sistema financeiro com confiança na proposta de governo e que seja capaz de dar apoio no intervalo de tempo requerido por cada projeto. Deixar que o livre jogo das forças de mercado execute corretamente estas tarefas num capitalismo imaturo e pouco regulado é assumir um risco grande de insucesso.[/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text]Flavio Fligenspan é professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

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