EUA: atletas profissionais revelam o poder dos trabalhadores

Fotografia: Kevin C. Cox/Associated Press

Através da greve, os jogadores da NBA, MLB e outras ligas trouxeram seus patrões à mesa de negociação e iniciaram uma conversa nacional.

Dave Zirin

Fonte: Carta Maior, com The Nation
Tradução: César Locatelli
Data original da publicação: 28/08/2020

A onda de greves de atletas contra a violência policial racista não está refluindo. Na noite de quinta-feira, o New York Mets e o Miami Marlins entraram em campo, fizeram um momento de silêncio de 42 segundos (em homenagem a Jackie Robinson) e depois foram embora. Eles deixaram para trás uma camisa com os dizeres “Black Lives Matter” no local do escudo do time da casa.

Inúmeras equipes da NFL (a liga de futebol americano) cancelaram seus treinos, com o Baltimore Ravens, após uma reunião da equipe de quatro horas, divulgando uma notável declaração de ação. Os árbitros da NBA até organizaram uma marcha na Bolha de Orlando, vestindo camisetas com os dizeres “Todos Contra o Racismo”. Até mesmo a National Hockey League, depois de, num primeiro momento, ignorar o que estava acontecendo para desgosto de muitos jogadores, cancelou uma lista de jogos em solidariedade aos eventos que giravam em torno do mundo dos esportes.

Atletas profissionais têm se mostrado dispostos a lutar e serem ouvidos. Atletas negros estão dizendo que não serão mais alvo de bajulação com seus uniformes e, contudo, correrem o risco de serem mortos pela polícia quando tirarem o uniforme. Por qualquer ângulo que se avalie, é um momento histórico, e sem um plano. Não sabemos para onde isso vai nos levar ou quanto tempo vai durar. Mas as pessoas já estão perguntando o que esse movimento pode realmente realizar, além de aumentar a conscientização sobre os disparos contra Jacob Blake.

Por enquanto, o movimento dos atletas está guiando a conversa neste país sobre a violência policial racista e inspirando as pessoas durante um tempo de escuridão implacável, ao contrário do discurso bombástico, e psicologicamente abusivo, de “lei e ordem” que emana da convenção republicana Francamente, se nada mais resultar disso, já terá sido importante. Mas os jogadores querem mais. Os fãs querem mais. Todos, neste país destruído, estrangulados pela ausência de oxigênio político querem mais.

Os jogadores líderes da NBA querem que os proprietários das franquias realmente se impliquem [put some “skin on the game”]. Eles querem que os proprietários bilionários – que não são apenas ricos, mas politicamente ligados a cada município onde têm um estádio financiado pelo governo local – pressionem por uma legislação e usem sua influência para contra-atacar. Como o insider da NBA, Shams Charania, do Athletic relatou no Twitter, a partir de uma reunião entre jogadores e proprietários dos times, “os jogadores desafiaram os proprietários a serem proativos, não reativos, em relação às mudanças por justiça social; criar ações, não simplesmente compromissos financeiros.”

Sou totalmente a favor de extrair concessões de bilionários. Mas há outro caminho que eles podem seguir. O que esses jogadores estão fazendo é nada menos do que entrar em greve por Vidas Negras. Eles estão usando seu poder como trabalhadores para protestar não apenas contra os disparos da polícia contra Jacob Blake e o terrorismo da supremacia branca em Kenosha, mas também contra o fato de que, como disse um jogador, “nada está mudando”. Após um verão de marchas, levantes e ocupações, pouca legislação mudou e a polícia ainda age impunemente.

Ao exercer seu poder como trabalhadores, os jogadores estão inspirando uma parte incrivelmente adormecida da resistência ao racismo e ao ‘trumpismo’: o movimento operário. Se a NBA pode fechar as portas em protesto contra a violência policial racista, por que não outras indústrias? Por que não cidades? Por que não setores inteiros da economia do país? As greves não precisam necessariamente ser sobre salários e benefícios. Há uma longa e oculta história neste país de greves pelos direitos humanos – “não apenas pão, mas rosas”. É uma história que os jogadores podem ajudar a reviver.

Isso pode soar exagerado, mas posso dizer que recebi meia dúzia de ligações de sindicalistas e dirigentes sindicais ontem à noite dizendo que eles e seus membros sentiram como se tivessem sido atingidos por um cutucão elétrico. A ideia de que todos no país estavam falando sobre esta “greve” que estava acontecendo fazia com que muitos desses trabalhadores se sentissem como se também tivessem poder.

Não se trata apenas de solidariedade. Trata-se de resultados. Se os jogadores querem os resultados que almejam, e se o país está tão avariado quanto eles acreditam que está, esta é uma solução real: atacar a violência policial racista; atacar o trumpismo; lutar pelas vidas dos negros. Nada mais funcionou. Mas, ao se retirarem de seu trabalho, os jogadores da NBA imediatamente trouxeram seus chefes à mesa de negociação e iniciaram uma conversa nacional. Se essa mensagem se espalhar por todo o país – e se os líderes trabalhistas estiverem à altura da ocasião e responderem com igual coragem – poderemos finalmente ver as soluções e não sentir que estamos todos presos, apenas esperando pela próxima hashtag.

Dave Zirin é o editor de esportes do site The Nation.

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