Emprego, produtividade e crescimento

Flávio Fligenspan

Fonte: Sul 21
Data original da publicação: 18/08/2014

A Economia é uma ciência em que convivem diferentes paradigmas e em que, pela dificuldade de se isolarem as variáveis e se reproduzirem os experimentos em laboratório, como nas ciências naturais, o mesmo fenômeno se presta a diferentes interpretações. Li na Folha de São Paulo, edição de 12 de agosto, que: “A expansão do emprego sustentada pela contratação de mão de obra pouco qualificada nos últimos anos é uma das causas do baixo crescimento da economia.” A matéria associa a contratação de trabalhadores com baixa qualificação ao pequeno avanço da produtividade verificado no Brasil nos anos recentes e, a partir daí, faz o nexo com o crescimento frágil. Se a maioria dos trabalhadores que conquistaram novas vagas nos últimos anos tem pouca qualificação e, portanto, sua produtividade é baixa, naturalmente um crescimento mais acelerado do PIB estaria comprometido.

Inegavelmente, a geração de emprego verificada nos últimos anos privilegiou os trabalhadores de mais baixa escolaridade, mas é, no mínimo, discutível vincular ou fazer um nexo causal deste fenômeno com o baixo crescimento da economia. Não que seja errado este vínculo, mas certamente não é a única forma de interpretação; esta relação de causa e efeito é a mais simples possível, é linear, e esquece alguns qualificativos.

Por exemplo, contrariando nossa história, vimos por aproximadamente dez anos, entre 2003 e 2012, um tipo de crescimento que foi acompanhado por um significativo processo de redistribuição de renda. O índice de Gini, instrumento mais usado para medir a distribuição, caiu muito neste período, com reduções médias anuais superiores às dos países desenvolvidos na época em que construíram seus Estados de bem-estar social. Muito disso se deveu à evolução do salário mínimo real e ao Programa Bolsa Família. Esta foi uma novidade para o Brasil, país de tradição conservadora, com marcas ainda fortes do regime escravocrata e que tinha como sua grande referência de crescimento o período do “Milagre”, na passagem dos anos 1960 para os 1970, cuja característica essencial foi a concentração de renda. Não por acaso os setores de destaque naquela época eram os de bens de consumo duráveis e a construção civil, setores que produziam para os beneficiários da concentração, as classes de rendas médias e altas. Portanto, associar arrocho salarial, concentração de renda e crescimento era algo, digamos, “natural” no Brasil.

A experiência recente inverteu esta relação e, ao fazê-lo, trouxe a novidade de que as classes inferiores de renda geram dinâmicas menos conhecidas, como a criação de muitos postos de trabalho de baixa qualificação. Isto porque, ao serem beneficiadas pelo processo de redistribuição de renda, as famílias da base da pirâmide direcionam esta renda adicional integralmente para o consumo, e mais, para um tipo especial de consumo, o de bens da base da estrutura produtiva, como alimentos, bebidas, vestuário, calçados, etc. Estes bens se caracterizam por processos produtivos intensivos em mão de obra pouca qualificada, o que gera uma endogeneidade, ou seja, trabalhadores de baixa renda – baixa qualificação e baixa produtividade – compram bens produzidos por trabalhadores que têm os mesmos atributos.

Isto faz com que este tipo de crescimento puxado por redistribuição de renda em favor dos mais pobres gere muitos empregos de baixa produtividade, proporcionando mais inclusão e trazendo endogeneidade ao processo. Portanto, pode-se interpretar o fenômeno descrito na Folha de forma diferente, ou seja, “a expansão do emprego sustentada pela contratação de mão de obra pouco qualificada nos últimos anos” é resultado do crescimento da economia e reforçou-o, e não é – apenas – uma causa do baixo crescimento. Isto não quer dizer, obviamente, que seja possível manter uma economia crescendo indefinidamente só com base neste tipo de estímulo. É evidente que empregos de alta produtividade e alta qualificação são imprescindíveis e representam bons sinais de vitalidade para qualquer sociedade. Também é evidente que estes empregos tiveram saldos negativos no Brasil nos últimos anos e este é um mau indicador. Mas é possível verificar que os empregos de baixa produtividade são causa e efeito de um tipo de crescimento que não estávamos acostumados a observar e que ainda temos dificuldade de entender com todas suas nuances e encadeamentos.

Flávio Fligenspan é professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS.

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