Conheça a história de luta do 1º de Maio no Brasil e no mundo

Comemoração de 1º de maio em São Bernardo do Campo, São Paulo, em plena ditadura militar no ano de 1980. Fotografia: SMABC

Foi em Porto Alegre, capital gaúcha, que ocorreu em 1892 a primeira comemoração do 1° de Maio em praça pública no Brasil. O evento foi realizado um ano depois de a Segunda Internacional Socialista decidir que seria um dia de luta em todos os países. Quem lembra este fato é o historiador Raul Carrion. Ele acrescenta, ainda, que este ano completam 70 anos do assassinato — em Rio Grande, pela Polícia — de quatro lideranças operárias ligadas ao Partido Comunista do Brasil. Em uma manifestação de 1° de Maio, eles lutavam pela reabertura da União Operária de Rio Grande, que havia sido fechada oito meses antes pelo ministro da Justiça.

No episódio, foram mortos a tecelã Angelina Gonçalves, o portuário Honório Couto, o ferroviário Osvaldino Correia e o pedreiro Euclides Pinto. Outro grande líder operário e vereador comunista Antônio Recchia foi baleado na coluna e ficou paraplégico. Também foram baleadas outras lideranças operárias, entre as quais os operários Osvaldino Borges Dávila e Amabílio dos Santos. Na ocasião, governava o Rio Grande do Sul o ex-juiz e ex-promotor Walter Jobim, do PSD, avô do ex-ministro Nelson Jobim.

Logo após a morte dessas lideranças, os operários assassinados foram enterrados num grande féretro em que os trabalhadores em caminhada usaram suas golas levantadas para simbolizar o apoio àqueles mártires e às suas causas. Cerca de 5 mil pessoas participaram do cortejo. “Isto nos mostra, em primeiro lugar qual o significado histórico, simbólico, dos primeiros de maio, algo que de certa forma, talvez até por desconhecimento, esteja se perdendo”, ressalta Carrion.

As origens

Por isso, reafirma Carrion, ao contrário do que se diz, o 1° de Maio não é o dia do trabalho, um feriado festivo, onde patrões e operários confraternizam. Mas, o Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores. Sua origem está na luta da classe operária pela redução da jornada de trabalho. No século XIX, início do século XX, era de 16, 14, 12 horas de trabalho diárias. Sem direito a descanso remunerado, sem direito a férias, aposentadoria, seguro acidente ou seguro doença. Com o surgimento em 1864, sob a inspiração de Karl Marx da Associação Internacional dos Trabalhadores, a redução da jornada de trabalho para oito horas diárias se tornou a principal bandeira da classe operária mundial.

Os trabalhadores norte-americanos, aprovaram, então, a realização de uma grande greve geral pela jornada de oito horas. Como diziam eles, sem distinção de sexo, ofício ou idade. E marcaram a data de 1° de maio de 1886. A greve se iniciou na data marcada, se estendeu a mais de cinco mil fábricas e a cerca de 240 mil trabalhadores. Em muitos lugares os patrões cederam, reduziram a jornada de trabalho. Porém em Chicago, que era a segunda maior cidade dos EUA, houve um grave confronto. Já dias antes, a chamada livre imprensa colocou-se a serviço dos patrões e nos dias que antederam a greve, o Chicago Times, por exemplo, dizia: “A prisão e o trabalho forçado, são a única solução para a questão social, o melhor alimento para os grevistas será o chumbo”.

Logo, a greve atingiu grandes proporções em Chicago. Sucederam-se grandes atos de rua e, além dos confrontos que foram ocorrendo, no dia 4 de maio os trabalhadores foram atacados com grande violência pela polícia. Foram mortos e feridos dezenas deles. Foi declarado estado de sítio, os sindicatos foram fechados, e milhares de operários presos pelo crime de defenderem oito horas de trabalho, oito horas de descanso e oito horas de estudo.

Não satisfeitos com essa repressão violenta, os patrões exigiram ainda o julgamento e a condenação dos líderes do movimento. Foi montada então uma farsa jurídica e selecionadas oito das principais lideranças grevistas. Na sua maioria anarquistas. Destes, sete foram condenados à morte e um deles a 15 anos de prisão. Pouco depois, outros dois tiveram suas penas de morte transformadas em prisão perpétua. Terminado o processo, que demorou um certo tempo, em fins de 1887, quatro deles – Spies, Fischer, Engels e Parsons, foram enforcados, o quinto apareceu morto na sua cela. Seis anos depois, o processo foi anulado por conta de todas as suas irregularidades e os três que ainda estavam presos foram libertados.

Em 1891, a II Internacional Socialista, aprovou no Congresso de Bruxelas que no dia 1° de Maio haveria demonstração única para todos os trabalhadores, de todos os países, com caráter de afirmação de luta de classes e reivindicação de oito horas de trabalho. Em os primeiros de maio que se seguiram houve greves, manifestações, choques com a polícia, e não era feriado.

Isto levou a uma situação em que as próprias elites burguesas decidiram que o melhor caminho seria tirar este caráter de luta, revolucionário, do 1° de Maio. E procuraram, nos diversos países, transformar em feriado que denominaram Dia do Trabalho e, desta forma,  procurar que estas mobilizações que se davam com grande combatividade fossem transformadas em meras festas.

Ato virtual de 1º de maio

A partir das 11h30 de sexta-feira (1°), trabalhadores de toda parte do Brasil puderam assistir à transmissão nacional ao vivo organizada de forma unitária pelas Centrais Sindicais — CUT, Força, UGT, CSB, CTB, CGTB, NCST, Intersindical, A Pública —, com o apoio das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo.

Em um 1º de Maio histórico, lideranças políticas do campo democrático se uniram por meio de uma transmissão virtual, em um evento do Dia do Trabalhador marcado pela oposição ao governo de Jair Bolsonaro (sem partido). 

A data, geralmente caracterizada por festivais, manifestações e ocupação de ruas e avenidas, foi marcada, desta vez, por lives solidárias coordenadas por sindicatos, pela primeira vez na história. O evento deste ano discutiu o tema “Saúde, Emprego e Renda. Em defesa da Democracia. Um novo mundo é possível”.

O evento reuniu lideranças de nove centrais sindicais e promoveu o encontro até mesmo de lideranças políticas antagônicas, como os ex-presidentes Lula (PT) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Apesar de virtual, é o primeira vez desde a disputa eleitoral de 1989 que os ex-presidentes dividem o mesmo palanque.

Fonte: Brasil de Fato e Brasil de Fato, com ajustes
Texto: Walmaro Paz
Data original da publicação: 30/04/2020

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