Após chacina, a repressão segue na África do Sul

Os porcos pairam vorazmente sobre um lixo à procura de alimentos. São os animais de estimação do quintal de um grande bolsão de pobreza, cujas casas minúsculas de latas acoplam seus moradores.

Um lamaçal onde crianças, jovens e idosos perambulam com dificuldade pelas pernas atoladas no barro, completa o cenário insalubre. Sem contar os urubus que sobrevoam os dejetos expostos para seu nutrimento. Ao andar pela comunidade fica evidente que serviços públicos de qualquer espécie inexistem.

Misturado a tudo isso, cercas de metais recortam toda a comunidade cerceando o ir e vir dos moradores e remontando uma paisagem dos antigos campos de concentração nazista.

Tudo isso a menos de 50 metros da maior zona de exploração de platina do mundo, na África do Sul. Local onde ocorreu um dos maiores massacres de trabalhadores da mineração dos últimos tempos.

Em 16 de agosto de 2012, aproximadamente 800 policiais fuzilaram sumariamente 34 homens, prenderam 273 pessoas e feriram outras 78. O episódio ficou mundialmente conhecido como o “Massacre de Marikana”.

Após um ano e meio do ocorrido, a reportagem do Brasil de Fato retorna ao local para conversar com um sobrevivente e uma testemunha ocular da maior chacina de negros posterior ao regime de apartheid.

Um clima tenso após o ocorrido tomou conta da localidade que passou a ser vigiada constantemente por empresas de segurança privada contratadas pelas mineradoras. Por outro lado, os mineiros insistem numa pauta de melhoria econômica da classe e pedem maior controle estatal das minas de platina e ouro da África do Sul, hoje exploradas por empresas, em sua grande maioria transnacionais.

Miséria

O trabalhador da mineração na África do Sul, às margens da impetuosa capital Joanesburgo, em Marikana é um dos mais mal remunerados do mundo.

Para uma jornada de oito horas diárias de trabalho, recebem em média 450 dólares por mês. As minas subterrâneas, onde desenvolvem as atividades, são altamente letais. Somente no grupo minerador britânico Lonmin são registradas cerca de 16 mortes anuais, sobretudo, por soterramento.

Pelo baixo salário, alguns trabalhadores chegam a ficar 30 dias sem folga pela promessa de bônus salarial, culminando numa leva de funcionários lesionados fisicamente e com perturbações mentais.

Enquanto isso, até o mês de julho, a Lonmin faturou 1,992 bilhão de dólares.

Favelas

Outro ponto de discórdia é a situação da moradia aos quais esses trabalhadores são submetidos. Faltam água e energia nas casas, enquanto as luzes do pólo minerador seguem acesas dia e noite sem nenhuma interrupção. Com a poluição da exploração da platina, a atividade de subsistência dessas famílias, outrora agrícola, foi inviabilizada.

Agora a única fonte de renda, fora o comércio, é o aluguel de cômodos das casas para os trabalhadores da mineração. Porém, como a demanda por casa extrapola a oferta, imensas favelas são formadas em áreas desabitadas nas portas das mineradoras.

“Uma das principais reivindicações dos trabalhadores e da própria comunidade é por moradia, justamente por essas condições degradantes em que vivem”, observa o historiador angolano Filômeno da Silva.

Ele ressalta que as empresas deixam seus funcionários de alto escalão fora das zonas de mineração, vivendo em residências confortáveis em Joanesburgo, enquanto mantêm a grande maioria da classe trabalhadora em condições de vida precária.

“Os brancos da África do Sul que tiveram acesso à educação no regime do apartheid ocupam os cargos de chefia, enquanto essa massa negra é submetida a todo tipo de exploração e moradia indigna”, complementa o professor.

O sobrevivente

O homem gordo, forte e de pele negra tem um olhar sisudo. Embora desconfiado ele nos recebe em uma casa humilde, onde a locomoção no interior da habitação apertada é feita sempre esbarrando nos móveis e eletrodomésticos. Como não frequentou a escola, não fala inglês, mas sim um dialeto africano. Um intérprete que mora na comunidade faz toda a tradução.

John, como prefere ser chamado, não quer revelar sua identidade. Viu a morte de perto em agosto de 2012 e desde então escolhe se preservar. “Desde o fuzilamento de nossos companheiros o clima aqui em Marikana tem sido tenso com muita vigilância e repressão bancada pelas mineradoras”.

A fala de John é representada pelas longínquas extensões de arames farpados que delimitam as áreas onde os trabalhadores podem permanecer ou não. Portanto, bosques e campos abertos nessas zonas estão cercados.

Sinalizações implantadas pelas empresas indicam aonde os trabalhadores podem se reunir. Geralmente é permitido se encontrarem apenas no pequeno estádio local.

“As condições de trabalho dessas minas são as piores possíveis e o tratamento dessas empresas dado aos negros é diferenciado dos brancos”, protesta o mineiro.

Um dos exemplos é narrado por Lindom Beker, um morador da região, que largou a vida de comerciante em Marikana e virou militante de direitos humanos depois de ser testemunha do dia fatídico da carnificina.

“É raro, mas quando morre um funcionário branco, a empresa Lonmin paralisa um dia suas atividades por luto, agora quando morre um negro, nenhum dia é concebido”, conta.

John, visivelmente temeroso ao tocar no assunto da organização dos trabalhadores para pessoas estranhas, encerra sua fala apresentando outros pontos de reivindicação: “um plano de moradia, melhores condições de trabalho e de segurança nas minas subterrâneas, aumento de salários e, por fim, o que vem ganhando força é a estatização desses recursos naturais na África do Sul”, finaliza.

Explode Marikana

Para especialistas africanos, o Massacre de Marikana e a repressão subsequente advêm de uma gama de motivos. Entre eles, para conter a onda de protestos e greves dos mineiros que se tornou rotineira nos últimos anos. Ademais, uma preocupação do capital estrangeiro, que detém a exploração da região, contra o risco de um levante popular.

“Qualquer forma de organização da classe trabalhadora que vise frear essa sangria de ouro e platina nesse país será eliminada”, reflete Lindon Beker. Para o professor Filômeno da Silva, a força policial respondeu à revolta dos mineiros da britânica Lonmin para aceitarem tal realidade.

“Marikana é a opressão máxima contra a luta desses homens miseráveis que hoje já falam em estatização, assunto que incomoda demais as multinacionais”, enfatiza.

Beker relembra tristemente o que viu no dia 16 de agosto de 2012. “Eu escutei os disparos incessantes contra os primeiros 14 trabalhadores que foram mortos em grupo”.

Depois o requinte de crueldade empregado ele quase não consegue narrar. “20 trabalhadores correram para o lado oposto desse primeiro grupo assassinado e foram também fuzilados pelas costas quando corriam. Uma cena que jamais esquecerei”, relata.

Polícia mente

Fato consumado, os policiais fizeram um cordão de isolamento ao redor dos corpos e permitiu somente a entrada de médicos legistas e peritos da própria corporação. Dias depois do acontecido a polícia tornou público um relatório, alegando ter agido em legítima defesa, já que estava acuada pelos trabalhadores.

Uma comissão da justiça da África do Sul foi destacada para apurar o caso. E após investigações paralelas concluiu que “muitas vítimas foram perseguidas e baleadas pelas costas”, menciona o documento.

Apesar da constatação, o massacre segue impune até hoje, sem nenhuma responsabilização da empresa ou da polícia pelas mortes.

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Fonte: Brasil de Fato
Texto: Márcio Zonta
Data original da publicação: 12/03/2014

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