A história vista desde baixo

Fotografia: Kim Traynor/Wikimedia Commons

O historiador marxista E. P. Thompson faleceu neste dia em 1993. Sua trajetória foi marcada pela defesa de uma educação rebelde, o comprometimento com a luta antifascista e a construção de um socialismo humanista. Resgatamos aqui sua vida e obra.

Fernando Pureza

Fonte: Jacobin Brasil
Data original da publicação: 28/08/2020

Quando E. P. Thompson faleceu, Eric Hobsbawm escreveu um tocante obituário dedicado a seu amigo para o jornal The Independent. Nele, Hobsbawm descreve Thompson como um intelectual eloquente, gentil, encantador, com presença de palco, com uma voz maravilhosa e “dramaticamente” bonito. Mais do que tudo isso, Thompson foi um desses casos fenomenais do século XX onde intelectualidade e militância caminhavam de mãos dadas, compondo um marxismo vivo e pouco afeito a ortodoxias. Honrar sua memória  27 anos depois do dia de seu falecimento, em 28 de agosto de 1993, inevitavelmente exige que reconheçamos algumas de suas maiores contribuições políticas e teóricas a partir da questão política crucial: no que uma perspectiva thompsoniana pode ajudar os socialistas hoje?

Experiência, o termo ausente

Uma das maiores contribuições teóricas de E. P. Thompson foi trazer a centralidade do conceito de “experiência” para os debates marxistas. Contudo, essa não é só uma contribuição teórica, mas eminentemente prática. Para Thompson, a experiência era um conceito que permitia olhar para uma profunda dialética entre as determinações objetivas e as subjetividades da classe. Sua própria trajetória de vida demonstra a centralidade da experiência.

O pai, Edward John Thompson, foi um poeta e intelectual metodista que se aproximou do anticolonialismo indiano. Casado com Theodosia Jessup, tiveram dois filhos: Frank e Edward. Ambos ingressaram na faculdade e, por ocasião da Segunda Guerra Mundial, se alistaram na luta antifascista. Frank, o mais velho, se aproximou do Partido Comunista da Grã-Bretanha (PCGB) e, como oficial, se voluntariou a uma missão na Bulgária, onde foi assassinado em 1944. O irmão mais novo, Edward, acabou indo lutar na Itália. A perda do irmão em meio a luta antifascista contribuiu para reforçar o compromisso que compartilhavam, e o engajamento no PCGB.

Assim como Frank Thompson, Edward não estava propriamente convicto da infalibilidade das diretrizes de Moscou. Frank era abertamente crítico ao Pacto Ribbentropp-Molotov e se alistou por convicção de que a luta antifascista não poderia ser suspensa, mesmo que temporariamente. Já E. P. Thompson, tão logo a guerra terminou, decidiu participar da reconstrução da Iugoslávia sob o comando do Marechal Tito, construindo estradas de ferro. Nessas andanças, conheceu Dorothy Towers, também historiadora, militante do partido e engajada na reconstrução do país. A partir desse compromisso comum constituíram uma parceria que iria durar até o fim da vida de E. P. Thompson.

O engajamento real e concreto com o antifascismo certamente o diferenciava de muitos outros intelectuais marxistas da época. Convém ressaltar, no entanto, que a partir de 1946 o PCGB constituira um núcleo bastante ativo de historiadores, todos eles fazendo profundos questionamentos contra consensos acadêmicos e discutindo novas perspectivas para a historiografia inglesa. É nesse contexto que Thompson se alia com intelectuais como Christopher Hill, Eric Hobsbawm, Dora Torr, entre outros, que, decididos a deixar sua marca, criam a Past and Present, uma revista de intervenção política no cenário intelectual britânico. Os chamados “historiadores marxistas britânicos” causaram uma verdadeira revolução ao reivindicarem uma história dos de baixo.

De baixo para cima e à esquerda

A ideia de uma “história vista de baixo” buscava justamente resgatar as concepções das classes populares inglesas ao longo da história, por meio de uma orientação organicamente vinculada a um marxismo militante. Havia algo de heterodoxo na posição desses historiadores: a vida das classes populares deveria ser vista a partir do próprio contexto britânico, recusando-se a dispor de categorias de análise que fossem estranhas a essa realidade vivida, o que teria um imenso significado posteriormente na ideia de classe avançada por Thompson.

O cenário internacional passava então por mudanças profundas. A morte de Stalin em 1953 e o Relatório Kruschev, de 1956, abalaram profundamente as concepções de muitos desses historiadores filiados ao PCGB. Começaram a surgir denúncias e críticas internas ao partido. Thompson foi um dos que passou vocaliza-las, em parceria com John Saville, na criação de uma revista nova chamada Reasoner. De curta duração (fechada por orientação do próprio partido), a revista serviu para mostrar a necessidade de organizar as vozes críticas do que viam como o “dogmatismo político do Partido Comunista da Grã-Bretanha”. A gota d’água, contudo, foi a invasão soviética à Hungria, em 1956. Os eventos em Budapeste precipitaram a saída de Thompson e outros historiadores do partido. 

Os historiadores marxistas britânicos, contudo, não interromperam sua militância. A New Reasoner, surgida em 1957, anunciava seu compromisso com “valores socialistas”, mas também com uma “percepção não-dogmática da realidade”. Apesar de fora do partido, Thompson reafirmou-se marxista inúmeras vezes, um compromisso que o acompanhou até o fim da vida. Aos poucos, a revista foi abrindo espaço para as muitas dissidências na esquerda britânica, tanto entre comunistas quanto entre trabalhistas críticos das lideranças dos seus partidos.

A atividade de intervenção militante era acompanhada da docência. Desde 1955, Thompson atuava nas escolas para jovens e adultos, dando aulas de história e literatura inglesa – uma de suas paixões. As aulas, como o próprio Thompson lembrava, reafirmavam seu compromisso político com os “de baixo”, com sua cultura, suas tradições, suas visões de mundo. Aliadas com sua voz dissidente e radical, em pouco tempo a figura de Thompson se tornou famosa nos meios da esquerda britânica. Foi nesse meio tempo em que ele recebeu um convite inusitado: escrever um livro sobre a história da classe trabalhadora inglesa.

O enigma da classe

Aabordagem de E. P. Thompson surpreendeu. Até então, a esquerda britânica contava a história da classe trabalhadora a partir da história do movimento operário industrial, destacando as primeiras agremiações cartistas, na década de 1830, que tinham claro viés sindicalista. Thompson, por sua vez, resolvera retroceder até as últimas décadas do século XVIII para focar-se naquilo que ele chamara de “o fazer-se da classe operária” (making of, que na edição brasileira foi traduzido como “formação”). Dessa forma, a classe trabalhadora não nasceria “pronta”, dada como resultado das determinações econômicas objetivas, mas era resultado de uma longa formação social, política e cultural. O foco de Thompson seria justamente as experiências dos sujeitos proletários ao longo do tempo conforme compunha uma forma de sentir e agir em coletivo.

O impacto de A formação da classe operária inglesa foi imenso. Traduzida mundo afora, gerou impactos duradouros para além da Inglaterra e da própria Europa – Brasil, Índia, Egito, Japão, etc.. Trata-se de uma obra imbuída de um duplo sentido da ideia de experiência. Para Thompson, a experiência é o elemento capaz de mediar as determinações econômicas e as tradições culturais e políticas. Dessa forma, a categoria carrega uma dialética profunda, capaz de mostrar o movimento entre a transformação das forças produtivas ao mesmo tempo em que sugere que as relações produtivas são muito mais amplas do que aquelas do chão de fábrica. Tradições como o metodismo, ou hábitos alimentares, músicas, literatura, folclore, se soma ao tortuoso processo de formação da consciência coletiva dos trabalhadores ingleses, até o momento em que eles se reconhecem não mais por localidade, religião, ou ofício, mas sim como “classe”. Para tanto, era necessário criar uma nova linguagem e uma nova cultura que desse conta das novas experiências de exploração vivenciadas – esse arcabouço não emergia do nada, mas do acúmulo de inúmeras tradições vindas do passado.

Thompson enfatizava que sua obra só poderia ter sido escrita num contexto em que ele mesmo estava dividindo sua atenção com as aulas noturnas e com sua militância na Nova Esquerda. Como confessou, em 1961, em carta para o amigo e historiador Raphael Samuel:

“Além disso, estou com seis aulas e mais outros cursos adicionais para gerentes hospitalares (só essa semana já são nove aulas), além de estar no comitê de quatro departamentos diferentes, mais três crianças que continuam celebrando o feriado de Guy Fawkes e seus aniversários, além de um crescimento miraculoso das campanhas de desarmamento nuclear em Yorkshire e Halifax (em Yorkshire fomos de 0 para 150 comitês em dois meses!) – além de toda a correspondência do comitê editorial [da New Left Review] que você já deve ter ouvido falar. A única coisa em que sou parecido com Marx é que eu também estou ficando com furúnculos no pescoço.”

A experiência como militante e professor é fundamental para a escrita de Thompson. Dar aulas em diferentes cidades como Halifax, Yorkshire, Batley, Keighley, N’Allerton, permitia conhecer diferentes realidades de trabalhadores, diversos não apenas pela localidade como pelo ofício – trabalhadores manuais, de escritório, donas de casa, técnicos, professores. Uma classe multifacetada, com a qual Thompson tinha contato em suas aulas de história e literatura inglesa. Na sala de aula, estimulava que seus alunos trabalhadores falassem sobre suas tradições e cultura. Esse estímulo, tão vital para o processo de aprendizagem, o tornou cada vez mais atento às tradições culturais dos sujeitos subalternos, que eram frequentemente menosprezadas pela historiografia tradicional que tinha como objeto a classe operária.

A militância, por sua vez, seguia um caminho abertamente heterodoxo. Após a saída do PCGB, Thompson dedica sua atividade política a duas ações primordiais: a participação na New Left Review – e depois na Socialist Register – e o ativismo antinuclear, que gerou um livro pouco lembrado, mas muito instigante, Exterminismo e Guerra Fria. Thompson se manteve um socialista ferrenho até os últimos dias, reivindicando uma tradição histórica romântica e revolucionária – e, principalmente, radicalmente democrática.

Romântico e dissidente

“Deixar o erro sem refutação é estimular a imoralidade intelectual”. É com essa frase de Marx que Thompson abre a sua mais célebre obra polêmica, A Miséria da Teoria, onde se engaja numa discussão com o filósofo francês Louis Althusser. Essa não foi, contudo, a única polêmica de grandes proporções que Thompson comprara: Tom Nairn, Perry Anderson, Leszek Kolakowski, além do próprio Althusser, foram alguns de seus alvos principais. Mas não eram polêmicas vazias: em cada uma delas, o historiador inglês identifica questões referentes ao campo do marxismo que precisavam ser trazidas para o debate público.

A experiência de Thompson no PCGB, nos anos 1950, foi marcada pela crítica constante ao fechamento de debates no interior do partido, promovidos por uma liderança cada vez mais alinhada com o marxismo vindo de Moscou. Thompson, por sua vez, acreditava no dissenso e no debate – nem sempre fraterno – e com isso concebia que seu papel como militante era justamente provocar a troca de ideias e a crítica. Com isso, polemizou abertamente com o estruturalismo francês e suas influências nos jovens marxistas britânicos. Tanto Peculiaridades dos Ingleses quanto A Miséria da Teoria inserem-se nesse debate. 

Tais dissensos muitas vezes geraram prejuízos no âmbito profissional. Em 1971, Thompson antagonizou diretamente com a Warwick College, onde fora convidado a dar aulas após o sucesso editorial de A formação. Segundo Barbara Winslow, que foi sua aluna na época, o professor Thompson ficou a favor dos alunos em um escândalo no qual haviam descoberto que a administração da universidade espionava um grupo de estudantes. O professor então escreveu um libelo contra a universidade, posicionando-se a favor dos alunos. Em 1971, pediu demissão – a vida acadêmica realmente não era para ele. 

Não obstante as polêmicas, Thompson sempre manteve no horizonte a necessidade de uma política de frente popular, como salienta Stefan Collini. As dissidências dentro – e fora – do marxismo, combinadas com seu estilo irônico e afiado de escrita, não podem perder de vista que para ele, o que estava em jogo era a defesa de um projeto político radicalmente democrático, inspirado nas lutas do passado. Esse projeto, contudo, não poderia jamais poderia se submeter a uma autoridade que valorizasse a ortodoxia para além da razão. Nesse sentido, o marxismo proposto por E. P. Thompson sempre foi um marxismo rebelde, heterodoxo e crítico, distribuindo farpas contra seus adversários. Uma frente popular na qual o debate e a dissidência pudessem fazer parte – essa era a pretensão thompsoniana.

Lendo E. P. Thompson no nosso tempo

Como militante e intelectual, Thompson seguiu seus afazeres até sua morte, em 1993. Alguns textos póstumos ainda são lembrados e sua memória é constantemente reivindicada entre as esquerdas ao redor do mundo. 

A Formação da Classe Operária Inglesa é o pontapé inicial para conhecer o autor. O prefácio é um dos textos mais citados na historiografia, mas quem resolver se aventurar pelos três volumes encontrará uma longa e poderosa história sobre as muitas tradições e lutas que estavam presentes no fazer-se da classe trabalhadora inglesa. Uma obra inspiradora, que inicia com uma pequena seita jacobina em Londres e termina apontando para um operariado que se afirma enquanto classe.

Para os que se interessam por polêmicas, Peculiaridades dos Ingleses e Miséria da Teoria são excelentes opções. O estilo cáustico da escrita de Thompson e seu compromisso político com a “história vista de baixo” é reafirmado constantemente. No mesmo tom do Thompson polemista, seu ensaio “Carta aberta à Leszek Kolakowski” – e a réplica do filósofo polonês – foram recentemente publicadas pela Editora da UFSC e merece ser lido como um debate polêmico no interior do marxismo (que Thompson acusa Kolakowski de abandonar).

Para aqueles que desejam uma pesquisa mais historiográfica, Senhores e Caçadores e os ensaios de Costumes em Comum mostram o roteiro de pesquisa thompsoniano após A formação. De tanto voltar para o século XVIII para falar sobre as origens da classe operária, Thompson resolveu se demorar por lá por mais algum tempo, analisando as diferentes tradições rebeldes do período. 

Obras como Exterminismo e Guerra Fria e Os Românticos parecem destoar desse quadro. Mas considerando a trajetória thompsoniana, são fundamentais para entendê-lo sujeito em sua faceta enquanto militante e educador. No primeiro, Thompson organizou um livro com intelectuais ligados a New Left Review e outras revistas para debater sobre a Guerra Fria e o conflito nuclear iminente. O livro pode parecer datado, mas o compromisso político de E. P. Thompson e sua inegociável defesa do desarmamento nuclear são apaixonantes, contextualizados a partir de uma análise política ferina. Já Os Românticos guarda alguns dos últimos ensaios de Thompson sobre a cultura inglesa do século XVIII, sendo que um dos ensaios mais apaixonantes do livro se chama “Educação e Experiência”.

Para que resgatemos Thompson da “imensa condescendência da posteridade”, devemos partir do princípio de que ler suas obras é uma forma de mantê-lo vivo. Creio, contudo, que podemos, e devemos, almejar mais. Este resgate não pode se resumir à faceta intelectual, por mais digna de elogios que seja. Deve também concentrar-se em uma trajetória de vida comprometida com o marxismo, com o antifascismo e com um socialismo humanista. Trata-se também de que nós, em nosso duro e angustiante presente, resgatemos as experiências de militâncias e dissidências, sem perder de vista a dedicação na construção um projeto socialista que jamais poderia vir de cima para baixo, mas que deve ser construído nas densas determinações da vida cotidiana das pessoas trabalhadoras. Um socialismo radicalmente democrático, ligado à experiência dos sujeitos em luta.

Fernando Pureza é professor do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba.

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