4 de maio de 1886: acontece o Massacre de Haymarket, confronto entre policiais e manifestantes que influenciou a criação do Dia Internacional dos Trabalhadores

Há 154 anos, acontecia o Massacre de Haymarket, confronto entre policiais e manifestantes que influenciou a criação do Dia Internacional dos Trabalhadores

A revolta de Haymarket, Chicago, 1886. Ilustração: Wikimedia Commons

Igor Natusch

Os primeiros dias de maio de 1886 tiveram desdobramentos trágicos nos Estados Unidos. Evento culminante de vários dias de tensão, o chamado Massacre de Haymarket resultou em pelo menos doze mortos e dezenas de feridos, além de um julgamento até hoje muito criticado e de um intenso movimento de perseguição a movimentos sindicais. Ocorrido no dia 4 de maio daquele ano, o incidente acabou tendo peso duradouro no imaginário operário ao redor do mundo, e influenciou o processo que consolidou mundialmente o 1º de maio como Dia dos Trabalhadores.

A cidade de Chicago era, nos últimos anos do século XIX, um dos principais centros industriais dos Estados Unidos. Em um cenário de grande exploração pesando sobre os trabalhadores (estudos recentes apontam que pagamentos irrisórios e jornadas de trabalho acima das 60 horas semanais são comuns), é natural que a região tenha se tornado, da mesma forma, um importante espaço para organização sindical. Na cidade, circulava o jornal Arbeiter-Zeitung, de caráter anarquista e publicado em alemão, para atender o amplo contingente de trabalhadores germânicos na cidade. Outros mecanismos de atuação dos anarquistas de Chicago eram menos pacíficos: diante da perseguição contra sindicalistas e dissolução violenta de núcleos grevistas, grupos revolucionários armados também começaram a surgir, dispostos a proteger operários em manifestações e enfrentar agressores enviados pelos patrões.

Definida dois anos antes, em uma convenção da Federação Americana do Trabalho, a data de 1º de maio de 1866 seria um marco para a defesa da jornada de oito horas diárias nos EUA. Em Chicago, os protestos e greves (coordenados pelo editor do Arbeiter-Zeitung, August Spies) reuniram um número próximo de 80 mil pessoas, disparando uma série de atos menores nos dias seguintes. Em 3 de maio, uma dessas situações resultou em um conflito entre grevistas e operários que queriam seguir trabalhando, reprimido a tiros pela polícia e que resultou em ao menos duas mortes. Revoltados, núcleos anarquistas rapidamente convocaram um protesto para o dia seguinte na Haymarket Square, um dos principais centros comerciais da cidade. 

Segundo historiadores, a manifestação do dia 4 de maio de 1886 havia se dado sem incidentes e já estava próxima do encerramento quando um grande contingente policial surgiu. Logo em seguida, uma bomba foi arremessada contra os policiais, causando pelo menos uma vítima fatal. Imediatamente a seguir, teve início um tiroteio. É incerto o número total de vítimas entre os manifestantes, já que muitos evitaram buscar ajuda médica com medo da prisão; entre os policiais, o incidente de Haymarket segue sendo o que causou mais mortes de oficiais em serviço na história do Departamento de Polícia de Chicago, com oito integrantes da tropa perdendo a vida.

Nos dias seguintes, uma intensa perseguição a sindicalistas teve início, fortemente incentivada pela imprensa, que tratou o incidente como uma conspiração anarquista em uma cobertura que logo ganhou dimensão internacional. Dezenas de pessoas foram presas, boa parte delas com pouca ou nenhuma conexão com o protesto em Haymarket. A identidade da pessoa que arremessou a bomba, contudo, nunca foi estabelecida. Ao todo, sete pessoas (entre elas August Spies, acusado de liderar a suposta conspiração) foram condenadas à morte; um deles (Samuel Fielden, que havia terminado seu discurso instantes antes da explosão) suicidou-se na prisão, enquanto outros quatro – Spies, Adolph Fischer (tipógrafo do Arbeiter-Zeitung), George Engel (conhecido militante anarquista da região, que alegou estar jogando cartas em casa no dia do protesto) e Albert Parsons – foram enforcados em 11 de novembro de 1887.

Criticado por muitos já à época como uma farsa, o julgamento seria questionado de forma cabal por John Peter Altgeld, governador do estado de Illinois, que em 1893 anulou as penas dos três condenados que escaparam da execução. Os quatro executados viraram mártires do movimento trabalhista norte-americano, e a pressão pela jornada de oito horas não chegou a ser abalada, senão ganhando força com o passar dos anos. Os protestos de Chicago tiveram grande importância na consolidação do Dia Internacional dos Trabalhadores: convocado pela chamada Segunda Internacional, a data foi comemorada pela primeira vez em 1890, com o objetivo de homenagear os que foram mortos em decorrência das manifestações na cidade norte-americana.

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