28 de maio de 1871: chega ao fim a Comuna de Paris, marco na história dos movimentos revolucionários ao redor do mundo

Há 149 anos, chegava ao fim a Comuna de Paris, marco na história dos movimentos revolucionários ao redor do mundo

Queda da coluna de Vendôme durante a Comuna de Paris, maio de 1871. Fotografia: Bruno Braquehais/National Gallery of Victoria

Igor Natusch

Durante pouco mais de dois meses, a cidade francesa de Paris foi sacudida por um dos mais importantes movimentos revolucionários da história. De fato, poucos eventos são tão significativos na memória coletiva do movimento operário mundial quanto a Comuna de Paris, que buscou estabelecer um governo radicalmente popular, sem centralização de poderes e sob controle completo da classe trabalhadora. A experiência foi encerrada de forma brutal em 28 de maio de 1871, depois de uma longa semana de conflitos com tropas governamentais. Uma guerra civil que deixou boa parte da capital francesa em ruínas, mas não conseguiu arrefecer o ânimo de pensadores revolucionários, seja na França ou no restante do mundo.

O movimento foi consequência direta da derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana (1870-71), que resultou na queda do imperador Napoleão III e na formação de um governo republicano, presidido por Adolphe Thiers. Enquanto os líderes políticos franceses negociavam um armistício com os prussianos, os cidadãos de Paris se mostravam contrários a qualquer acordo, mesmo sofrendo as consequências de um prolongado sítio por parte das forças militares rivais. Formada por muitos integrantes das classes populares, a Guarda Nacional também vivia uma série de insubordinações – uma situação que complicava ainda mais o cenário, na medida em que o Comitê Central da Guarda Nacional estava, neste momento, no comando efetivo da prefeitura parisiense.

Mesmo diante da insatisfação popular, o armistício foi assinado em Versalhes (para onde o governo francês havia se transferido no decurso dos acontecimentos) em 26 de fevereiro daquele ano. Logo após, em 18 de março, Thiers promoveu uma operação secreta para, durante a madrugada, sequestrar o armamento pesado usado durante a resistência ao sítio prussiano, que estava em posse da Guarda Nacional. A medida, se bem sucedida, seria decisiva para restabelecer a autoridade nacional sobre a cidade. O silencioso avanço do Exército, porém, acabou sendo flagrado por mulheres que participavam de barricadas, que deram o alarme da invasão. Com adesões do próprio Exército, que se solidarizaram com as demandas populares e desertaram em plena investida, as tropas governamentais acabaram vencidas e expulsas pelos revoltosos.

Paris estava, então, plenamente separada do governo francês, pronta para viver uma experiência inédita de governo popular. A partir do Comitê Central, a Comuna de Paris tomou forma. Após a sugestão (trazida pela ala mais radical) de marchar até Versalhes ter sido recusada, foram eleitos 80 delegados, com salários equivalentes a de um operário qualificado e que poderiam ser afastados de seus cargos a qualquer momento, caso fossem considerados inaptos para suas funções. Coube ao colegiado estabelecer comitês para as tarefas urgentes, em um modelo sem prefeitos ou outras lideranças estabelecidas

Medidas hoje consideradas basilares na maioria dos regimes democráticos, como a igualdade civil entre homens e mulheres (e, de fato, mulheres foram decisivas nos rumos da revolução em curso), separação entre Igreja e Estado e ensino laico e gratuito, tiveram na Comuna de Paris uma de suas primeiras aparições. O trabalho noturno foi suprimido, mulheres e crianças tiveram jornadas reduzidas, fábricas consideradas ociosas foram confiscadas e entregues a cooperativas. Ao invés de tropas de Estado, decidiu-se que a Comuna seria protegida por milícias populares. O internacionalismo foi aprovado, de forma que pessoas de diferentes nacionalidades pudessem se juntar aos comunardos, e a pena de morte foi abolida.

A violenta reação do Exército francês, porém, logo suprimiu os esforços da Comuna. Constantes bombardeios impuseram pesadas baixas, e a Comuna de Paris acabou derrotada na chamada Semana Sangrenta, de 22 a 28 de maio. Ao todo, algo em torno de 10 mil revolucionários foram mortos, com outros 15 mil sendo presos (boa parte deles, posteriormente, condenada à deportação). De qualquer modo, e mesmo não tendo existido por muito mais que dois meses, a Comuna teve efeito duradouro – não apenas influenciando levantes semelhantes, em cidades como Lyon e Marselha, como marcando fortemente o imaginário revolucionário ao redor do mundo, em uma inspiração que se estende aos dias atuais.

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