28 de dezembro de 1973: astronautas da Skylab 4 desligam o rádio e interrompem as atividades – no que alguns chamam de “a primeira greve no Espaço”

Há 46 anos, astronautas da Skylab 4 desligavam o rádio e interrompiam as atividades – no que alguns chamam de “a primeira greve no Espaço”

Da esquerda para a direita, Edward G. Gibson, Gerald P. Carr e William R. Pogue. Fotografia: Nasa

Igor Natusch

Segundo alguns autores e analistas, o dia 28 de dezembro de 1973 registrou um marco inusitado para a história da humanidade. Durante um período de pelo menos 90 minutos, os astronautas norte-americanos William R. Pogue, Gerald P. Carr e Edward G. Gibson, que integravam a quarta tripulação a ocupar a estação espacial Skylab, desligaram o rádio e ficaram sem comunicação com o solo, recusando-se deliberadamente a cumprir as tarefas estabelecidas pela NASA. A medida foi a culminância de seis semanas de tensão dentro da missão Skylab 4 – e, com o passar dos anos, o incidente ganhou contornos cada vez mais lendários. Terá sido a primeira greve humana no espaço?

As condições de trabalho dentro do Skylab estavam longe de ser amigáveis. A NASA pretendia descontinuar o uso da estação espacial em breve, de forma que arranjou tudo para obter o máximo possível de dados durante a missão de Pogue, Carr e Gibson – uma lógica exacerbada pelo alto custo, estimado em mais de US$ 20 milhões para cada dia no espaço. A rotina prevista para as medições, experimentos e observações era tão pesada que o próprio material de imprensa divulgado pela agência na época dizia que as tarefas “encheriam as horas de vigília da tripulação”. Ou seja, os três tinham tempo, basicamente, para trabalhar e dormir, com poucas pausas previstas para descanso e relaxamento. Algo que astronautas mais experientes talvez conseguissem administrar bem, mas que logo mostrou-se inadequado para uma equipe de novatos no espaço. 

O clima entre os tripulantes e o controle da missão ficou ruim praticamente desde o início. No primeiro dia, parte dos astronautas ficou enjoada e teve crises de vômito. Eles tentaram esconder o incidente dos controladores na Terra, mas foram desmascarados e repreendidos publicamente, a primeira vez que algo do tipo foi registrado na corrida espacial norte-americana. A tensão cresceu a partir do estado de quase exaustão dos tripulantes. Incapazes de cumprir as tarefas dentro do rígido cronograma, eles precisaram usar seus dias programados de folga para recuperar o tempo perdido, e chegaram a deixar barbas crescerem (nenhum deles as usava antes da decolagem) pela incapacidade de cuidar da própria aparência. Os controladores, por sua vez, consideravam a equipe de astronautas (segundo o jornalista Henry S.F. Cooper) “letárgica e negativa”, demonstrando pouca simpatia (quando não aberto desagrado) pelas reclamações da tripulação.

Poucos dias antes do Ano Novo, a situação chegou ao ápice. Há grande debate sobre a real natureza do que aconteceu – e é preciso considerar que, em um contexto de Guerra Fria, a visão do incidente como um motim poderia ser no mínimo desagradável para todos os envolvidos. O próprio Edward G. Gibson declarou posteriormente que o rádio foi desligado por engano e que a ideia de uma greve no Skylab 4 é um mito, nascido de uma interpretação errônea dos fatos pela imprensa. Gerald P. Carr, no entanto, tem outra versão: segundo ele, o desligamento do rádio foi intencional, uma forma de enfatizar ao controle da missão que os três finalmente tirariam um auto-determinado dia de folga. Enquanto estiveram desconectados, lembra Carr, os três tomaram banho, olharam pelas janelas, fizeram experimentos por conta própria e relaxaram – o que talvez não seja a descrição clássica de um movimento grevista, mas certamente marca uma interrupção importante nos procedimentos de uma missão espacial.

No dia 30 de dezembro, pouco mais de dois dias depois do incidente, os astronautas e o controle de solo estabeleceram um período formal de negociação. Os dois lados mencionaram abertamente suas insatisfações, e a NASA admitiu que o cronograma original mostrou-se “ambicioso demais” para os limites e possibilidades da missão. O principal encaminhamento foi trocar a agenda apertada por uma lista de tarefas, mais flexível e sem estabelecer horários de cumprimento. O resultado foi o melhor possível: o trio voltou a ter intervalos para refeição e descanso, o clima entre Terra e espaço ficou mais leve e, ao final da missão, todas as tarefas previstas antes da decolagem haviam sido cumpridas adequadamente. Independente do que se pense sobre a suposta greve no Skylab 4, a reação tornou-se um caso de estudo sobre o efeito de missões espaciais extensas no comportamento de astronautas, sendo um dos elementos que levou à desaceleração da exploração espacial em anos posteriores.

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