23 de agosto de 1966: tem início a greve de nove anos dos Gurindji, decisiva para garantir direito à terra aos aborígenes da Austrália

Há 54 anos, iniciava a greve de nove anos dos Gurindji, decisiva para garantir direito à terra aos aborígenes da Austrália

Fotografia: Nothern Territory Library

Igor Natusch

Como outras tantas movimentações promovidas por colonizadores europeus, a ocupação do território australiano seguiu uma cartilha tristemente conhecida: violenta sujeição dos povos originários e das terras em que viviam, provocando desequilíbrio no ecossistema e inviabilizando a manutenção de costumes e modos de subsistência. Na difícil (e por vezes violenta) estrada para o reconhecimento de seus direitos, os aborígenes promoveram alguns eventos marcantes. Um dos principais, sem dúvida, é a longa greve do povo Gurindji em Wave Hill, iniciada em 23 de agosto de 1966 – abandonando as fazendas onde eram mão-de-obra barata na criação de gado e permanecendo nove anos de braços cruzados, até que recuperassem parte dos direitos sobre a terra de seus ancestrais.

Um dos inúmeros povos que habitam a Austrália há dezenas de milhares de anos, os Gurindji tiveram seu modo de vida brutalmente modificado a partir da chegada dos colonizadores britânicos, na metade do século XIX. A transformação da região (localizada no norte australiano e chamada de Wave Hill pelos europeus) em um amplo espaço de criação de gado lançou a vida dos Gurindji no caos. Incapazes de sobreviver da forma que conheciam, restou aos nativos buscar ocupação nas fazendas dos ocupadores: mesmo com o modo de vida destruído, ao menos seguiriam nas terras onde viveram por milênios. 

Dizer que os fazendeiros de Wave Hill exploravam os Gurindji é ser excessivamente generoso. Os nativos moravam em barracos improvisados com folhas de ferro, sem qualquer tipo de cama ou instalações sanitárias, e a maior parte do seu (já paupérrimo) salário era recebido em forma de alimentos: farinha, açúcar e restos da carne bovina comercializada pelos senhores. Pesquisadores e fiscais, em visitas à região, constataram que muitas Gurindji se prostituíam para ter um pouco mais de comida ou roupas para suas famílias, e a escassez de água potável trazia recorrentes problemas de saúde. 

Mesmo com a pressão crescente de centrais sindicais australianas e de lideranças ligadas à causa dos aborígenes sobre o grupo Vestey (conglomerado alimentício que controlava a produção em Wave Hill), a situação não tinha sofrido maiores mudanças até a metade de 1966, mais de um século depois da chegada dos europeus à região. À época, o pioneiro ativista Dexter Daniels excursionou pela Austrália, discursando sobre o sofrimento dos Gurindji e arrecadando doações para um fundo de greve. Por fim, os Gurindji, liderados por Vincent Lingiari, abandonaram seus postos de trabalho em 23 de agosto daquele ano. Em março de 1967, se dirigiram a um antigo solo sagrado, chamado Daguraru, marcando uma nova camada em suas reivindicações: além de melhores salários e condições de vida, eles também exigiam sua terra de volta.

A paralisação durou vários anos, com uma série de ameaças e dificuldades materiais, mas foi decisiva no sentido de sensibilizar a opinião pública australiana para a causa dos aborígenes. Outros povos locais começaram a buscar na Justiça a posse de suas terras originárias, e o ano de 1972 teve a posse de Goug Whitlam como primeiro-ministro da Austrália – um político que, desde muitos anos antes, havia assumido as demandas dos aborígenes como uma de suas principais agendas. Em 1975, após longa negociação com a Vestey, os Gurindji finalmente receberam a escritura temporária de parte do território onde viviam: no ato de entrega, Whitlam despejou um punhado de terra nas mãos de Lingiari, marcando de forma simbólica a devolução da terra aos que nela viveram por milênios.

Aprovada no ano seguinte, a Aboriginal Land Rights Act 1976 foi a primeira legislação australiana concernente aos direitos dos povos originários à terra e ao exercício de sua cultura e tradições. Após uma série de entraves políticos, os direitos definitivos e inalienáveis dos Gurindji foram confirmados em 1986. Atualmente, embora ainda dependente dos modelos de negócio estabelecidos pelos europeus na região, Daguraru (hoje inserida em uma região mais ampla, chamada Kalkarindji) segue sendo um marco da reconquista de direitos dos aborígenes em solo australiano.

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