20 de fevereiro de 1946: mais de 100 mil trabalhadores cruzam os braços em São Paulo, marcando a força dos movimentos independentes de trabalhadores

Há 74 anos, mais de 100 mil trabalhadores cruzavam os braços em São Paulo

Grevistas do setor têxtil, São Paulo, 1946. Fotografia: Memorial da Democracia

Igor Natusch

A história de greves e mobilizações populares teve um capítulo significativo no dia 20 de fevereiro de 1946. Na data, trabalhadores e trabalhadoras de São Paulo cruzaram os braços, em uma mobilização contra o arrocho salarial e a precarização crescente da vida nas fábricas. A paralisação ficou conhecida como a Greve dos 100 mil e marcou o auge de um período de intensa disputa entre a classe trabalhadora e governo entre o fim do Estado Novo e a primeira parte do governo de Eurico Gaspar Dutra.

Além de explicitar a insatisfação de amplos setores, a greve marcou um ponto decisivo na disputa entre organizações autônomas de trabalhadores e os sindicatos oficializados junto ao então Ministério do Trabalho. Essas entidades ficaram conhecidas como “pelegos”, acusadas de pouco ou nada fazer pelas classes profissionais que representavam, servindo muito mais para sufocar a insatisfação dos operários e simular uma negociação com o governo que, na verdade, era pura aceitação de condições impostas. Diante da apatia dos sindicatos ministerialistas, as comissões de fábrica foram ganhando força – atuando não apenas como mecanismo de pressão sobre os “pelegos”, mas também, muitas vezes, passando por cima deles e adotando estratégias de pressão direta sobre patrões e governantes.

Nos primeiros dois meses de 1946, dezenas de greves foram registradas em diferentes pontos do país, a maioria delas concentrada em São Paulo. O setor têxtil, notório “puxador” de greves do período, vinha consolidando uma paralisação geral desde o final de janeiro, e sua atuação chegou ao auge no dia 20 de fevereiro, quando cerca de 50 mil trabalhadores promoveram um grande protesto. Movimentos semelhantes foram registrados em cidades da região do ABC, afetando setores como bancários, trabalhadores de frigoríficos e diferentes tipos de fábricas. Em todas essas medidas, a organização ficou com as comissões de fábrica, realçando a incapacidade dos sindicatos “pelegos” em atender as necessidades de seus representados.

As manifestações seguiram frequentes até, pelo menos, a metade de 1946. Várias das comissões que as dispararam acabaram desaparecendo logo após o período mais intenso da onda grevista, em especial na medida em que o governo Dutra endureceu na repressão do movimento sindical e na proibição de greves. Mas os efeitos de sua atuação continuaram presentes nos anos seguintes, plantando uma semente de independência que daria frutos significativos no futuro.

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