2 de junho de 1831: chega ao auge a revolta de trabalhadores em Merthyr, no País de Gales – onde a bandeira vermelha foi erguida em protesto pela primeira vez

Há 188 anos chegava ao auge a revolta de trabalhadores em Merthyr, no País de Gales – onde a bandeira vermelha foi erguida em protesto pela primeira vez.

Ilustração publicada no volume 2 de 'The Chronicles of Crime, or The New Newgate Calendar' (1841), representando a revolta de Merthyr em 1831. Ilustração: Hablot Knight Browne/Hulton Archive/Getty Images

Igor Natusch

Além de piquetes, marchas e protestos, a luta dos trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo também é feita de símbolos. Um dos mais disseminados, sem dúvida, é a bandeira vermelha – uma imagem que virou quase sinônimo de revolta e disposição revolucionária, e que foi erguida pela primeira vez durante a revolta de 1831 na cidade de Merthyr, no País de Gales. A cidade, então um polo estratégico na produção de ferro da Grã-Bretanha industrial, esteve durante vários dias nas mãos dos revoltosos, em uma insurreição que só foi controlada depois de uma maciça intervenção militar.

As sementes da revolta vinham sendo plantadas há vários anos na região. À época, o cinturão industrial no sul de Gales tinha mais de 100 mil habitantes, e vilarejos outrora tranquilos, como a própria Merthyr, haviam rapidamente se transformado em cidades apinhadas de operários. Boa parte desses trabalhadores vinha de lugares distantes, carregando consigo uma forte consciência de classe e ideias políticas cada vez mais sofisticadas – uma visão de coletividade que, diante das pesadas condições de trabalho nos fornos e forjas, levou a movimentações cada vez mais amplas e organizadas contra os patrões.

Os eventos que levaram à insurreição tiveram início no começo de maio de 1831, quando empregadores fizeram promessas de apoiar reformas na legislação trabalhista de então. Grupos cada vez maiores de operários começaram a pressionar aqueles que acreditavam estar atuando contra as mudanças, às vezes com violência física. No dia 11 de maio, dois supostos agitadores foram levados a júri – mas a presença de uma multidão do lado de fora da sessão fez com que os magistrados optassem por soltar os acusados, o que deu aos trabalhadores insatisfeitos uma imediata consciência de sua força de pressão. Dias depois, o empresário William Crawshay anunciou uma redução imediata nos salários, alegando queda no preço do ferro no mercado britânico – o que, em um cenário já conflagrado, foi suficiente para disparar a rebelião.

Um dos primeiros alvos da multidão foi o escritório do oficial de justiça responsável por fazer as cobranças de dívidas, muitas vezes levando embora móveis e provisões de famílias inteiras. Os itens foram saqueados e os livros de dívida, destruídos. No dia 2 de junho de 1831, os revoltosos tomaram de fato o controle da cidade. Após uma tentativa frustrada de negociação entre trabalhadores e patrões, a infantaria do Exército Britânico abriu fogo contra a multidão, matando dezenas. O ataque, porém, não dispersou a massa, e o regimento foi forçado a recuar, com soldados, políticos e empresários se refugiando em uma zona eleitoral da cidade. Merthyr estava, então, totalmente nas mãos dos insurgentes.

Durante quatro dias, os acessos à cidade foram bloqueados, e os líderes da revolta enviaram delegados a várias cidades vizinhas, informando do sucesso revolucionário em Merthyr e tentando espalhar a insurreição por toda a região. No entanto, a promessa de reversão nos cortes salariais gerou discórdia entre os trabalhadores, e tropas governamentais conseguiram dispersar à força uma assembleia dos revoltosos no dia 6 de junho, o que deu fim ao movimento.

Pelo menos seis pessoas foram condenadas por envolvimento nos distúrbios, algumas delas sendo deportadas para a Austrália. Um jovem participante, Dic Penderyn, mesmo sem qualquer papel de liderança na revolta, foi condenado à morte e enforcado por ter supostamente esfaqueado um soldado – uma execução que ignorou os protestos de grande parte da comunidade, que estava convencida da inocência do acusado. Hoje, Penderyn é visto como um mártir pelo movimento operário do País de Gales – e a bandeira vermelha, erguida durante os momentos cruciais da revolta de Merthyr, tornou-se um símbolo de insubordinação que segue presente nos protestos por vida digna em todo o mundo.

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