13 de março de 1979: é deflagrada a greve dos metalúrgicos do ABC, que fortalece o sindicalismo e enfraquece a ditadura militar

Há 40 anos era deflagrada a greve dos metalúrgicos do ABC, que fortaleceu o sindicalismo e enfraqueceu a ditadura militar.

Manifestação dos metalúrgicos em greve contra intervenção no sindicato pelo TRT e pela polícia. São Bernardo do Campo, SP, 1979. Fotografia: Jesus Carlos/Em Tempo

Igor Natusch

A greve geral dos metalúrgicos da região do ABC paulista, ocorrida em 1979, surgiu em um contexto de crescente insatisfação com os rumos da ditadura que governava o Brasil. As tentativas de parar as máquinas vinham acontecendo pelo menos desde o começo da década de 1970 – processo que se tornou mais intenso a partir da denúncia de que os militares mascaravam índices da inflação, causando significativa perda real nos salários de trabalhadoras e trabalhadores. No decorrer de 1978, uma série de mobilizações ampliou a tensão entre metalúrgicos e patrões. Quando o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo (liderado por Luiz Inácio Lula da Silva) separou-se da Federação dos Metalúrgicos de São Paulo, acusando a central de ser “pelega” e trabalhar pelos interesses dos empregadores, o cenário para uma grande paralisação desenhou-se de vez.

No dia 13 de março de 1979, poucos dias antes da posse do general João Figueiredo em Brasília, os metalúrgicos de São Bernardo, Diadema, Santo André e São Caetano deflagraram a greve. Os trabalhadores buscavam reajuste salarial de 78,1%, além de melhorias nas condições de trabalho. A adesão foi maciça: calcula-se que cerca de 200 mil trabalhadores cruzaram os braços, deixando às moscas fábricas importantes como as da Ford, Mercedes-Benz e Volks. No maior ato da greve, ocorrido em 1º de Maio, estima-se que 150 mil pessoas estiveram no Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo.

A pedido da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), o Tribunal Regional do Trabalho declarou a greve ilegal e determinou o retorno imediato ao trabalho. Após uma assembleia com 80 mil pessoas, que decidiu pela continuidade da paralisação, os sindicatos estabeleceram um fundo de greve, medida então inédita no país. Isso permitiu que os trabalhadores paralisados recebessem doações da sociedade civil, fortalecendo a resistência para longos dias de piquetes e repressões. Na sequência, o então ministro do Trabalho, Murilo Macedo, determinou intervenção federal nos sindicatos; em resposta, os líderes da greve passaram a se reunir na Igreja Matriz de São Bernardo, com a concordância do bispo dom Claudio Hummes.

Com amplo apoio dos então nascentes movimentos sociais organizados, da Igreja Católica e de vários artistas e intelectuais, a greve no ABC ganhou força simbólica, o que limitou a margem para ações repressivas por parte do governo militar. Quatro dias depois da intervenção, em 27 de março, Lula propôs uma trégua de 45 dias, até o pagamento do salário com reajuste anual, projetado para maio. Aprovada em assembleia, a pausa resultou na reabertura das negociações com os patrões. Ao final da trégua, em 13 de maio, uma nova assembleia aprovou a mais recente proposta dos empresários, de 63% de reajuste.

Considerada um sucesso pela maioria dos participantes, a greve do ABC foi uma injeção de ânimo para os trabalhadores de todo o país, e demonstrou que a mobilização poderia ter efeitos positivos contra o autoritarismo e repressão – ideia fortalecida a partir de uma nova greve dos metalúrgicos, em 1980. A renovada disposição para protestos e enfrentamentos foi enfraquecendo o regime militar, o que acelerou a reabertura política do Brasil. E os líderes do renovado movimento sindical brasileiro tornaram-se figuras de grande importância na luta política dos anos seguintes, em um processo que criou a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Partido dos Trabalhadores (PT) – que futuramente elegeria um desses sindicalistas (Lula) como Presidente da República.

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