12 de agosto de 1953: acontece o hartal de 1953 em Sri Lanka, uma das mais importantes revoltas de trabalhadores da história do país

Há 67 anos, acontecia o hartal de 1953 em Sri Lanka, uma das mais importantes revoltas de trabalhadores da história do país

O grande hartal de 1953, no Sri Lanka, então Ceilão. Fotografia: Wikimedia Commons

Igor Natusch

Na maior parte das línguas e dialetos do subcontinente indiano, “hartal” é um termo associado com a revolta dos trabalhadores, de significado muito semelhante ao que associamos com a palavra “greve”. No Sri Lanka (país que, até o começo dos anos 1970, era conhecido como Ceilão), uma das maiores manifestações do tipo aconteceu em 12 de agosto de 1953, assinalando o ápice da revolta popular com os rumos do governo após a independência de 1948. Além de ter sido o primeiro movimento de revolta política de caráter nacional, o hartal de 1953 marcou o Sri Lanka por outro motivo: ao desconsiderar as divisões étnicas e religiosas na sociedade ceilandesa, tornou-se um genuíno movimento da classe trabalhadora, trazendo uma consciência de classe que cresceria consideravelmente nas décadas seguintes.

A revolta teve como gatilho o aumento crescente dos custos de vida, em especial no que se refere aos preços do arroz. Desde a Segunda Guerra Mundial, o produto vinha sendo racionado como forma de enfrentar a escassez local, e subsídios estatais eram responsáveis por manter os valores estáveis e acessíveis para a população. Calcula-se que, no começo dos anos 1950, cerca de 1/5 do valor do arroz ceilandês era bancado pelo governo – um custo que, de acordo com os governantes, ficava cada vez mais pesado, na medida em que era necessário exportar arroz de países vizinhos para dar conta da demanda. 

Em julho de 1953, o então primeiro ministro Dudley Senanayake (que havia assumido há poucos meses, após o falecimento de seu pai, Don Stephen Senanayake) anunciou que a política de subsídios para produtos alimentícios seria revogada, alegando que sua continuidade traria ruína econômica ao país. Com a medida, os hal potha (pequenos cadernos onde eram registradas as rações às quais a população tinha direito) perderam validade, e o preço do arroz praticamente triplicou da noite para o dia. Diante do quadro, alguns sindicatos e partidos de oposição fizeram um chamado à greve, fazendo campanha nas portas das fábricas e promovendo encontros locais em vilarejos para defender a necessidade de reação.

Após semanas de convocação, o hartal foi disparado no dia 12 de agosto daquele ano. Além da interrupção do trabalho, foram registrados protestos de rua e vários atos de desobediência civil, alguns deles marcados por violência. Há registros de sabotagem em trilhos de trem e cortes na fiação telefônica e telegráfica de várias cidades. Em resposta, o governo do Ceilão destacou tropas militares para dar suporte às forças policiais, reprimindo parte dos atos de forma brutal. Há registros de pelo menos 10 mortes, embora os sindicatos falem em um número bem maior de vítimas. A repressão acabou tendo, em algumas localidades, efeito contrário ao esperado: programado para durar apenas um dia, o hartal acabou sendo espontaneamente estendido até o dia seguinte, com trabalhadores revoltados entrando em violentos confrontos com as forças federais.

Abalado com a extensão da crise, o primeiro-ministro Senanayake não conduziu pessoalmente a reação do governo aos protestos: diz-se que ficou gravemente doente, e chegou-se a temer por sua vida. O governante acabaria renunciando ao governo em outubro de 1953, alegando problemas de saúde; após entregar o posto, afastou-se temporariamente da vida pública, mas voltou a ser primeiro-ministro entre 1965 e 1970, e é hoje reconhecido por muitos como uma importante figura da democracia em seu país. Logo após assumir, John Kotelawala restaurou parte do subsídio ao preço do arroz, o que foi recebido como uma vitória pela oposição. Nas eleições de 1956, o Partido da Liberdade de Sri Lanka, um dos proponentes do hartal, conquistou a maioria das cadeiras e apontou S.W.R.D. Bandaranaike como primeiro-ministro.

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