Vozes do trabalho por turnos em Portugal

Vozes do trabalho por turnos em Portugal
Fotografia: Pixabay

Alexandre trabalha em uma fábrica onde se fazem embalagens e outros objetos de plástico que utilizamos no dia a dia. Algumas poderão embalar as carnes que Sérgio distribui no seu caminhão todos os dias pela Baixa do Porto; outras, os sanduíches que Alfredo vende nos bares dos comboios. Depois de deitadas no lixo, irão parar aos centros de recolha e tratamentos de resíduos, onde Pedro controla o que entra e sai. Se estas pessoas tiverem um problema com o telefone em casa, ligam para um call center, onde Érica atende o público. Se tiverem um problema de saúde, são atendidos no hospital por enfermeiras como Diana. Vidas que se cruzam a cada dia, sem que se dê conta, pelos laços que o trabalho tece.

Mas todas estas vidas partilham algo mais: o trabalho por turnos. E com ela, uma série de problemas como o cansaço, sono desregulado, problemas de saúde, dificuldades em organizar a vida pessoal e familiar.

O trabalho por turnos assegura muitas coisas essenciais à vida do dia a dia: hospitais prontos a atender a qualquer hora, ruas sem lixo, lojas, cafés, restaurantes com produtos nas prateleiras. Mas quem o faz paga um preço alto. Trabalhar à noite será sempre diferente de trabalhar de dia, assim como trabalhar sem ou com horários fixos, mas o preço poderia ser menor com outra forma de organização e regulação do trabalho por turnos, mais atenta ao desgaste específico, ao bem-estar físico e psicológico, à vida pessoal e familiar de quem o faz.

Sono e cansaço: “O turno da noite desregula tudo”

Alexandre Café trabalha desde os 19 anos numa fábrica de plásticos. Cada domingo, às onze da noite, a fábrica começa a laborar e só para uma semana depois, às onze da noite do sábado seguinte. Os trabalhadores vão rodando semana a semana entre turnos da manhã (7h-15h), tarde (15h-23h) e noite (23h-7h), voltando ao mesmo turno ao fim de três semanas.

O sono e o cansaço são um problema recorrente para Alexandre, em especial com o turno da noite: “No turno da noite, tenho a sensação que nunca descansei o suficiente”. Dormir durante o dia não é a mesma coisa: “acorda-se muitas vezes, eu acordo 3-4-5 vezes. É completamente diferente. Nos dias em que durmo menos tenho sempre medo, ansiedade de me dar sono no trabalho. Quando termino as noites, leva sempre dois ou três dias até o corpo recuperar”.

Alexandre teme que um dia o sono lhe pregue uma partida fatal. Nunca teve sustos no trabalho até agora, mas já os teve no regresso a casa: “já me aconteceu muitas vezes ir dirigindo e adormecer. É assustador. Na vinda para casa, apanho o trânsito e ou vou para a faixa contrária, ou vou para a valeta… É uma fração de segundo, não dás conta”.

Na verdade, o sono é um drama quase universal entre quem trabalha por turnos: “quando estou trabalhando, são quatro ou cinco horas de sono por dia no máximo”, diz Sérgio Sousa Pinto. Motorista, trabalha há 15 anos em uma empresa de distribuição porta a porta no Grande Porto. Todas as madrugadas, às quatro da manhã, carrega um caminhão no centro da distribuição da empresa e leva-o até à Baixa do Porto, onde descarrega a carga à mão por supermercados, restaurantes, churrasqueiras e talhos. Em termos formais, Sérgio não trabalha por turnos, pois cumpre sempre o mesmo horário noturno, mas este traz-lhe muitos dos mesmos problemas dos turnos.

Chegando em casa por volta das duas da tarde, Sérgio tenta descansar até às cinco, quando tem de ir buscar os seus filhos à escola, “mas nunca é fácil dormir à tarde”. Após ir buscar as crianças, tem de cuidar delas com a mulher, “dar o jantar, dar-lhes banho, pô-los na cama”, donde só consegue descansar por volta das 11 da noite, antes de se apresentar de novo ao serviço às quatro da manhã. Ao fim de alguns dias, o cansaço acumula-se e Sérgio tem de reservar uma tarde para recuperar algum sono: “à quinta-feira preciso mesmo de descansar, já sentimos que vamos cansados”.

Tal como Sérgio, também Pedro Ramos amiúde não dorme de dia, após sair do turno da noite no centro de tratamento de resíduos: “é muito complicado dormir durante o dia, principalmente no verão com o calor”. Pedro há 20 anos é operador de báscula numa empresa de tratamento de resíduos sólidos. Controla num gabinete com um computador os veículos e o lixo que estes trazem dia e noite da cidade. Durante três a quatro dias faz um dos turnos da manhã (8h-16h), tarde (16h-0h) ou noite (0h-8h), tem depois um dia de folga, e recomeça no turno seguinte.

Quando faz os turnos da noite, Pedro dorme pouco mais que três horas a cada dia: “somos capazes de trabalhar três ou quatro noites com 10 ou 12 horas de sono ao todo. Sair às oito da manhã, chegar a casa, fazer as coisas que temos de fazer… Já não dá. É raro dormir”. Mesmo que conseguisse dormir mais tempo, “é aquele sono muito agitado. Sono, refeições… o turno da noite desregula tudo”.

O problema não é só o cansaço extra de trabalhar à noite, é alternar entre a noite e o dia e desregular os ritmos do corpo, que precisa de mais tempo para recuperar, diz Alfredo Martinho. Trabalha há 10 anos no bar dos comboios Alfa Pendular, concessionados a uma empresa do grupo LSG, dos maiores fornecedores de catering do mundo. Durante a semana, a cada dois dias, faz turnos distintos de duas viagens, e ao fim de quatro dias de trabalho descansa outros dois dias, recomeçando de novo o ciclo. Entra sempre às 7h30 da manhã, o horário de saída varia entre as 16h30 e as 19h30.

Apesar de ter sempre oito horas de descanso entre turnos, “nessa parte a empresa cumpre”, para Alfredo “no mínimo 12 horas seriam essenciais, para ter um descanso que permita entrar noutro registo”. Se assim fosse, “o nosso corpo tinha mais tempo para recuperar e habituar-se ao turno a seguir. Um dia de descanso seria essencial, para não haver tanto desgaste”. Como assim não é, a saúde de quem atende nos comboios ressente-se. Muitos colegas de Alfredo “têm problemas nervosos. Muitos têm baixas psicológicas. Estão cansados, psicológica e fisicamente. Por este tipo de trabalho ter horários desregulados, as pessoas precisam de mais acompanhamento psicológico”.

A situação já foi pior para Alfredo no passado, assim como era para todos os enfermeiros e enfermeiras da função pública, que recentemente passaram de 40 para 35 horas de horário. Diana Pereira, enfermeira há 10 anos, recorda sem saudade as 40 horas: “era péssimo. A seguir a um turno da noite podíamos ter de fazer um turno da manhã, e não dormíamos. Eu não dormia durante a noite, ia trabalhar sem dormir. Com os riscos que isso trazia”.

Com as 35 horas, Diana passou a fazer em sequência turnos de manhã, de tarde, de noite, e um dia de descanso. Uma melhoria na sua opinião “porque já temos uma folga a seguir aos turnos da noite”. Mesmo assim, gerir o sono continua a ser um desafio: “para fazer o turno da noite, tenho de dormir durante o dia”, e por outro lado “quando saio da noite também tenho de dormir durante o dia para restabelecer o padrão de sono”.

De novo o desgaste de alternar entre noite e dia e reajustar o sono, que Diana considera gerível porque ainda é jovem, mas teme que se dificulte com a idade. Mesmo agora surgem complicações, por exemplo quando tem de “fazer turnos consecutivos de 16 horas, ou um turno da manhã a seguir a um da noite, por necessidade pessoal ou dos serviços”, o que complica muito a vida pessoal. Uma vez, Diana conta que fez um turno da tarde seguido de noite: o desgaste foi tanto que nunca mais aceitou repetir a experiência.

“Quem trabalha em laboração contínua, 7 dias por semana, 365 dias por ano, não pode ter 40 horas semanais, não pode mesmo!”, exclama Alexandre, satisfeito por já não trabalhar nesse regime, que se mantém para colegas de outras fábricas do grupo. “Fazer 40 horas, 5 dias por semana, a horas certas é uma coisa”, diz. Outra bem diferente “é fazer as mesmas 40 horas sete dias por semana a qualquer hora. É absurdo, não pode ser”, porque “o desgaste é muito maior, o descanso é muito menor”.

O corpo ressente-se com as trocas constantes de horários, e não só. Alexandre refere as complicações gastrointestinais como um preço que muitos pagam na fábrica: “Não andas tão bem alimentado. Durante a noite não apetece comer determinadas coisas. Andas todo trocado. Eu às 3 e 4 da manhã estou a comer bife, feijoada… São coisas que não fazem bem”.

“Vou-me embora e tenho problemas na empresa, ou deixo os meus filhos à espera na escola?”

Não é apenas o corpo de quem trabalha por turnos que se ressente, o problema alarga-se a toda a vida pessoal e familiar, em especial aos filhos. Diana vê-o nas colegas com filhos. Em princípio, elas teriam direito a ajustamento de horário para dar resposta à vida familiar, mas muitas “sentem constrangimento” em usufruir dele, amiúde “devido à falta de enfermeiros no serviço”. Resultado: muitas vezes “têm de contratar alguém para ir levar ou buscar as crianças à escola e ficar com elas, porque estão a trabalhar”.

Érica Oliveira via o mesmo problema com as suas colegas, foi mãe há pouco tempo, e inquieta-se como será quando terminar a sua licença de amamentação. Érica presta apoio ao cliente num call center de uma grande empresa de comunicações francesa. Os turnos de 8 horas podem ir das 7h às 16h, das 8h às 17h, e assim sucessivamente até ao último turno das 12h às 21h. Érica e os seus colegas vão rodando entre eles, sabendo o horário que farão com duas semanas de antecedência — mas a empresa pode sempre alterá-los até ao dia anterior. Por isso, nunca há um horário fixo de almoço nem de amamentação.

“Com crianças é ainda mais complicado”, lamenta Érica, pois as crianças precisam de horários fixos. Uma colega sua, conta, tem “um menino com uma deficiência grave, e tem pedir justificação médica de três em três meses para ter horário fixo. Ela trabalha aos sábados e tem constantemente de pedir trocas aos colegas para poder estar com o filho ao sábado. Se pedimos um horário fixo, temos permanentemente de o justificar”. Érica insurge-se: “não é justo, não tenho que me justificar perante a entidade patronal da minha vida pessoal”.

O cuidado dos filhos afeta mães tal como pais. Pedro vai buscar o filho à escola quando pode, mas nem sempre pode, e por vezes a sua mulher, que trabalha num hospital, também não. Nesses dias, o filho “vai para casa e tem de fazer as coisas sozinho. Tem 11 anos”.

Sérgio sofre um stresse diferente com o cuidado dos filhos, sujeito aos horários incertos das entregas a cada dia. Se algumas entregas passam da manhã para a tarde, o que sucede várias vezes porque muitas empresas fecham no horário de almoço, tudo se complica: “se ficas com três clientes para fazer da parte da tarde, ficas com a tarde toda ocupada. Já não consegues chegar a tempo de ir buscar os filhos à escola às cinco, e não tens quem os vá buscar por ti”. Aí, surge o dilema: “Ficas ali parado em frente ao cliente a pensar: vou-me embora e vou ter problemas na empresa, ou vou deixar os meus filhos à porta da escola à espera?”.

Entre clientes e filhos à espera, Sérgio não hesita: “decido sempre ir buscar os meus filhos”. Mas há um preço a pagar: “tenho sempre problemas na empresa por causa disso. Sei que me vão cortar prémios, que me vão ameaçar de despedimento… Mas venho-me embora na mesma. Depois recebo as cartas registadas com os processos disciplinares”. Além do salário de 650 euros, a empresa paga um prémio de 200 euros, de imediato cortado nessas situações: “Esse é o stresse que enerva. Saber que ao fim do mês nos vão cortar o prémio. Quando fazes alguma coisa, o prémio dá para cortar por tudo. Qualquer coisa que tu faças vêm sempre com aquela pressão. E 200 euros ao fim do mês dá muita ajuda”.

Vida pessoal e familiar: “Será que dá para organizar?”

Além dos filhos, os cônjuges são os outros grandes afetados, especialmente quando também trabalham por turnos. Sérgio respira de alívio por a sua mulher não trabalhar por turnos neste momento. Quando o fazia, tratava ela dos filhos pela manhã e levava-os à escola, andava Sérgio há horas na estrada com a sua camioneta. À tarde, cuidava ele dos filhos, apressando-se para chegar a tempo da hora de saída da escola, dando-lhes jantar, deitando-os. Como a mulher só voltava do trabalho por volta das 11 da noite, era raro conseguirem ter tempo juntos: “como tenho de me levantar às quatro da manhã, pouco tempo tínhamos, normalmente já estava eu na cama” quando ela chegava.

Nesse tempo, não era mais fácil Sérgio e a sua companheira estarem juntos ao fim de semana, em que ela também trabalhava: “Tinha folgas rotativas. Se fosse trabalhar domingo de manhã, estava com ela à tarde; se fosse trabalhar à tarde; estava com ela de manhã”. Fim de semana ou semana, não era fácil estarem juntos no dia-a-dia: “Era raro podermos conciliar um fim de semana completo os dois. Não era fácil encontrarmo-nos diariamente, estávamos pouco tempo juntos. Era basicamente quatro horas à noite, pouco mais”, recorda Sérgio sem saudade.

Estes problemas que Sérgio por enquanto esqueceu, Pedro continua a enfrentar, pois a sua companheira trabalha por turnos num hospital. Além dos dias em que o filho tem de ir para casa e tratar de si sozinho, Pedro pouco tempo partilha com ela ao sair da central de recolha: “Há dias que estou eu a chegar e ela a sair, e vice-versa. Quando é os dois no turno da noite, ela tenta trocar no turno dela, porque eu não posso”.

Os fins de semana são um luxo, dizem quase todos quantos lidam com turnos. Pedro consegue ter dois fins de semanas livres para si num mês. No call center, Érica também deveria ter dois, segundo o contrato, mas “não é real”: na prática, “gozamos um fim de semana por mês, e quando trabalhamos ao sábado a folga é rotativa. Pode ser qualquer dia da semana, mas nunca é a seguir ao domingo”. Nos comboios, Alfredo só tem um fim de semana completo de sete em sete semanas. No hospital, nem isso: “Nunca temos dois dias consecutivos, nunca temos um fim de semana”, diz Diana. Para ter um, só fazendo trocas no serviço, mas nem todos os serviços o permitem, e ao trocar “ou perdemos um descanso de um turno para a noite, ou fazemos 16 horas seguidas”. Ter dois dias de descanso seguidos, direito básico para outros trabalhadores, implica para as enfermeiras “um esforço acrescido” durante a semana, constata.

Com tudo isto, ao lado de cônjuges e filhos, a vida pessoal é a outra grande vítima dos turnos. Para Pedro, atividades simples para outras pessoas, como ir ao ginásio ou à natação, são impossíveis. Se tiver uma consulta médica? “Tenho de faltar ao trabalho”, responde cabisbaixo.

Érica é mais irónica sobre como se organiza a vida pessoal: “Será que dá para organizar? Eu acho que não dá, é mesmo dia-a-dia. Quando temos de marcar uma consulta médica, para não faltar ao trabalho… Se faltarmos perdemos não só o dia como também o prémio de produtividade. Então somos obrigados a trocar com os nossos colegas. A longo termo não dá para organizar a vida, tem de ser trocas entre os colegas”.

Alfredo diz que simplesmente não tinha vida pessoal ao trabalhar no sistema de turnos anterior, quando podia entrar no comboio tanto ao raiar da manhã como a meio da tarde, e sair tanto a meio da tarde como à meia-noite, tudo na mesma semana. “Chegava às folgas e só queria descansar. Além da vida profissional, não tinha vida pessoal. Tinha de tratar dos assuntos pendentes e o resto era para descansar”. Combinar uma simples festa de anos exigia três meses de antecedência, “e eu não sabia se daqui a três meses era possível”. Nesse tempo, “era quando tinha mais problemas. Sentia que as minhas defesas estavam em baixo. Qualquer coisa apanhava uma gripe, estava sempre constipado, andava sempre a tomar medicação”. Ainda hoje não é fácil: “para combinar alguma coisa com os meus amigos, tem de ser com um mês de antecedência, para fazer trocas ou programar as coisas de maneira a que dê”.

Pressões e resistência dos patrões: “não é a nossa empresa, é mesmo o mercado que funciona assim”

Sono, cansaço, falta de vida pessoal e familiar, tudo isto leva quem trabalha por turnos a desejar, pensar, lutar por soluções que conciliem melhor as suas vidas com as necessidades do trabalho. Mas as chefias quase sempre resistem com indiferença ou hostilidade ativa.

Érica e os colegas já várias vezes propuseram mudanças à empresa, “inclusive já houve dois inquéritos aos funcionários, efetuados pela empresa, dos quais nunca soubemos os resultados. Falámos entre nós que poderíamos adaptar pelo menos dois horários: o da manhã e o da tarde. Temos muitas pessoas que gostam de trabalhar das 7h às 16h, como também há pessoas que preferem trabalhar do meio-dia às nove”. Para Érica e os colegas, esta proposta “dava perfeitamente para conciliar com o horário e as encomendas que a empresa nos pede”. A resposta? “Até à data estão a refletir sobre o assunto. Foi há 5 anos atrás”.

Na central de recolha de resíduos, uma história parecida. Pedro reconhece que, numa empresa em laboração contínua 24 horas por dia, não é fácil organizar o trabalho sem qualquer impacto nos horários normais de vida. Mas seria possível mitigá-lo: “O turno da noite, onde eu estou, já é praticamente desnecessário. Não entram quase carros. Nós queremos negociar, mas a empresa não quer”.

As próprias pressões no dia-a-dia de trabalho desgastam os trabalhadores e servem às chefias como arma para impedir melhorias. Sérgio descreve uma manhã típica de trabalho na camioneta: “andas na Baixa, tens de parar um camião 40 vezes, descarregar o camião. Não tens tempo para procurar estacionamento, tens de pôr o camião de qualquer maneira em qualquer lugar. Tens sempre a polícia à pega, tens sempre a pressão da empresa” — apesar do serviço ser quotidiano, entre empresa e autarquia não se arranja lugares para carga e descarga. Há sempre a possibilidade de multas da polícia, por excesso de velocidade ou por causa do estacionamento, que os motoristas não têm garantido, nem têm tempo para procurar: “Temos um ordenado de 650 euros, pagar uma multa de 3 ou 4 mil euros…”. E o prémio lá vai de novo ao fim do mês.

Um dia, um colega de trabalho de Sérgio não aguentou: “A polícia estava a passar-lhe uma multa, ele largou o camião, deu as chaves, e disse ao polícia para levar o camião, para o levar preso…”. “É uma pressão enorme. É do pior que pode haver em termos psicológicos”, prossegue Sérgio.

A situação na concorrência não é melhor. Quando Sérgio fala com os colegas de outras empresas, apercebe-se que “basicamente é a mesma coisa, a mesma pressão, o mesmo pagamento. Não adianta sair daqui para ali. Vamos sofrer as mesmas consequências. São 15 anos a aguentar”. A conclusão é lapidar: “Não é a nossa empresa, é o mercado que funciona mesmo assim”.

Uma consciência global que Alexandre exprime mais resolutamente ainda. “Para nós, havendo mais gente e outro tipo de maquinaria, não seria necessário” o regime de turnos que praticam para produzir com eficácia. “Já houve fábricas do grupo que trabalhavam com outro método, outro tipo de fabricação, mas a fazer o mesmo tipo de trabalho, garrafas de plástico por exemplo. Trabalhavam manhãs e tardes, não trabalhavam o turno da noite”, e a produtividade não sofria.

Só que, acrescenta Alexandre com ironia, “isso é a nossa perspetiva. Na perspetiva de maximizar o lucro…”. Alexandre e os colegas continuam a apresentar ideias à administração, sem sucesso: “Eles nem sequer estão abertos a reduzir uma hora no horário da noite — uma hora!”, exclama. “Estamos fartos de bater para, em vez entrar domingo às 23h, entrarmos domingo à meia-noite. Estamos a falar de uma redução de 20 mins semanais, fazer 39h40m em vez de 40h. Nem aí”.

Quando lucro e saúde dos trabalhadores colidem, nunca há dúvidas sobre quem vence, sublinha Alexandre. “Eles metem o lucro à frente de tudo. À frente da nossa saúde, da sustentabilidade do planeta… Nós sabemos perfeitamente que é assim”.

Fonte: Esquerda, com ajustes
Data original da publicação: 06/07/2019

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