Valor, renda e “imaterialidade” no capitalismo contemporâneo

Sávio Machado Cavalcante

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Fonte: Caderno CRH, Salvador, v. 27, n. 70, p. 115-130, jan./abr. 2014

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Resumo: O capitalismo contemporâneo é marcado pela crescente conjunção da produção tradicional de mercadorias “físicas” com a criação de bens e serviços intangíveis que são permutados pela informação, conhecimento ou apelo artístico ou cultural que possuem. Esse cenário foi possibilitado por novas tecnologias que modificam os processos de trabalho e promovem questionamentos sobre a teoria do valor desenvolvida por Marx. O objetivo deste artigo é problematizar essas questões a partir de intervenções de autores brasileiros que confluem para as seguintes conclusões: ciência e tecnologias são mobilizadas para a produção de mercadorias “sem valor”, consequentemente, a apropriação capitalista assume um caráter cada vez mais rentista, e é possível analisar tal processo a partir de determinações da teoria do valor de Marx que levam à autonomização da forma capital em relação a seus conteúdos. Assim, argumenta-se que, em vez de sua obsolescência, o valor passa por uma transformação qualitativa e permanece como norma produtiva, ainda que sob uma forma “desmedida”.

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Sumário: Introdução | Um novo modo produção? | Mercadoria, valor e informação | Rendas e produção capitalista | O caráter rentista do capitalismo contemporâneo | Um contraponto necessário | Sobre o caráter da teoria do valor | A dominação do capital sobre a produção imaterial é apenas jurídica (circulação) e não econômica (produção)? | Teria o capital, autonomamente, construído seu fim? | Considerações finais | Referências

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Introdução

Este artigo tem como objetivo principal organizar, de forma crítica, um conjunto de intervenções de autores brasileiros que se amparam, direta ou indiretamente, na crítica da economia política de Marx com o intuito de analisar o caráter da acumulação capitalista atual, que é marcada pela imbricação da produção tradicional de mercadorias tangíveis com novos valores de uso ligados à informação e ao conhecimento.

Dialogando com abordagens estrangeiras, o debate brasileiro apresenta uma avançada e importante contribuição para o entendimento de como vige a lei do valor na atualidade. Propomo-nos a apresentar a tese de que há cada vez mais, no capitalismo atual, a produção de mercadorias “sem valor”. Ao contrário das reações comuns, que veem, nesse fato, uma recusa da teoria do valor de Marx, pretendemos mostrar que é justamente o processo inverso que essa tese denota, ou seja, a continuação do movimento do capital em uma dimensão ainda mais intensa.

Por essa razão, vamos ao encontro de certo consenso que surge entre autores, que indicaremos a seguir, com leituras não necessariamente idênticas dos problemas: trata-se da afirmação, que também defendemos em geral como adequada, segundo a qual o rentismo e a autonomização são os traços mais importantes do capitalismo contemporâneo, o que é, aliás, uma validação do sentido teórico mais profundo da análise de Marx, isto é, a prevalência do capital como forma sobre os conteúdos diversos da produção ou, mais precisamente, sua tendência de se livrar das barreiras a ele impostas.

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Sávio Machado Cavalcante é doutor em Sociologia pela Unicamp.

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