Trezentos e cinquenta e oito

Trezentos e cinquenta e oito
Ato no Rio de Janeiro encenou os impactos da tragédia ocasionada pelo rompimento da barragem em Brumadinho. Fotografia: Tomaz Silva/Agência Brasil

Antônio Vicente Martins

Fonte: Carta Capital
Data original da publicação: 31/01/2019

Este é o provável número mortos em Brumadinho. Estas pessoas não morreram, elas foram mortas pela Vale.

As 358 vítimas não foram vítimas de um terremoto, de uma enchente, de um vendaval. Não. Os 358 assassinados foram vítimas da sordidez de quem defende o fim do Ministério do Trabalho e da fiscalização da segurança no ambiente do trabalho. Os 358 assassinatos foram vítimas da maldade da decisão do STF que autoriza toda e qualquer terceirização em nome da livre iniciativa absoluta. Os 358 assassinatos são vítimas de quem defende o estado mínimo e a o desaparecimento da legislação ambiental. Os 358 assassinados são vítimas da reforma trabalhista que moderniza a exploração e fixa limites de indenização por dano moral. Os 358 assassinados são vítimas de uma justiça seletiva que até agora não prendeu os executivos da Vale e que já haviam matado em Mariana.

E os assassinatos foram cometidos com requintes de crueldade. Mataram sem dar chance de defesa, e por asfixia, enterraram vivas as pessoas na lama. Pense o seguinte, os executivos da Vale por suas ações e omissões, por ausência de fiscalização adequada, enterraram vivas 358 pessoas. Pense que você, por sua ação ou omissão, por ausência de fiscalização adequada, permite que uma barragem de rejeitos tóxicos de sua empresa rompa e mate 358 pessoas. Se isto não for caracterizado como homicídio com dolo, não sei o que pode ser. Não me venham com juridiquês. E o assassinato é agravado porque é feito por asfixia e sem dar chance à vítima, enterrada pelo mar de lama de rejeitos.

Fico pensando na dor das pessoas, no desespero de tentar escapar, na lama tóxica que vai soterrando, na tentativa de respirar, no sufocar, na asfixia, no ar que não entra nos pulmões. Fico pensando na crueldade e no sofrimento desta morte. No assassino que matou tanta gente e talvez tente desqualificar seu crime para “inundação seguida de morte”. O mundo jurídico empresarial é assim, cheio de sutilezas.

Fico pensando na dor dos que morreram, no seu desespero, no seu sofrimento e na dor dos seus amigos, de seus pais, filhos, esposas, maridos, familiares. E entendo o discurso indigno e perverso dos que defenderam a reforma trabalhista como modernizadora das relações de trabalho, com suas prevaricações generalizadas, com suas terceirizações ilimitadas, e com a fixação de limites de indenização por dano moral. O seu filho, assassinado por asfixia, soterrado por um mar de lama de rejeitos tóxicos, terá direito a uma indenização máxima de 50 salários pelo dano moral. A sua dor, o seu sofrimento, sofrimento que vai durar muitas vidas, é tabelado pela reforma trabalhista. E a justificativa perversa deste tabelamento é de modernizar as relações de trabalho. A justificativa mentirosa para este tabelamento é de que o Brasil teria muita proteção para os trabalhadores. Fico pensando no tamanho da dor dos que foram mortos. Fico pensando no tamanho do sofrimento dos que estão atrás de seus mortos. E entendo mais ainda a reforma trabalhista com seu nojento tabelamento de dano moral.

358. Este é o número de mortos que foram mortos pela Vale em Brumadinho.

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