Trabalho, tradição e modernidade: a renovação da exploração

Cena do documentário Estou me guardando para quando o carnaval chegar. Fotografia: Divulgação/Vitrine Filmes

Lorena Holzmann

A redistribuição espacial das atividades de produção de bens e serviços faz parte das grandes transformações pelas quais tem passado o capitalismo nas últimas décadas, gerando uma nova configuração à divisão internacional do trabalho. Nos países centrais, concentram-se as atividades de serviços altamente especializadas, como desenvolvimento científico e inovação tecnológica, finanças, seguros, pesquisa/criação de novos materiais e produtos para o setor industrial. Nesses países, a alta tecnologia dispensa uma demanda significativa por mão de obra operacional no chão de fábrica. Atividades industriais são deslocadas para regiões sem tradição nesse setor, nas quais a mão de obra é abundante, barata e sem tradição de lutas laborais, condições ideais para fazer frente aos obstáculos ao processo de acumulação de capital em curso nas últimas décadas. Essas novas áreas industriais podem estar localizadas no interior de países já industrializados (como o esvaziamento da região do ABC paulista para o interior do Estado de São Paulo ou para outros estados do país) ou instaladas a partir da migração de empresas dos países centrais para outras áreas do planeta, promovendo a industrialização de áreas até então periféricas à indústria capitalista (é o caso do sudeste asiático nas últimas décadas).

O documentário Estou me guardando para quando o carnaval chegar (Marcelo Gomes, Brasil, 2019) trata da implantação de um polo industrial na cidade de Toritama, no agreste pernambucano, onde são produzidos 20 milhões de peças de jeans por ano, em pequenas fábricas de fundo de quintal. Cidade pequena, na qual, anteriormente à chegada da fabricação de jeans, a população se dedicava à pequena e diversificada agricultura voltada para o consumo local e à criação de bodes. O cotidiano de grande parte da população local, a qual se somam trabalhadores vindos de fora, transforma-se profundamente, passando a viver do que costuma chamar “o ouro azul”, o jeans.

O eixo da narrativa do documentário é a manutenção da tradição da população local de suspender o trabalho durante o carnaval e ir para a praia, divertir-se e beber, segundo declaração de uma entrevistada. Se não têm dinheiro, as pessoas vendem tudo que possa encontrar comprador, a fim de amealhar os recursos necessários à viagem: TV, geladeira, fogão, liquidificador. No retorno, vão readquirindo os bens dos quais se desfizeram, até o carnaval seguinte, quando voltarão a vendê-los para, novamente, irem à praia.

Na voz do narrador, as pessoas retornam ao trabalho “orgulhosas de serem donas de seu tempo”. Como essa realidade é, de fato, à luz de inúmeros estudos sociológicos que têm abordado as especificidades do capitalismo contemporâneo em sua etapa de reestruturação em curso?

Produzir 20 milhões de peças de jeans por ano, em pequenas fábricas de fundo de quintal, as chamadas facções, não é resultado da soma de iniciativas individuais de ex-pequenos agricultores ou criadores de bodes. São grandes empresas que organizam a produção e a comercialização desses artigos, beneficiando-se do baixo custo da mão de obra local, constituída, não de “trabalhadores assalariados com carteira assinada”, mas de trabalhadores autônomos (donos de seu tempo!) ou integrantes de cooperativas das quais são associados. Sendo autônomos ou cooperativados, eles não têm acesso aos direitos laborais assegurados a quem é empregado. É o processo de terceirização da produção de grandes grifes, que passam a focar suas atividades na promoção de suas marcas, na sua comercialização, na concepção de novos produtos, transferindo sua fabricação para fora de seu espaço empresarial e desobrigando-se com custos de mão de obra.

Homens e mulheres são treinados para trabalhar segundo o método mais vantajoso para a empresa: a execução de cada peça é decomposta em tarefas simplificadas, de ciclo operacional reduzido, atribuída cada tarefa a um operador, que a executa repetidamente. Sem precisar mudar de uma tarefa a outra ou diversificar suas habilidades, a rapidez do operador na execução é potencializada e os erros  tendem a ser menos recorrentes. É o trabalho taylorizado, que alguns estudiosos do trabalho consideram ultrapassado, diante de novas modalidades de gestão e organização da produção e da força de trabalho. Mas que se mantém, que se atualiza, que se combina com modernas técnicas de gestão, essas quase sempre exclusivas das grandes empresas. Os ganhos estão vinculados à produtividade de cada trabalhador, o que remete a cada um a possibilidade de ganhar mais trabalhando mais rapidamente e estendendo a jornada de trabalho ou, por outro lado, ter rendimento menor, trabalhando menos. Como o pagamento por unidade é baixo1, cada trabalhador se esforça ao máximo para obter um ganho que atenda suas necessidades e de sua família.  Mas é pequeno seu espaço de decisão sobre o que fazer e como fazer. As tarefas reduzidas que cada um executa à exaustão são definidas fora do alcance dos trabalhadores, por especialistas na “organização do trabalho”, que buscam reduzir ao mínimo o tempo de execução de cada peça. A economia de tempo é chave no processo de acumulação do capital.

Cena do documentário Estou me guardando para quando o carnaval chegar. Fotografia: Divulgação/Vitrine Filmes

A condição de autônomo ou cooperativado é idealizada como liberdade no trabalho, capacidade de cada um “empreender”, sendo dono de seu tempo, sendo patrão de si mesmo.  Idealizada porque inúmeros estudos realizados na área da Sociologia do Trabalho têm constatado a precariedade das condições de trabalho e de vida dessas comunidades industrializadas a partir de fora, por iniciativa de grandes empresas nativas ou internacionais, incorporadas à dinâmica produtiva estranha a suas tradições. Essas são preservadas, cultivadas, como forma de sobreviver às condições de trabalho a que homens e mulheres são submetidos ao longo do ano. Esse é o fio condutor da narrativa do documentário aqui referido, focada na festa, no ócio, no folguedo, na fantasia dos trabalhadores de Toritama.

Ainda que as condições de trabalho sejam secundárias na narrativa e as engrenagens do capital não sejam abordadas, o documentário é importante para entender como, no mundo altamente tecnificado do trabalho e da produção (robôs, computadores, programas digitais, alta tecnologia informacional), sobrevivem formas de organizá-los tidas como arcaicas. A lógica do capital e sua finalidade essencial, a acumulação, pode muito bem combinar/articular diferentes modalidades de gestão da produção e do trabalho, e o faz, sem preconceitos(!).

Toritama é apenas uma das muitas comunidades que, no interior do Brasil e em outros países da América, da Ásia e da África, têm se integrado à produção industrial sob a lógica do capital,  e nas quais formas inusitadas de exploração são implantadas, alimentando o imaginário de um trabalho sem subordinação, no qual cada um é dono do seu tempo. Em Toritama, pelo menos quando chega o carnaval.

Nota

1 Segundo matéria publicada na Folha de SP, em 13/11/2005, Caderno B, o custo de produção de uma calça jeans de grife internacional, produzida em polo de confecção no Ceará, era de U$12,00, vendidas em butiques do Rio de Janeiro por U$600,00. Cada costureira ganhava, no máximo, R$500,00 por mês e poucas conseguiam atingir as metas. Essa realidade não foi significativamente alterada, como estudos vieram comprovar.

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