Trabalho, precarização e migração: o processo de recrutamento de haitianos na Amazônia acreana pela agroindústria brasileira

Letícia Helena Mamed
Eurenice Oliveira de Lima

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Fonte: Novos Cadernos NAEA, Belém, v. 18, n. 1, p. 33-64, jan./jun. 2015.

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Resumo: Este artigo discute os principais aspectos estruturais do processo de constituição do recente movimento internacional de haitianos pela Amazônia Sul Ocidental (estado do Acre), parcela expressiva dos imigrantes do início do século XXI, que sem condições de reprodução social digna na terra natal são aliciados por redes de tráfico de pessoas e coiotagem, e transportados até o Brasil. Desde 2010, eles são recebidos e preparados como força de trabalho pelo Estado brasileiro, ação diretamente articulada ao posterior recrutamento deles pela agroindústria do Centro-Sul do país. À luz do método dialético, na perspectiva crítica do trabalho, o objetivo primordial é compreender o significado sociológico do trânsito internacional desses trabalhadores precarizados, pretendendo situá-lo no terreno concreto do desenvolvimento do capital e suas desigualdades internacionais e regionais. Os procedimentos de investigação incorporam a pesquisa bibliográfica, documental e de campo, e a utilização de indicadores qualitativos e quantitativos do mundo do trabalho.

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Sumário: Introdução | 1 As veias abertas do Haiti: de colônia mais rica a país mais pobre das Américas | 2 Imigrantes haitianos em movimento pelo mundo do trabalho: a saída do Haiti e a chegada ao Brasil pela fronteira do Acre | 3 Da Amazônia para o Centro-Sul do Brasil: trabalho, precarização e exploração da força de trabalho haitiana | Considerações finais | Referências

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Introdução

A partir das mudanças advindas com o processo de reestruturação produtiva, na transição entre as décadas de 1970 e 1980 (ALVES, 2000; HARVEY, 2002), sucedidas pelas novas modalidades de mobilidade do capital e da força de trabalho em diferentes partes do mundo (CHOSSUDVSKY, 2003; SASSEN, 2011), os debates sobre movimento de trabalhadores e migração nacional e internacional têm ocupado lugar de destaque no contexto da mundialização do capital (CHESNAIS, 1996), notadamente após a eclosão da crise mundial em 2007-2008.

Diversas áreas do saber têm contribuído para o estudo desse tema, explorando aspectos teóricos e realizando estudos empíricos que enaltecem a importância da compreensão do fenômeno, ao mesmo tempo em que revelam sua diversidade. Participando desse debate, o Grupo de Pesquisa Mundos do Trabalho na Amazônia (GPMTA), do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da Universidade Federal do Acre (UFAC), há três anos vem desenvolvendo pesquisa com objetivo de examinar, à luz do referencial teórico e metodológico do marxismo, sob a perspectiva crítica do trabalho, o fenômeno do fluxo internacional de imigrantes caribenhos (haitianos, principalmente) e africanos (senegaleses, especialmente), na região da Amazônia Sul Ocidental, na tríplice fronteira entre o Brasil, Peru e Bolívia, por onde ingressam pelo território do estado do Acre, para tentar uma nova vida em solo brasileiro.

Em fluxo constante e crescente em busca do “sonho brasileiro”, estima-se que de dezembro de 2010 a dezembro de 2014 já passaram pela fronteira do estado do Acre mais de 30 mil imigrantes interessados em seguir para as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país. Na cidade de Rio Branco, capital do Acre, estes são recebidos e abrigados em acampamento estruturado pelo poder público, até a obtenção de documentação e de alguma oportunidade de trabalho no Brasil. A equipe de pesquisa vem acompanhando o dia a dia desse acampamento, onde se desenvolveu um complexo de serviços de acolhimento, atendimento e encaminhamento dos imigrantes, que atualmente está no seu oitavo endereço físico e no quarto ano de existência. Paralelamente, as ações de pesquisa também envolvem um amplo levantamento bibliográfico e documental sobre o tema, além da realização de entrevistas com os agentes envolvidos na questão, como os imigrantes, os representantes do poder público e os profissionais encarregados das ações de acolhimento e orientação destinadas a eles e à comunidade em geral.

Neste artigo são apresentados os resultados da pesquisa em curso, consolidados até dezembro de 2014, demarcados por dois eixos: (1) os condicionamentos históricos, econômicos e sociais do movimento internacional de trabalhadores haitianos pela Amazônia Sul-Ocidental (estado do Acre); (2) as principais formas de inserção deles na sociedade brasileira, considerando a condição de vulnerabilidade social por eles apresentada e o direcionamento dessa força de trabalho para o Centro-Sul do país, após o recrutamento realizado pelas empresas da agroindústria.

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Letícia Helena Mamed é Doutoranda em Sociologia na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Professora do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Acre (CFCH-UFAC).

Eurenice Oliveira de Lima é Doutora em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Professora do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Acre (CFCH-UFAC)

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