Trabalho infantil e desmatamento na cadeia produtiva da Nestlé

Fotografia: Documentário Cadeia Produtiva do Cacau

O que pensam os diretores da Nestlé, na Suíça, ao saber que são protagonistas do financiamento do trabalho infantil e do desmatamento na Amazônia?

Marques Casara

Fonte: Brasil de Fato
Data original da publicação: 23/09/2019

Você conhece a Nestlé, correto? Abre o armário da cozinha ou a geladeira. Terá uma ideia do peso dessa empresa na tua vida.

A Nestlé é a maior companhia de alimentos do mundo. Em 2018, teve um lucro de US$ 10 bilhões, um aumento de 42% em relação ao ano anterior.

Qualquer decisão tomada por essa empresa têm impacto na vida de pessoas em todo o mundo, inclusive na minha vida e na sua vida. A Nestlé opera em 191 países e tem mais de 300 mil funcionários.

Na primeira quinzena deste mês, a empresa tomou uma decisão catastrófica: cedeu a um argumento fajuto da ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM-MS), e voltou atrás no movimento que iniciara em agosto, quando anunciou que poderia cancelar a compra de carne e de cacau oriundos de ações predatórias na Amazônia.

Caso levasse o cancelamento adiante, a empresa alcançaria um patamar inédito de respeito ambiental, ética empresarial e responsabilidade social com as comunidades que vivem na Amazônia.

Mas, infelizmente, voltou atrás. A ministra Teresa Cristina ligou para a cúpula da Nestlé e usou argumentos falsos: de que as violações não tinham nada a ver com a cadeia produtiva da empresa.

O que pensam na Suíça?

A Nestlé sabe que a ministra mentiu. Ainda assim, comprou a história. Trocou a vanguarda da proteção ambiental e a da garantia dos direitos humanos por uma outra: a do atraso. Não é aceitável, em pleno século XXI, que a maior empresa de alimentos do mundo, deliberadamente, continue financiando a violação dos direitos humanos, o trabalho infantil e o desmatamento.

A Nestlé está sediada na Suíça, um país que se destaca pela garantia incondicional dos direitos humanos e que abriga o escritório central da principal agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para o enfrentamento do trabalho infantil: a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

O que pensam os diretores da Nestlé, na Suíça, ao saber que são protagonistas do financiamento do trabalho infantil e do desmatamento na Amazônia?

A Nestlé não pode mais alegar que não sabe dos problemas. Inúmeros relatórios do Greenpeace, desde o começo do século, vinculam a empresa a fornecedores que se beneficiam do desmatamento. Inúmeros relatórios, baseados em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que cerca de 8 mil crianças e adolescentes estão perdendo a infância e a adolescência nas lavouras de cacau.

A Nestlé é a maior compradora do cacau brasileiro oriundo do trabalho infantil, junto com sua principal associada nessa empreitada: a norte-americana Cargill, que processa o cacau do trabalho infantil e entrega para a Nestlé fabricar chocolate. Os dados são públicos. Estão fartamente disponíveis. Não há nenhum segredo sendo desvendado aqui.

A Nestlé precisa responder a essa pergunta: até quando vai continuar a financiar a dor de crianças? Até quando vai continuar a financiar o desmatamento da mais importante floresta tropical do planeta?

A conivência das ONGs

Até quando organizações da sociedade civil vão aceitar, caladas, dinheiro da Nestlé e da Cargill para financiar supostas inciativas de responsabilidade social empresarial? Até quando organizações da sociedade civil vão aceitar, caladas, dinheiro da Cargill e da Nestlé para, supostamente, enfrentar o trabalho escravo e o trabalho infantil?

Até quando vai durar essa hipocrisia macabra no Terceiro Setor, conivente e cúmplice, em constrangedor silêncio em relação a estas empresas?

Não dá mais para tapar o sol com a peneira dos argumentos contemporizadores, do tipo: “suspender a compra não resolve, precisamos pensar nos empregos, no sustento dos trabalhadores e de suas famílias; precisamos fazer uma reunião, precisamos fazer um pacto para parar com isso daqui a 300 anos”.

Esses argumentos não cabem mais, principalmente na Amazônia.

A situação tomou um grau de urgência que não aceita mais contemporização, adiamentos, ajustes, promessas, “projetos”, “programas”. Não dá mais para tapar o sol com a peneira.

Não dá mais para ver crianças perdendo a vida em lavouras financiadas por multinacionais sediadas na Europa e nos Estados Unidos, sob os olhos semicerrados, cúmplices, de governos e de organizações nacionais e internacionais que deveriam denunciar o problema, mas se calam.

Quem cala consente.

A Nestlé tem dois caminhos a escolher: a vanguarda da proteção ambiental e da garantia de direitos ou a vanguarda do atraso, do desmatamento e da violência contra crianças e adolescentes.

Com um lucro que aumentou 42% e ultrapassou os US$ 10 bilhões, a empresa não tem problemas financeiros que impeçam a tomada de decisões

Marques Casara é  jornalista especializado em investigação de cadeias produtivas. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP.

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