Trabalhadoras lesionadas demitidas numa empresa global de capital nacional: trabalho, flexibilidade e gênero sob a “nova condição operária”

Thiago Trindade de Aguiar

Fonte: Revista da ABET, v. 15, n. 1, p. 138-156, jan./jun. 2016.

Resumo: O artigo pretende discutir, à luz do caso da demissão de trabalhadoras lesionadas na Natura (Cajamar, SP), de que modo a desestruturação de um grupo social operário, no processo de flexibilização, tem um recorte de gênero: certas características consideradas “naturalmente” femininas são esperadas de uma operária. A ausência delas, motivada, por exemplo, por lesões, faz com que sejam excluídas, num processo em curso de ascensão de um novo grupo operário, contrapartida social das mudanças na produção com a passagem para um padrão pós-fordista.

Sumário: Introdução | I Uma gigante brasileira dos cosméticos | II Nos limites do “comprometimento” | III Duas trajetórias ilustrativas | IV O “modelo da competência” e a nova condição operária | V Qualificação, competência e divisão sexual do trabalho como parte da “nova condição operária” | VI Como forma (breve) de concluir | Referências

Introdução

O presente artigo reúne algumas das reflexões contidas em dissertação de mestrado (AGUIAR, 2014) defendida no Programa de Pós-graduação em Sociologia da USP. A pesquisa, um estudo de caso no setor de cosméticos, tratou do modo como a classe trabalhadora brasileira, do ponto de vista da sociabilidade do grupo de trabalhadores, tem reagido às mudanças na organização da produção com a passagem de um padrão fordista para um pós-fordista.

Em especial, o interesse direcionou-se ao grupo operário, que diretamente vivencia experiências concretas de implantação de novas tecnologias produtivas e de organização do trabalho. A empresa estudada, a Natura, é líder nacional do ramo de cosméticos e tem a particularidade de ser, além de um grande conglomerado de capital nacional que se internacionalizou, uma empresa pioneira e um caso bem sucedido de implantação de conceitos e práticas de produção flexíveis. A questão que moveu a investigação, portanto, é se se poderia encontrar, ali, uma mudança nas características da coletividade operária no sentido indicado por muitos que debateram o tema da transição para um padrão pós-fordista na literatura internacional de Sociologia do Trabalho.

As reflexões de Michel Pialoux e Stéphane Beaud, em Retorno à condição operária (2009), em particular, iluminaram aspectos importantes do problema, aqui considerados. Eles investigaram uma região industrial francesa (Sochaux-Montbéliard) com forte presença da fabricante de automóveis Peugeot. Seja pela dependência material à empresa ou pelo tipo de socialização das famílias operárias que ali se desenvolveu ao longo da história, a condição de “Operário-Peugeot” era parte constitutiva e fundamental de seus valores. Formou-se, ali, uma geração operária que desenvolveu práticas culturais, políticas (o sindicato, a relação com os partidos operários), simbólicas (o orgulho de fazer parte da “classe operária”) e que se socializou tendo como pano de fundo um tipo de organização do trabalho, de relação com os colegas e com a chefia.

Os autores também mostram que as mudanças na produção pelas quais passou a empresa vieram acompanhadas de uma desvalorização simbólica e social que ocasionou a desestruturação do grupo operário e o surgimento de uma “nova condição operária” assentada entre outras coisas: 1) nas mudanças na composição etária dos trabalhadores da região; 2) no aumento do período e na forma de sua escolarização; 3) no tipo de emprego ofertado, nas novas exigências das empresas para preenchê-los e nas expectativas das novas gerações para ocupá-los; e, por fim, 4) no desenvolvimento de valores que se chocam com aqueles da geração operária anterior. Em suma, trata-se de um novo grupo social.

Se é possível falar a respeito de um processo semelhante, de desestruturação operária e emergência de um novo grupo social operário no Brasil, deve-se notar, então, a presença, num período recente, de algumas características: 1) maior escolaridade; 2) maior presença de jovens; 3) maior orientação para o consumo; 4) menor vinculação a sindicatos e associações; 5) orientação pela carreira; e 6) consolidação da inserção da mulher na força de trabalho. Outros trabalhos em campo já há algum tempo vêm apontando tendências análogas (pode-se mencionar, como exemplo, BENDAZZOLI, 2003; COMIN, CARDOSO e CAMPOS, 1997).

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Thiago Trindade de Aguiar é Mestre e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Bolsista do CNPq.

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