Teorias do trabalho imaterial: perspectivas teóricas

Pollyanna Paganoto Moura

Fonte: Revista da ABET, v. 15, n. 2, p. 26-43, jul./dez. 2016.

Resumo: Este trabalho foi elaborado para apresentar de forma sistemática as teorizações a respeito do trabalho imaterial que têm se ampliado de forma significativa nas últimas décadas. As implicações dessas teorizações para a teoria marxista do valor evidenciam a necessidade de se estudar esse tema, cujo cerne é a crença na hegemonia de um novo tipo de trabalho no capitalismo: aquele que não produz uma mercadoria palpável, mas resultados intangíveis e impassíveis de mensuração. A teoria do valor trabalho é considerada, assim, defasada e o conhecimento é tido como o novo dinamizador das relações sociais.

Sumário: I Introdução | II Trabalho imaterial | III O problema da mensuração | IV O caráter revolucionário do trabalho imaterial | V Considerações finais | Referências

I Introdução

Tentativas de refutar a teoria marxista do valor não são recentes. Elas se originam nas mais diversas fontes, resultando em implicações que atravessam o campo teórico. Surgem, por um lado, em virtude de fortes interesses políticos, e, por outro, devido a uma incompreensão quase que generalizada dessa teoria (CARCANHOLO, 2005). A Revolução Marginalista, datada do final do século XIX, corresponde a uma dessas tentativas, assim como a polêmica questão envolvendo a transformação dos valores em preços, elaboração essa conhecida como os preços de produção de Marx.

Mesmo que hoje ainda vários teóricos anunciem o fim da teoria do valor trabalho, essa temática tem sido discutida segundo perspectivas cada vez mais renovadas. O principal argumento sobre o qual repousam refere-se à perda da centralidade do trabalho nas sociedades atuais. Podemos observar um processo de intensificação dessas interpretações a partir de meados da década de 1970, após as mudanças engendradas no âmbito do processo de reestruturação produtiva do capital. Essas modificações foram marcadas, sobretudo, por uma redução dos postos de trabalho nas fábricas e incorreram não só numa reorganização do processo produtivo do capital, mas também de seu sistema político e ideológico que perdura até hoje (ANTUNES, 2009). Tais transformações, movidas pela busca da recomposição das taxas de lucro do capital, procuraram realizar uma espécie de integração do trabalhador às atividades por ele desempenhadas, de modo a se contraporem à forma parcelada imanente ao modelo taylorista/fordista em estagnação. Segundo Antunes (2005), as principais consequências desse processo, além da redução dos postos de trabalho fabris, foram a intensificação da jornada e a expansão de atividades dotadas de uma maior dimensão intelectual. Essas modificações geraram impactos não só na classe trabalhadora, como também em muitos pensadores que passaram a ver nessas transformações o surgimento de um novo modo de produção. Dentre eles encontramos os autores do trabalho imaterial.

Esses autores, que aqui representaremos principalmente por André Gorz, Antônio Negri e Maurício Lazzarato, apesar das distintas ramificações que percorrem suas abordagens teóricas, têm em comum três pontos centrais que convergem para um fundamental aspecto: a presumível invalidade da teoria marxista do valor como ferramenta capaz de explicar as modificações contemporâneas do capitalismo. E, de forma diversa às tentativas anteriores de refutação da teoria do valor de Marx, esses teóricos atribuem uma “data de validade” para essa teoria, ou seja, entendem que até um dado momento ela possuía sua relevância, mas agora, diante das modificações observadas no capitalismo, perderia sua capacidade de explicar a realidade. Suas teses se concentram em torno de três argumentos principais: (1) na ideia de imaterialidade de um novo tipo de trabalho que se torna hegemônico no capitalismo contemporâneo, o trabalho imaterial; (2) no seu caráter imensurável, assim como de seus resultados; e (3) na crença num potencial revolucionário presente nesse trabalho, “uma vez que ele escaparia, a priori, da lógica do capital” (DA SILVA; FERREIRA, 2009, p. 2).

Dado o alcance que esse debate vem conquistando somado às consequências desastrosas ao paradigma teórico marxista que ele propõe, percebemos a necessidade de se compreender os argumentos que o sustentam, com intuito tanto de apontar seu potencial analítico para compreensão do capitalismo contemporâneo como de evidenciar aqueles elementos que ainda precisam ser alvo de análise pelo marxismo. Para cumprir com esse objetivo, a estrutura formal de nosso trabalho, além dessa introdução, seguirá através das discussões dos três pontos acima citados e seus desdobramentos, estes últimos apresentados nas considerações finais.

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Pollyanna Paganoto Moura é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – PPGE/UFRGS.

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