Tempos (ainda) modernos, 80 anos depois?

Cena icônica do filme “Tempos modernos”, de Charles Chaplin. Fotografia: Reprodução/IMDb

Lorena Holzmann

Há oitenta anos, foi lançado o clássico Tempos modernos, de Charles Chaplin. O filme foi feito quando ainda se faziam sentir os nefastos efeitos da crise de 1929, que resultou em milhões de trabalhadores jogados à miséria devido ao desemprego. No capitalismo, o ônus de qualquer crise recai sobre grupos específicos da população, enquanto outros se beneficiam de seus resultados. Quem é favorecido são os setores com poder de decisão, financistas e seus aliados, que engordam suas fortunas sobre a desgraça da grande maioria, integrada por trabalhadores assalariados, pequenos proprietários rurais e urbanos, entre outros segmentos da população. Esses contextos de crise desaguam numa reorganização de todos as esferas da vida econômica, social e política.

Focamos aqui a introdução de inovações nos processos de trabalho e de produção que encontram, em contextos de crise, terreno fértil para sua implantação e que aceleram a acumulação de capital, somando vantagens aos proprietários de empresas de qualquer segmento da economia. Devido a altas taxas de desemprego que caracterizam esses momentos, a resistência e a capacidade de luta coletiva dos trabalhadores tendem a enfraquecer diante de qualquer iniciativa do capital que possa impor condições de trabalho inovadoras, que tem significado, sempre, prejuízo aos trabalhadores.

Tempos modernos aborda uma dessas inovações, a produção na linha de montagem automática, criada duas décadas antes nas fábricas de automóveis de Henry Ford. Esse sistema, que veio a se difundir sob o conceito de fordismo, estava, então, em franca expansão em quase todo o mundo que se industrializava.

As inovações de Ford intensificam, avançam sobre as proposições de Taylor, engenheiro americano que reformulou profundamente o modo de organizar a produção e o trabalho no início do século XX. Segundo o taylorismo, cada operário executa sempre a mesma tarefa, fragmentada, resultando em pequenos ciclos operatórios, cumpridos em tempos e movimentos preestabelecidos pela gerência.

Para fazer cumprir as normas prescritas, foi necessário uma estrutura superdimensionada de controle e de poderes dentro das empresas. O modo de trabalhar usual antes dessa implantação assegurava aos trabalhadores grande poder de controle sobre a produção, os ritmos de trabalho e os modos de fazer, caracterizando o que um autor chamou de “a opressão do trabalho sobre o capital”, a que a máquina pôs fim. E isso tem a ver com a mais importante inovação de Ford: a esteira móvel, que fixava cada trabalhador no seu posto de trabalho, executando tarefas fragmentadas na velocidade do mecanismo, independentemente de sua intervenção. Se com Taylor o modo de execução de cada tarefa era prescrita, com Ford esse modo é imposto pela velocidade da esteira. É a submissão do homem à máquina. Com Ford, foi iniciada a produção em massa, caracterizada pela fabricação de grandes lotes de produtos iguais, com pequenas variações, e com base tecnológica eletromecânica.

Na concepção global de Ford (que inclui uma ideia de sociedade nova a ser criada, sem bancos, sem sindicatos, sem influências que ele chamava de orientalismos, remetendo à primitiva sociedade americana que ele acreditava ter existido), há outros elementos decisivos, que acabaram sendo abandonados em sua difusão em ambientes distintos de sua origem, preservando-se o sistema de organização dos processos de trabalho e de produção, paradigma hegemônico no século XX.

Carlitos, o personagem do filme, consegue um emprego numa fábrica (o que se produz lá?) e ocupa um posto de trabalho ao longo de uma esteira móvel. Deve ajustar parafusos que se sucedem a sua frente em velocidade tal que não lhe permite espantar um inseto que o perturba em sua tarefa. A esteira é frequentemente acelerada por um sujeito fora do chão da fábrica, a fim de elevar a produtividade. A máquina devora o homem, tritura-o e o regurgita.

O trabalho repetitivo, fragmentado, de curto ciclo operatório, o modo e a velocidade em que deve ser executado, definido pela gerência sem levar em conta as condições dos operadores/operários, provoca no protagonista perturbações mentais que o fazem confundir botões das roupas das mulheres com quem cruza na empresa ou na rua com os parafusos que deve ajustar na linha de montagem. Seu ataque às mulheres com as tenazes que são seu instrumento de trabalho leva-o a ser internado num manicômio.

Desde a década de 1970, o capitalismo vem passando por transformações em todos os âmbitos, desde a organização nos locais de trabalho até a definição de políticas macroeconômicas, sociais e políticas. Os argumentos da pretensa superação do modelo fordista se espelham na experiência do chamado “modelo japonês”, conjunto de princípios, técnicas e protocolos iniciados nos anos 1950 na fábrica Toyota, no Japão, daí o conceito de toyotismo que o identifica. Do ponto de vista político e social, uma atribuída rigidez do fordismo (tanto em termos tecnológicos como nas relações contratuais entre capital e trabalho) é quebrada pela inovação tecnológica de base eletroeletrônica e pela flexibilidade propiciada pelas políticas neoliberais que vão se expandindo e consolidando a partir dos anos 1980 em âmbito mundial. Esse conjunto de fatores favorece a reestruturação produtiva em curso.

As mudanças nos processos de trabalho e de produção, sob a égide do toyotismo, substituem o trabalho individualizado pelo trabalho em equipe, reduzem os níveis hierárquicos nas empresas, delegando aos próprios trabalhadores as funções de controle sobre o desempenho de cada um, quebrando possíveis relações de solidariedade nos integrantes das equipes, pois a avaliação de desempenho do conjunto é o resultado do esforço de cada um, controlado e cobrado pelos demais. O alcance de metas definidas pela empresa e sempre reatualizadas se torna o acicate do dia-a-dia de trabalho. A especialização extrema nos sistemas taylorista e fordista – cada trabalhador executa sempre e repetidamente a mesma operação fragmentada e opera somente uma máquina – dá lugar, no toyotismo, a requerer de cada trabalhador que seja capaz de executar diferentes tarefas e operar mais de uma máquina que integram a célula de manufatura. É a demanda de polivalência. Investigações têm apontado a intensificação do trabalho, isto é, ele torna-se mais comprimido, requerendo mais esforço dos executantes e uma redução dos tempos mortos ou da porosidade da jornada de trabalho, pequenos fragmentos de tempo em que o trabalhador não está produzindo.

Há mudanças expressivas na terminologia no mundo do trabalho. O empregados passam a ser colaboradores, pretendendo o fim do confronto de classe entre trabalho e capital; os colaboradores são estimulados à participação propondo permanentemente melhorias nos processos produtivos, buscando soluções no momento em que possíveis problemas sejam detectados, por meio de programas como CCQ, 5 S, caixas de sugestões, grupos de melhorias contínuas, entre outros.

Segundo o discurso gerencial, esse conjunto de mudanças garante um trabalho mais desafiador, gratificante e menos alienante. Uma numerosa literatura tem evidenciado que a realidade não corresponde a esse discurso. Um estudo realizado por uma grande equipe de pesquisadores espanhóis constatou que essas inovações são uma versão renovada do taylorismo-fordismo, pois as contribuições dos trabalhadores avaliadas positivamente e adotadas pelas empresas retornam a eles como normas a serem cumpridas obrigatoriamente.

Considerando, no contexto dessa reestruturação, apenas aspectos relacionados ao processo de trabalho, há críticas a eles que apontam-na como um conjunto de estratégias do capital para potencializar sua acumulação. Mas os resultados positivos que têm sido obtidos fazem desse novo modelo de organização a referência para as transformações introduzidas nas empresas, levando à formulação de teses do fim do fordismo.

A defesa desta tese – enquanto organização do trabalho – baseia-se na observação da ampla aceitação e difusão desse novo modelo, considerando, por vezes, como se ele já fosse, hoje, a forma exclusiva de organização da produção e do trabalho. Essa tese parece desconhecer a sobrevivência do “antigo” e sua capacidade de se combinar com as inovações em curso, tanto no âmbito das empresas como na economia global.

Cartaz estadunidense do filme “Tempos modernos”. Fotografia: Reprodução/Wipedia
Cartaz estadunidense do filme “Tempos modernos”. Fotografia: Reprodução/IMDb

Diante da atualidade da acumulação flexível que identifica o toyotismo, os Tempos modernos de Carlitos são o “antigo”, superado por inovações técnicas e organizacionais que trazem benefícios aos trabalhadores, levando à superação do trabalho alienado e alienante da linha de montagem, valorizando o “saber operário” que o taylorismo-fordismo tornara obsoleto dentro das empresas.

Contradizendo a tese, a antigo vivenciado por Carlitos sobrevive em todo o mundo. Novas regiões de produção industrial integradas ao mercado mundial, como alguns países asiáticos, ou empreendimentos nas mais importantes cidades do mundo, têm reproduzido condições de trabalho semelhantes às vividas pelo personagem. Milhares de homens e mulheres trabalham em condições as vezes muito próximas às de escravidão, executando tarefas fragmentadas, repetitivas, relegados a uma vida degradada, com repercussões sobre sua saúde física e mental. O taylorismo-fordismo está vivo, mesmo no interior de empresas consideradas modernas, que combinam diferentes sistemas de organização do trabalho, em consonância com seus interesses e suas metas de produtividade.

Ainda que mudanças significativas no mundo do trabalho foram difundidas e adotadas em grande escala no mundo todo, a ficção de Tempos modernos continua sendo, passados 80 anos, uma realidade incontestável.

Lorena Holzmann é Socióloga, Doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Professora Titular do Programa de Pós-Graduação em Sociologia/UFRGS.

Informações

Título: Tempos modernos
Título original: Modern times
Ano: 1936
Duração: 87 min.
País: Estados Unidos da América
Diretor: Charles Chaplin
Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman

Mais informações: IMDb, Wikipédia (português).

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