Subjetividade e sexualidade no trabalho de cuidado

Helena Hirata

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Fonte: Cadernos Pagu, Campinas, n. 46, p. 151-163, jan./abr. 2016.

Resumo: O artigo analisa resultados de pesquisa de comparação internacional Brasil-França-Japão no trabalho de cuidados a pessoas idosas dependentes em instituições (ILPI) e no cuidado domiciliar, atentando para a dimensão da sexualidade – tanto do beneficiário quanto do provedor de cuidados – nesse trabalho, e para a dimensão de gênero na relação entre cuidadora e pessoa cuidada. Poucas pesquisas tratam da dimensão da sexualidade no trabalho de cuidado. Porém fica claro pelos exemplos apresentados neste artigo que levar em consideração essa questão é fundamental, inclusive para a formação da cuidadora e para sua competência e sua qualificação plena para o exercício dessa atividade profissional.

Sumário: Introdução | As dimensões do trabalho do care | Trabalho de care e sexualidade | Trabalho e subjetividade | Sofrimento no trabalho: o racismo | Relação subjetiva ao trabalho do care: a morte dos idosos | Trabalho e sexualidade: care e qualificação “tácita” | Conclusão | Referências bibliográficas

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Introdução

Assiste-se hoje, na França, a novas orientações na sociologia do trabalho, do gênero e do care.

Se durante os anos 1980 a 2000 as pesquisas sobre trabalho e emprego dentro de uma perspectiva de gênero dominaram o panorama dos gender studies na França, pode-se dizer que nos últimos dez anos tem-se avolumado o campo de pesquisas em que a dimensão da sexualidade é central. Além de pioneiros nessa área como Michel Bozon (1991, 1999), pode-se notar um desenvolvimento significativo de pesquisas nesse campo (Eric Fassin, 2003, 2005; Isabelle Clair, 2008; Elsa Dorlin, 2008). Também os lugares da sexualidade e do corpo na análise do trabalho, inscritos nos trabalhos anglo-saxões desde os anos noventa (Adkins, 1995), se tornaram visíveis num período mais recente na França, a partir das pesquisas sobre o trabalho do care das auxiliares de enfermagem (Molinier, 2009) ou o trabalho das enfermeiras (Giami et al, 2013).

Uma outra orientação que tem suscitado interesse crescente na sociologia do trabalho e do gênero diz respeito aos lugares da subjetividade, do afeto e do trabalho emocional. Se os trabalhos pioneiros em psicodinâmica do trabalho de Christophe Dejours (1980) deram um forte destaque ao tema “subjetividade e trabalho” e tiveram certa repercussão e influenciaram os sociólogos do trabalho desde o início dos anos noventa, a obra de Arlie Hochschild (1987), pioneira na incorporação da dimensão “emoções” na análise do trabalho e iniciadora de uma nova sub-disciplina, a sociologia das emoções, só começou a ter uma certa receptividade na França nos últimos anos, graças sobretudo às pesquisas sobre o trabalho do care.

As dimensões do trabalho do care

Segundo Angelo Soares (2012), cujas pesquisas se inspiram na sociologia das emoções, cinco dimensões do trabalho do care podem ser detectadas, entre as quais a dimensão corpórea e sexual está claramente presente: 1) dimensão física: o contato corporal, presente em atividades como limpar excrementos, dar banho, colocar sondas, realizar a higiene de partes íntimas, etc; 2) dimensão cognitiva: conhecer a medicação, observar horários, reconhecer sintomas clínicos; 3) dimensão sexual: utilização do corpo da trabalhadora na produção dos cuidados; 4) dimensão relacional: interação, comunicação, capacidade de escuta; 5) dimensão emocional: importância das emoções no trabalho de cuidado; prescrição de emoções para a realização do trabalho e do controle emocional. Pascale Molinier (2012) também apresenta cinco diferentes facetas ou cinco descrições do trabalho do care: o care como gentleness, o care como know-how discreto, o care como trabalho sujo, o care como trabalho inestimável e o care como narrativa política (cf. Molinier, 2012:30-41). O “savoir-faire discreto” é uma noção que remete ao trabalho invisível e portanto pouco reconhecido; trabalho ao mesmo tempo atencioso e discreto. Mais interessantes e diretamente relacionadas com o tema deste artigo são as suas pesquisas em unidades de cuidado de idosos dependentes, onde a autora mostra como o aspecto sexual faz parte da atividade de trabalho e das competências profissionais das cuidadoras. Molinier (2009) apresenta o caso do Sr. Georges, que sofre de demência senil. Ele só se acalmava durante a higienização ou a troca de roupas e deixava de se agitar se as cuidadoras o deixassem tocar uma parte erótica diferente de seus corpos, segundo cada uma: “beijos no pescoço, mão na bunda, mãos em volta da cintura, e mesmo tentativa de tocar nos seios de uma corpulenta matrona” (Molinier, 2009:237). Longe de ser excepcional, esse comportamento é comum e recorrente, segundo a autora, nas instituições de longa permanência para idosos. Dentro desse contexto, o “bom” care seria aceitar de forma medida e circunscrita os avanços do idoso. Mas essa aceitação controlada teria que ser fundamentalmente objeto de discussão e construção normativa dentro do coletivo de trabalho. Isso significa a socialização dos problemas enfrentados pelas cuidadoras no contato com o idoso, o debate e a intercomunicação sobre tais questões, e o estabelecimento de regras e normas aceitas pelo coletivo de trabalho após discussão.

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Helena Hirata é socióloga, diretora de pesquisa emérita da equipe Genre, Travail, Mobilités (GTM) – Centre de Recherches Sociologiques et Politiques de Paris (CRESPPA) do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), Paris, França.

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