Sob o domínio da Epidemiologia

“Ninguém sabe como nem quando, mas a pandemia vai passar”. Ilustração: The New York Times

O Ministério da Economia não entendeu ou finge que não entendeu o momento que está vivendo e fica fazendo pequenas contas para gastar o mínimo possível diante da tragédia.

Flavio Fligenspan

Fonte: Sul21
Data original da publicação: 06/04/2020

Vencido o debate sobre a necessidade do isolamento social, ainda que haja relutantes, o passo seguinte é amparar os agentes econômicos que perdem renda abruptamente com a parada das atividades, sejam eles pessoas ou empresas, dando preferência para os vulneráveis. Ocupados na informalidade, ocupados formais com baixos rendimentos, microempreendedores, micro e pequenas empresas deveriam ser os primeiros a ser apoiados pelo Estado e com muita agilidade, o que já não aconteceu.

O Ministério da Economia não entendeu ou finge que não entendeu o momento que está vivendo e fica fazendo pequenas contas para gastar o mínimo possível diante da tragédia, como se ainda tivesse algum sentido salvar o resultado fiscal de 2020. Consta que há desentendimento interno no Ministério e o Ministro apela para uma suposta necessidade de novos instrumentos aprovados pelo Congresso para por em prática o que já foi permitido, a ajuda urgente a quem mais precisa. Não é hora de esgrimir com o Congresso ou com quem quer que seja, há que se amparar famílias carentes, empresas em dificuldades, estados e municípios com gastos extras em saúde e até mesmo parte do sistema financeiro que porventura apresente fragilidades.

Com estes apoios, que naturalmente recaem no colo do Estado, o único agente com capacidade de se endividar em larga escala e de organizar as várias frentes da “guerra” contra a doença, um dia a pandemia vai passar. O Estado brasileiro não tem demonstrado esta capacidade de organização, mas este já é outro assunto. Ninguém sabe como nem quando, mas a pandemia vai passar.

Seja para fugir de um presente tão duro, seja pela necessidade de pensar o que vem pela frente, representantes de vários ramos da ciência começam a elaborar o porvir, com um nível de incerteza mais do que o comum para quem costuma fazer exercícios de acertar o futuro. Projeções as mais diversas aparecem diariamente sobre o tamanho da recessão que vamos enfrentar, a magnitude da taxa de desemprego, o ritmo de retomada da economia, o novo equilíbrio de preços relativos, o novo mercado imobiliário (residencial e comercial), quem sai ganhando e quem sai perdendo com a crise, a reorganização das cadeias globais de valor etc.

Saindo estritamente da Economia e abarcando as outras áreas das Ciências Sociais, especula-se sobre questões estruturais como: 1) a nova configuração do trabalho e das relações de trabalho; 2) a valorização da presença do Estado nas áreas sociais e de infraestrutura, em especial a saúde, o saneamento, a moradia e o transporte; 3) a revalorização do atendimento médico e dos seus profissionais; e 4) o possível fim da polarização política no mundo, com a perda de espaço de líderes populistas. Os valores mais importantes do capitalismo também estariam sub judice e uma nova sociedade baseada na solidariedade poderia emergir deste tempo horrível que estamos vivendo.

Acho que todos os exercícios são válidos, boa parte da tarefa dos cientistas é entender o passado e o presente para tentar planejar o futuro e, se possível, diminuir as consequências negativas de tragédias, sejam as econômicas ou as sanitárias. Me parece cedo demais para projeções. Estamos neste momento vivendo sob o domínio da Epidemiologia. A ciência é que vai nos dizer – e sabe lá quando e com que grau de segurança – se a pandemia vai ter uma história em formato de V ou de W, ou de vários W sucessivos, quanto tempo vai durar cada ciclo de melhoras e de novas contaminações espalhadas pelo mundo, qual a chance de um indivíduo contrair uma nova doença a partir de mutações do coronavírus original, se haverá tratamento confiável e se haverá vacina.

Antes destas respostas difíceis, e neste momento longínquas, tentar acertar o futuro é uma tarefa das mais ingratas. Na semana passada, por exemplo, se inaugurou um novo tipo de prática predatória no comércio internacional, o atravessamento estatal e o desvio de mercadorias essenciais para o tratamento de doentes, desde máscaras hospitalares até aparelhos respiradores. E tal prática foi executada pelos Estados Unidos, em detrimento da França, da Alemanha e até do Brasil, com o desvio de produtos fabricados na China. Quantos votos terá ganhado Donald Trump nas próximas eleições com tal prática desleal? Os cidadãos americanos aprovam ou desaprovam o que seu governo fez? Será mesmo que o mundo vai mudar tanto, o capitalismo vai se transformar e a solidariedade há de ser um valor maior? Muito cedo para fazer tantas apostas. Em momentos de tamanha incerteza, convém ter cautela.

Flavio Fligenspan é professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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