Saúde do trabalhador é tema fundamental na discussão sobre o futuro do trabalho

Fotografia: Alamay/The Guardian

Charles Soveral

A saúde dos trabalhadores, em tempos de produção globalizada, ganhou duas novas ameaças reais: doenças resultantes da pressão psicológica pela busca de melhores resultados e a intensificação das atividades em uma jornada cada vez mais pesada. Estas conclusões foram apresentadas no seminário “O Futuro do Trabalho”, evento promovido no início de dezembro em Porto Alegre pelo Programa de Pós Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Como estabelecer uma relação entre adoecimento do trabalhador e carga de pressão, esforço e assédio que ele recebe no local de trabalho? Essa é uma questão importante quando se fala no adoecimento e até no suicídio de trabalhadores, segundo a socióloga e técnica do Dieese Ana Cláudia Cardoso, que defende uma ampla pesquisa nacional para trazer mais dados sobre esse crescente problema social.

“É preciso trazer para a superfície. Dar visibilidade a algo que está acontecendo com muita intensidade nos locais de trabalho e que ainda não está completamente investigado. Estamos apenas agora dando a real importância para o adoecimento de trabalhadores e suas causas”, adverte a pesquisadora.

Ana Cláudia. Fotografia: Charles Soveral/DMT
Ana Cláudia Cardoso. Fotografia: Charles Soveral/DMT

Ana Cláudia fez doutorado na França e relata que no país surgiram nos últimos anos inúmeros casos de suicídio nos locais de trabalho. Esse fato, além de chamar a atenção da mídia, fez o governo francês acender uma luz de alerta. “O governo percebeu que havia algo de errado no local de trabalho. Em empresas de grande porte, como os Correios, a fábrica de automóveis Peugeot e até mesmo a France Telecom, em fase de privatização, surgiram casos de suicídio que deram visibilidade a problemas no local de trabalho, revelando o crescente adoecimento de trabalhadores.”

A pesquisadora do Dieese relata que crescem os casos de burn out (da língua  inglesa to burn out, queimar por completo, também chamado de síndrome do esgotamento profissional), casos de Lesões por Esforços Repetitivos (LER), Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (Dort). “São o resultado do que eu chamo de assédio organizacional. Vejo o assédio como um instrumento de gestão, uma prática do mundo globalizado que estabelece metas quantitativas e imposições. Os gestores fazem esse papel, transferindo a pressão que recebem por melhores resultados para o elo seguinte da cadeia, que são os trabalhadores da base. É neles que estoura o problema”, destaca Ana Cláudia.

A socióloga defende um trabalho no Brasil semelhante ao que está em andamento na França conduzido pela Direction de la recherche, des études, de l’évaluation et des statistiques (Drees), ligada ao ministério do trabalho francês, onde se investiga a relação do trabalho com a saúde do trabalhador. “Quais as causas? Que tipo de doença prevalece por setor? Aqui no Brasil sabemos que os trabalhadores da área da saúde estão mais sujeitos ao burn out, assim como no comércio prevalece a síndrome do pânico e na indústria temos, além das doenças físicas por acidente e exaustão, os adoecimentos mentais”.

Ana Cláudia conta que realizou uma pesquisa com policiais civis e bombeiros e descobriu que entre eles havia aumento do alcoolismo, da dependência química, da impotência sexual e da violência no domicílio. “No entanto, aos olhos da sociedade parece que estes distúrbios não possuem qualquer relação com o trabalho. Como se prova que a impotência sexual está vinculada à pressão no trabalho?”, pergunta.

Carga excessiva

Outro problema que surge com grande intensidade neste início do século 21 é que os trabalhadores estão trabalhando mais dentro da mesma carga horária e, em muitos casos, até trabalhando mais horas. Isto é o que relata o também sociólogo e pesquisador Sadi Dal Rosso, da Universidade de Brasília (UnB).

Sadi Dal Rosso. Fotografia: Charles Soveral/DMT
Sadi Dal Rosso. Fotografia: Charles Soveral/DMT

Tomando por base os relatórios da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ele diz que trabalhos com jornada excessiva (além do número de horas previstas em lei) somam 22% dos empregos formais em 54 nações, significando atualmente algo em torno de 614 milhões de trabalhadores.

Segundo o sociólogo, a situação não difere no Brasil. “Reduzimos frente aos 35% de 2000, mas em 2013 nos igualamos aos 22% do panorama global. Mesmo que tenhamos redução no Brasil, a jornada excessiva continua sendo um problema, pois afeta mais de 21 milhões de pessoas que trabalham em condições eticamente intoleráveis”, denuncia.

Dal Rosso argumenta que o tema da carga excessiva precisa ser enfrentado com mais vigor pelas representações de trabalhadores. Ele não vê junto ao novo Congresso Nacional muito espaço para a uma política de redução de jornada de trabalho. “Estamos diante de um Congresso que se renova, mas que se torna mais conservador, mais representado pelos patrões do que pelos empregados. Isso vai exigir uma mobilização extra para que temas como a redução da jornada de trabalho possam ser reconhecidos politicamente. Estamos lutando pela redução da jornada prevista na Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 231, que tramita no Congresso Nacional desde 1995, e ainda não conseguimos superar este atraso”, finaliza o pesquisador.

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