Salário do trabalhador não acompanhou a recuperação da economia nos Estados Unidos

Em cinco anos de crescimento econômico desde a crise global, os salários do trabalhador americano não cresceu. Já a renda da parcela mais rica da população avançou no mesmo período.

Desde 2009, o parco avanço salarial mal acompanhou o ritmo da inflação, igualmente fraca, subindo apenas 0,5% do pagamento por hora. Este é o pior avanço desde a Segunda Guerra Mundial e bem abaixo de uma média de aumentos de 9,2% em situações de recuperação similares no passado, segundo dados da Secretaria de Estatísticas de Trabalho dos EUA, compilados pela Bloomberg.

A presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Janet Yellen, se concentrou em políticas que apoiem um crescimento mais acelerado dos salários como marco importante para declarar que o mercado de trabalho se recuperou e está pronto para aguentar ajustes na política monetária, mesmo enquanto outros indicadores de trabalho melhoram. Os ganhos estagnados também explicam uma economia com problemas para sustentar uma recuperação dos gastos em imóveis e consumo, segundo David Blanchflower, professor de Economia da Dartmouth College em Hanover, Nova Hampshire.

— O ponto principal é que estamos a anos-luz do pleno emprego — disse Blanchflower, responsável por políticas econômicas no Banco da Inglaterra entre 2006 e 2009. — Os trabalhadores estão enfrentando dificuldades e não veem sinais de que as coisas vão mudar abruptamente.

As famílias concentradas no 20% superior dos grupos socioeconômicos dos EUA receberam um aumento médio da sua renda de US$ 8.358 por ano entre 2008 e 2012, em comparação com um declínio anual de US$ 275 no 20% inferior, segundo dados da Secretaria de Estatísticas de Trabalho.

Salários Estagnados

Nos Estados Unidos, os salários estagnados estão ligados a uma questão que intriga economistas e responsáveis pelas políticas econômicas: quantos trabalhadores capazes e dispostos ainda estão de fora esperando? A questão pode ser um dos tópicos que Yellen e outros banqueiros centrais discutirão nesta semana, no simpósio anual em Jackson Hole, Wyoming, cujo foco estará no mercado de trabalho. Enquanto a economia não consumir esse excesso de capacidade, os empregadores terão poucos incentivos para dar aumentos a fim de atrair e reter os funcionários.

— De certa modo, estamos num território inexplorado — disse Guy Berger, economista da RBS Securities Inc. para os EUA. — Este ciclo não está se comportando exatamente como os anteriores.

A anormalidade reflete a profundidade da contração de 18 meses. O fenômeno desalojou milhões de americanos que, mesmo com uma recente retomada das contratações, ainda não voltaram a conseguir empregos remunerados. A falta de aumentos salariais também ajuda a explicar por que os consumidores americanos não parecem pisar firme na expansão até o momento.

Taxa Zerada

Yellen se referiu a isto na sua declaração perante o Comitê Bancário do Senado em 15 de julho, dizendo que a recuperação ainda não se completou e que o “ritmo lento de crescimento” das medidas de compensação por hora é um sinal de um “afrouxamento significativo” nos mercados de trabalho.

Esse afrouxamento é um dos motivos pelos quais o Fed tem mantido quase zerada sua taxa básica de juros. A última vez em que os gestores da política monetária do banco central americano aumentaram a taxa para empréstimos overnight entre bancos foi em 2006.

O risco de manter a taxa tão baixa durante tempo demais é que a economia pode superaquecer. Ainda que a inflação continue abaixo da meta do Fed, de 2% — e que o rendimento para os títulos do Tesouro americano a 10 anos fosse de 2,39% ontem, comparado aos 3,94% em 30 de novembro de 2007, pouco antes do começo da recessão —, os preços estão começando a acelerar. O índice de preços para gastos em consumo pessoal, o indicador preferido pelo Fed, aumentou 1,6% em junho em relação ao ano anterior, comparado com um ritmo anual de 0,9% em outubro.

A réplica de Yellen: o pagamento nominal médio por hora, que aumentou cerca de 2% em junho frente ao ano anterior, continua a aproximadamente metade do ritmo de 3% a 4% que ela disse considerar “normal”.

— Vamos nos preocupar com inflação quando ela aparecer — disse Blanchflower, da Dartmouth.

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Fonte: O Globo, com Bloomberg News
Data original da publicação: 19/08/2014

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