Representatividade da mulher negra no mercado de trabalho

Fotografia: Pexels

É necessário ter mulheres negras trabalhando dentro das empresas e ocupando posições com poder de decisão.

Léia Santos

Fonte: Jota
Data original da publicação: 07/12/2020

Representatividade é um fator muito importante para as mulheres começarem a conquistar espaço no meio corporativo. Ter visibilidade é algo essencial para as mulheres. Esse é um desafio para todas as mulheres. Para as mulheres negras, é desafio em dobro.

O Brasil é um país formado por diversas culturas e, numa sociedade tão múltipla, algumas desigualdades se sobrepõem às outras. São evidentes as situações complexas referentes às relações de gênero incluindo a variável cor da pele e a dificuldade de posicionamento da mulher negra no mercado de trabalho.

São raras as abordagens sobre a temática da mulher negra no mercado de trabalho, especialmente quanto à ausência de equidade no ambiente das empresas, sejam elas de pequeno, médio ou grande porte.

Em todo o mundo, as mulheres enfrentam inúmeros desafios na carreira, seja na competição inicial quando se candidatam para vagas concorrendo com outros candidatos homens; seja na equiparação salarial quando conquistam as vagas.

Um estudo da MindMiners[1], elaborado em 8 de maio de 2019, mostra que 70% das mulheres não se sentem confortáveis em negociar salários versus 20% dos homens (os outros 10% não respondeu); ou quanto essas têm que conciliar vida pessoal e carreira.

Aliás, esse último desafio é um ponto extremamente sensível pois muitas delas sequer citam isso como uma dificuldade de carreira, tamanha a inconsciência dessa dificuldade.

Ser mulher e negra traz desafios adicionais, pois, sistematicamente, elas são frustradas em suas expectativas em razão do preconceito; e são preteridas de vagas de emprego em razão da cor da pele.

Vale lembrar que, apenas recentemente, após sofrer críticas nas redes sociais por escalar jornalistas brancos para falar sobre racismo, um importante veículo de comunicação convocou equipe de jornalistas negras para debater o assunto.

Não se pode negar que há uma questão sistêmica: as mulheres negras enfrentam maior dificuldade para completar a escolarização, o que reforça o ciclo vicioso e as dificuldades de mudança social.

Mesmo aquelas que possuem formação acadêmica, em geral, encaram dificuldades no mercado de trabalho e precisam romper com estruturas de gênero e lutar contra o racismo.

O racismo impõe para estas mulheres a “obrigação”, ainda que de forma sutil, de serem melhores que seus pares. Um estudo do Dieese (Departamento   Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos)[2] no ano de 2019, demonstra que mulheres negras têm o dobro de qualificação técnica que os homens e são cerca de 40% mais qualificadas que as mulheres brancas. A ausência de representatividade se dá em todos os setores porque o racismo é estruturante.

A mulher negra precisa ocupar espaços nas empresas para que se garanta o direito de pertencimento àquele espaço, para que se quebre o ciclo do preconceito.

Para elaboração deste artigo, foram entrevistadas várias mulheres negras que relataram, com frequência assustadora, que em diversas ocasiões foram questionadas quanto à sua educação de maneira preconceituosa ou acusadora.

Em algum momento de suas carreiras, foram submetidas ao escrutínio manifesto de forma velada ou não sobre sua formação e competência por serem negras, impondo que assumissem para si um posicionamento acerca dos males provocados  pelo preconceito, pela discriminação e pelo racismo presentes na sociedade brasileira.

No entanto, elas romperam com as estruturas hierarquizantes e alcançaram visibilidade social e no mercado de trabalho e são referências para jovens negras em início de carreira. Seus relatos de trajetórias profissionais podem inspirar outras mulheres negras que almejam o sucesso, valorizando a identidade negra sem estereótipos.

Além disso, vale dizer que estas mulheres são inspiradoras por várias razões: resiliência, força de vontade, autoestima e excelência técnica. Inspiram mulheres negras, brancas e a todos os que as cercam.

Uma das entrevistadas, Luana Areta, gerente de RT da Whirlpool Brasil, acredita que a educação tem o poder de promover a mudança necessária: “É importante a educação para que se tenha segurança na hora de falar”.

Ela também admite que as mulheres negras são mais fechadas, o que é compreensível, pois estão constantemente na defensiva e isso pode causar um isolamento desnecessário: “É preciso ter cuidado com a austeridade quando se está em posição de liderança para não afastar as pessoas de si”, afirma.

Alexandra Oliveira, diretora na Whirlpool, acredita que é necessário ter soft skills bem desenvolvidas. Essa competência tem, igualmente, papel relevante na carreira das mulheres: a habilidade de conduzir suas carreiras com sucessos depende de flexibilidade, de posicionamento em sua comunicação, mas sem ser agressiva, evitar confrontos diretos e saber usar sua voz no momento certo. São habilidades que terão que ser desenvolvidas por mulheres em início de carreira e a busca por um/uma mentor(a) pode ajudar muito nesta etapa do processo.

Para Litza de Mello, com experiência em departamento jurídico de empresas e atualmente atuando como coordenadora da área trabalhista do escritório de advocacia Porto Lauand, a educação é o ponto de partida, mas além da formação acadêmica e atualização constante, é imprescindível ter orgulho da própria história e identidade, pois cada mulher preta que ocupa um espaço de destaque ressignifica e representa muito para a vida de outras mulheres e meninas.

A dra. Litza também acrescenta que além da qualificação contínua, é preciso resiliência e resistência para se colocar no mercado que tem como referencial o “mundo branco”. Resiliência, empatia, colaboração e comunicação são habilidades que podem ser desenvolvidas, aprimoradas e que facilitam a carreira no dia a dia de todas as pessoas.

Tão importante quanto as competências acima mencionadas, a mulher negra precisa se autoconhecer, se posicionar e buscar referências e a sociedade entender que a igualdade deve se materializar independentemente da cor da pele. As referências positivas mudam completamente o futuro.

Para as iniciantes, é recomendável ter foco na educação e em competência técnica para gerar autoconfiança necessária e ter domínio de seu conhecimento. Para aquelas que buscam posições de liderança, é importante ter visão de longo prazo, preparando o caminho para execução hoje com foco no amanhã. Essa é uma habilidade que permite fazer marketing de suas próprias ideias e tornar-se atraente para as companhias.

Campanhas antirracistas nas redes sociais são importantes, mas não basta. É necessário ter representatividade dentro das empresas, com mulheres negras trabalhando nelas, ocupando posições com poder de decisão.

As companhias estão se abrindo para tentar alcançar estas mulheres, portanto o momento é propício e todas as mulheres negras têm plenas condições de alcançar o sucesso. Persistência é a palavra de ordem!  Citando Oprah Winfrey: “compreenda que o direito de escolher seu próprio caminho é um privilégio sagrado. Use-o. Insista nas possibilidades.”

Léia Santos é advogada empresarial e de compliance na Cellera Farma, com experiência multidisciplinar em grandes companhias como Saint Goban e Whirlpool. Membro de grupos como Jurídico de Saias, Fin4she e Compliance Women Committee, voltados para a carreira das mulheres em corporações.

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