Relação entre significado do trabalho e rotatividade de serventes de limpeza

Mohana Kruger Oliveira
Amalia Raquel Pérez-Nebra
Carla Sabrina Antloga

Fonte: Revista Psicologia Organizações e Trabalho, Brasília, DF, v. 16, n. 2, p. 190-202, jun. 2016.

Resumo: A rotatividade no setor de serviços de limpeza é apontada na literatura como grande problema neste tipo de atividade, mas há poucos estudos sobre significado do trabalho e relação com a rotatividade. Esta pesquisa investigou, por meio de estudo de caso, a relação entre a rotatividade de serventes de limpeza e o significado do trabalho. Realizaram-se dois estudos, com entrevistas individuais semiestruturadas e submetidas à análise de conteúdo. Os resultados apontam maior rotatividade entre homens, relacionada a pouca identificação com o trabalho, falta de reconhecimento, desprezo e invisibilidade social.

Todos os anos, no Brasil, milhares de pessoas buscam um posto de trabalho no setor de serviços de limpeza, estimando-se que haja mais de 100 mil profissionais nesta categoria (SIEMACO, 2011). Apesar da baixa remuneração, da invisibilidade do trabalho e das altas exigências físicas impostas pelas atividades, o volume de candidatos na empresa em que este estudo foi realizado é elevado (entre 5 e 12 candidatos por vaga). Todavia, há um fato que, se não é completamente desconhecido, é bastante curioso: um grande número de pessoas que ingressa no cargo de servente de limpeza tende a abandonar seu posto de trabalho em pouco tempo, muitas vezes exercendo a mesma função em outra empresa ou até na mesma, posteriormente. Há um alto índice de rotatividade entre os serventes de limpeza, que, de acordo com dados da Associação Brasileira do Mercado de Limpeza Profissional (ABRALIMP, 2014), é de aproximadamente 60%. Os índices de rotatividade descontada1 no setor de serviço brasileiro estão entre 40,2% e 45,0% nos últimos 10 anos (DIEESE, 2014).

Entre os serviços mais comumente terceirizados, o setor de conservação e limpeza é o de maior volume: 68,9% das empresas o terceirizam (DIEESE, 2007). Nesse sentido, questiona-se: existe uma relação entre o significado atribuído ao trabalho de limpeza e o abandono do posto de trabalho? O objetivo deste artigo é analisar as relações entre as representações que trabalhadores de serviços de limpeza têm sobre seu trabalho e a rotatividade. Para tanto, esta pesquisa realizou-se em formato de estudo de caso, permitindo avaliar, em maior profundidade, esse fenômeno.

Na literatura brasileira, poucos trabalhos têm como tema a rotatividade, conforme observado em levantamento realizado nas principais revistas científicas de psicologia organizacional e administração entre os anos de 2000 e 2015. Entre os escassos artigos que relacionaram rotatividade e psicologia, ressaltam-se os estudos de Ferreira e Freire (2001), sobre custo do trabalho e com base na ergonomia da atividade; de Cardoso, Pinto, Silighini, Montalto e Caolnego (2013), com foco em gestão de pessoas e recrutamento e seleção; de Oliveira e Honório (2014), sobre geração e valores; de Campos e Malik (2008), sobre satisfação no trabalho com médicos; e, ainda, o estudo de Bezerra (1997), que descreve fenômenos psicológicos possivelmente relacionados a rotatividade, mas sem mensurá-los. Analisando-se os artigos mencionados, verifica-se que não foram estabelecidas, pelos autores, relações entre a rotatividade e o significado do trabalho, embora a questão do significado permeie as questões levantadas pelas pesquisas. Na literatura internacional, encontrou-se apenas um artigo sobre significado do trabalho e rotatividade com trabalhadores de cassino, de Lai, Chan e Lam (2013).

O termo rotatividade “representa a substituição do ocupante de um posto de trabalho por outro, ou seja, a demissão seguida da admissão, em um posto específico, individual, ou em diversos postos, envolvendo vários trabalhadores” (DIEESE, 2011, p. 79). Para Harkins (1998), refere-se à perda de recursos humanos e sua substituição. Considerando-se as definições de rotatividade do DIEESE (2011) e de Harkins (1998), depreende-se que a rotatividade pode ser: (a) planejada e provocada pela organização ou pela pessoa, ou (b) não planejada pela organização ou pela pessoa.

A despeito destas definições, sabe-se que toda rotatividade gera custos. Pesquisas apontam que a reposição de um funcionário pode custar de 93% a 300% do seu salário (Davidison, Timo, & Wang, 2010). Além dos custos financeiros envolvidos na demissão, existem despesas com processos de recrutamento, seleção, contratação e treinamento (Vazifehdust & Khosrozadeh, 2014).

Em função do caráter multicausal do fenômeno da rotatividade, seu estudo implica desafios tanto práticos, quanto teóricos. Parece pertinente, portanto, analisar categorias mais amplas e apriorísticas, como o significado do trabalho, possibilitando, assim, compreender se a rotatividade pode, eventualmente, ter relação com um trabalho com pouco significado e se há impactos da fragilidade de significado na intenção da pessoa de abrir mão de seu posto de trabalho.

O trabalho pode ser entendido e definido de diversas formas, e a ênfase em um ou outro aspecto é o elemento diferencial nas distintas definições encontradas na literatura (Ros & Grad, 2005; Salanova, Gracia, & Peiró, 1996). Via de regra, o trabalho é intencional, pretende um resultado, tem certo caráter de obrigação e é feito para se receber algo em troca (Salanova et al., 1996). Mas tal definição, assim como qualquer outra, pode variar em função da cultura, do grupo social, do olhar epistemológico, da religião e de outros grupos aos quais o sujeito pertença.

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Mohana Kruger Oliveira. Limpidus, Brasília, DF, Brasil.

Amalia Raquel Pérez-Nebra. Centro Universitário de Brasília, Brasília, DF, Brasil.

Carla Sabrina Antloga. Universidade de Brasília, Brasília, DF, Brasil.

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