Qualificação docente, desafios e oportunidades

Fátima Trindade

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Fonte: Envolverde
Data original da publicação: 20/02/2015

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Pesquisa realizada pela OCDE (Attracting, Developing and Retaining Effective Teachers) entre os anos 2002-2004, realizada em 35 países, identificou que boa parte dos talentos atraídos para a área da docência nas décadas de 60 e 70 aproximavam-se da aposentadoria. Essa saída de docentes do mercado de trabalho já se faz sentir nas escolas brasileiras, o que deve ser visto com grande preocupação pela nossa sociedade.

Esse cenário caracteriza um desafio e ao mesmo tempo uma oportunidade para o estímulo e desenvolvimento de uma nova força de trabalho docente que irá se beneficiar das ofertas profissionais e das mudanças que a formação está impondo e que o mercado já está oferecendo.

A carreira docente há muito deixou de ser atraente às novas gerações. Baixos salários, precárias condições de trabalho, maiores exigências afastaram muitos jovens das licenciaturas das áreas mais diversas.

Hoje ao mesmo tempo em que muitas licenciaturas não fecham turmas, por baixa adesão dos jovens, profissionais de outras áreas abrem mão de suas carreiras para atuar na área de educação. Vocação, maturidade profissional, oportunidade de desenvolvimento. Que movimento é este que move profissionais mais experientes e que não atrai os mais jovens?

Acrescido a este questionamento, temos uma constatação: o aumento da demanda por educação. Esta demanda leva ao surgimento de novas escolas, com características e estruturas diversas e todas em busca de diferenciais para atender a vários públicos e com grande necessidade de professores que assumam as salas de aula presenciais e/ou virtuais, que produzam materiais, que criem e que promovam a aprendizagem ao longo da vida .

Cenário curioso, a necessidade existe, está posta, mas não atrai, ou atrai a poucos. Que desconstrução precisamos empreender? Que há demanda por professores está claro e isto precisa se tornar público. Jovens em fase de escolha profissional precisam saber que existe demanda na área e ter ciência que há também maior exigência por qualificação.

Vamos fazer um recorte e falar de uma área em especial: a área de línguas estrangeiras.

A área de línguas estrangeiras, especialmente a área de inglês, vem sendo mais valorizada dentro das escolas. O que antes não se assumia na integralidade, hoje ganha mais força e espaço e crescem em paralelo as exigências por maior qualificação dos cursos. Forças externas, globalização, maior escolarização dos pais e consequente maior exigência para com a escola impulsionam uma transformação na área.

O espaço da área de inglês se potencializa nos atuais desenhos curriculares e nos novos cursos intra ou extracurriculares e faz com que oportunidades de trabalho e carreira surjam em maior quantidade. Hoje não faltam oportunidades. São exemplo disso as constantes vagas publicadas nos jornais e sites de busca de empregos. Colégios, escolas bilíngues, cursos de período integral, novos centros de idiomas, grandes grupos investindo na aquisição de escolas, capital estrangeiro entrando no mercado. Quanto movimento, quantas oportunidades!

Nesse atual contexto de maiores oportunidades e também de maiores exigências, os docentes desta área passam por um duplo desafio: investir na proficiência na língua e na sua constante qualificação para o ensino.

Já se constata que a qualificação dada nas licenciaturas não atende as atuais necessidades e nem desenvolve todas as habilidades, especialmente a proficiência na língua. Abre-se desta forma, espaço para ações de desenvolvimento complementar em instituições outras que não apenas as instituições de Ensino Superior e definem-se novos critérios para a seleção e permanência desses profissionais nas instituições de ensino. Além do diploma, ter uma ou mais certificações internacionais que comprovem proficiência, ter dito algum tipo de vivência no exterior, ter feito alguma formação internacional de metodologia, são hoje requisitos cada vez mais valorizados nos processos seletivos e que agregam valor ao profissional.

Com critérios seletivos mais exigentes, como promover este salto qualitativo, a quem impor esta responsabilidade, ou ela poderá ser compartilhada entre o professor e a escola?

As escolas hoje passam por desafios que outros contextos, como o da área de telecomunicações, já passaram, o de trazer para dentro da sua estrutura ações de educação corporativa para que se possa manter a atualização de seus colaboradores e consequentemente a competitividade institucional ser garantida.

A carreira é do professor, mas ela acontece e se desenvolve dentro do enquadre institucional. É questão de competitividade a qualificação da instituição e do profissional. Há portanto uma negociação de expectativas, sabendo-se que as expectativas das escolas para com seu professor são crescentes e do professor para com a instituição cresce no anseio por melhores condições de trabalho.

Há, portanto, uma responsabilidade compartilhada e isto se dará, na medida em que a instituição percebe sua necessidade e promove espaços de aprendizagem por meio de reuniões pedagógicas, treinamentos, cursos complementares, vivências diversificadas e que o professor se permita envolver e participar com vistas a um movimento virtuoso institucional.

Mas há algo que é do professor e que ele deverá cuidar que é a sua carreira. Nesse sentido ele precisa protagonizar ações de desenvolvimento, não ficando exclusivamente na dependência passiva de receber de seu empregador uma oportunidade de desenvolvimento. Nem sempre as situações coletivas são suficientes, ou adequadas para todos os profissionais. Ter certeza do que se quer, de onde se está, do que se necessita para o crescimento profissional é tarefa do professor. Ele precisa tomar esta responsabilidade em suas mãos e desenhar um plano de desenvolvimento pessoal.

Existem muitas possibilidades de desenvolvimento no mercado oferecidas, por exemplo, pelas editoras nacionais ou estrangeiras, instituições internacionais que disponibilizam portais especializados com cursos on-line, webinars, textos, vídeos, acesso a materiais para treinamento para as certificações internacionais, oportunidades de bolsas de estudo, ou de vivências no exterior financiadas por ONGs e órgãos públicos, ou seja, existem muitos meios de acesso ao desenvolvimento .

A carreira do professor de línguas vem passando por uma reciclagem bastante interessante e ampliando a sua atuação com oportunidade em cargos de liderança técnica pedagógica, de representação institucional no diálogo e parceria com instituições internacionais, na produção de recursos instrucionais e de conteúdos para vários meios, na atuação como agente certificador da qualidade linguística, na atuação como coach de equipes para implantação de projetos, enfim, a carreira se desenvolve e se diversifica em várias oportunidades ocupacionais técnicas e também mais gerenciais e/ou estratégicas.

O recurso mais significativo das escolas foi e é o professor. Como atrair, desenvolver e reter talentos na área de educação? Ou como algumas instituições colocam, como desviar talentos de outras áreas para a missão da área de educação? Esta é sem dúvida mais uma questão para a agenda da educação brasileira.

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Fátima Trindade é formada em psicologia e pedagogia e especialista em consultoria de carreira. Atualmente, é diretora executiva do São Paulo Open Centre, centro autorizado pela Cambridge English Language Assessment para aplicação de exames de diversos níveis de proficiência da língua inglesa.

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