Precarização no serviço de delivery é mais grave entre as mulheres

Fotografia: Cristiana Batista

A bolsa usada para transportar os pedidos causa desconforto devido ao fecho que fica em cima dos seios; a falta de seguro de vida traz medo durante o trajeto no trânsito corridos da cidade; a ausência de um ponto de apoio com banheiro faz com que as mulheres que precisam trabalhar como entregadores de aplicativos tenham “que se virar pedindo a um e outro”. No período menstrual, a situação se torna tão delicada que muitas mulheres precisam interromper o serviço até o ciclo acabar. 

Com a crise econômica, agravada pela pandemia, a possibilidade de “empreender” como entregadora de delivery tornou-se quase inevitável. A adesão é simples. Basta acessar o aplicativo, preencher um cadastro, fornecer alguns documentos e pronto, você já se torna um “empreendedor”. Alguns serviços como o Ifood e o Rappi não exigem registro de Microempreendedor Individual (MEI), já outros como Log e Sode, pedem. 

Se aderir ao serviço é simples, realizá-lo, na prática, exige lidar com as condições impostas pela falta de regulamentação da função. 

A Marco Zero ouviu quatro profissionais, que apontaram situações de precariedade e desproteção. 

O fecho da bolsa térmica causa incômodo, pois se posiciona em cima dos seios. Mulheres que possuem seios maiores sofrem mais com o problema, que é agravado com o peso das cargas. “Tem que reajustar para a fita ficar abaixo dos seios. Então, se você ficar em locais onde saem muitos pedidos e com refrigerante, aí fica muito pesado, incomoda, entendeu?”, explica Andressa Silva.

Andressa, 24 anos, mora no bairro Fernando Idalino, em Petrolina. O companheiro está desempregado e para sustentar a casa se divide entre entregas e como atendente em uma rede de fast food. 

Uma jornada sem descanso, de domingo a domingo. Na segunda, acorda às 8h, lava as roupas, prepara o almoço, arruma a casa e, ao meio dia, bate ponto na loja de fast food. Larga meia noite e, ao chegar em casa, ainda precisa lavar a farda para poder dormir. No dia seguinte, repete toda a jornada de trabalho doméstico e, às 10h, inicia o trabalho com delivery que segue até às 17h.

Ela é entregadora da Pede.ai, um serviço que surgiu em Juazeiro (BA), cidade vizinha à Petrolina, e está presente em cerca de 160 cidades distribuídas em todos os estados do Nordeste e em outras regiões como Norte e Centro Oeste.

“O desemprego está grande, moro só com a minha mãe e tenho as contas para pagar, daí peguei a bicicleta e vim tentar a sorte na entrega de delivery”, conta Jaqueline de Albuquerque, entregadora na plataforma Ifood, no Recife. 

Jaqueline, 22 anos, mora no bairro de Areias, e trabalha como entregadora  há um ano e meio. Praticamente todo período as entregas foram realizadas de bicicleta. Quando a entrevistamos, estava completando oito dias da compra da sua moto. 

Trabalha 12 horas por dia, em uma jornada que começa às 10h e segue até as 22h, de segunda a domingo, com uma folga às terças-feiras. Nesse ritmo, a entregadora consegue uma renda mensal de R$ 1.500 e consegue ajudar a mãe com as despesas da casa. “No começo senti dificuldade com muitos homens que tem aqui. A maioria, né? Porque não conhecia muito eles, mas depois, foi melhorando”, responde Jaqueline quando perguntada se sentiu constrangimento com o fato de, num grupo de 40 entregadores, ter apenas três mulheres no seu ponto de trabalho.

A estudante de Nutrição Cristiana Batista, 35 anos, perdeu o emprego em um restaurante, aos finais de semana, durante a pandemia. A saída foi recorrer ao serviço de delivery para garantir as despesas em casa, que inclusive aumentaram com a chegada da mãe, que adoeceu e passou a ficar sob os cuidados dela. 

Vinculada ao aplicativo VEE, a entregadora cumpre uma jornada de trabalho que vai de terça a domingo, das 9h às 17h. O horário de almoço é definido de acordo com o movimento do dia. “Levo uma hora de almoço, dependendo da demanda. Quando tem muitos pedidos, diminuo o horário”, explica. 

Ao calcular o faturamento das entregas, contabilizou um lucro de R$ 720 em duas semanas de trabalho. Para ela, a renda “dá pra levar”. “Fui contemplada com o Programa Minha Casa Minha Vida e pago R$ 80,47 pela parcela da casa”.

Em relação ao esforço físico, diz que normalmente chega em casa bem. “Quando o cansaço toma conta deito literalmente com as costas no chão para aliviar a dor na coluna, causada pelo peso da bag ao longo de um dia mais puxado”, confidencia.

Apesar de enfrentar o trânsito em uma moto, não conta com a proteção de seguro de vida ou de bem privado. A plataforma não oferece nenhum benefício. “Na verdade, quem nos segura é Deus. Eles não pegam nem o nome de algum parente nosso para comunicar em caso de acidente”, sentencia. 

Raquel Rodrigues, 30 anos, também moradora de Petrolina, perdeu o emprego em um hotel, fechado no período do lockdown. Antes disso, já pesquisava sobre o serviço de delivery, pois sentia vontade de ter um trabalho que desse tempo para estudar para concursos públicos. Aderiu à plataforma Pede.aí.

A jornada de trabalho é das 10h às 21h, todos os dias da semana, exceto nas quartas-feiras. O lucro, ao final do mês, varia de acordo com o movimento. Em média de R$ 3.500 bruto, retirando desse total as despesas com o combustível, o que dá uma média de R$ 10 por dia, e os custos com a manutenção da moto.

Pela facilidade de adesão, o delivery se tornou alternativa para muitas mulheres. Em uma reportagem do portal Terra, de abril de 2020, o vice-presidente financeiro do Ifood, Diego Barreto, revelou que a plataforma recebeu, só em março de 2020, 175 mil inscrições. 

No período menstrual, a situação fica mais delicada 

No período menstrual, além do desconforto de percorrer vários quilômetros no trânsito de moto ou bicicleta com cólicas, febre e outros sintomas, a falta de banheiro traz medo e insegurança de que o fluxo possa ultrapassar o absorvente e sujar a roupa.

“São os piores dias, por que você ficar na moto, menstruada, com dor, no sol quente ou na chuva. Paro para ver como está o fluxo, para ver se não molhou a roupa. Porque a gente se preocupa, afinal de contas entramos e saímos do estabelecimento. Houve dias em que senti muitas dores, que pioravam com a trepidação da moto. Já cheguei a parar de trabalhar em dias assim”, afirma Raquel Rodrigues.

No Recife, apenas o Shopping Recife possui um espaço de apoio com toldo e banheiros para os entregadores. Nenhum outro ponto de suporte foi localizado pela reportagem.

Para elas, o que pode melhorar 

A regulamentação da profissão de entregadora de delivery é a melhor saída para garantir condições dignas às mulheres entregadoras, segundo a profissional Raquel Rodrigues. “Os prestadores desse serviço precisam se organizar, buscar benefícios. É preciso ter mais reconhecimento. Aqui, em Petrolina, já houve debates sobre a regulamentação, mas não deu em nada”, defende.

Além da regulamentação, a entregadora recifense Jaqueline Albuquerque, defende que seja instalado um hub para que as entregadoras se acomodem. “Esse hub já tem lá no Shopping Recife. A gente fica lá, protegido do sol, e quando os pedidos chegam, a gente sai para entregar. Tem banheiro, é bom. É bom pra gente não ficar no meio da rua”.

Ter um seguro de vida e proteção ao veículo de transporte, para a entregadora Cristiana Batista, levaria mais tranquilidade durante a jornada de trabalho. “Poderia ter um seguro, que eles pagassem 50% e a gente pagasse 50%. Eles também poderiam pegar o nome e o número de contato de um parente, pois, caso acontecesse algo conosco, eles avisariam,” pondera.

Fonte: Marco Zero Conteúdo
Texto: Adriana Amâncio
Data original da publicação: 01/03/2021

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