Por que reduzem os salários?

A criação do desemprego é uma das medidas mais eficazes por parte do mundo empresarial para fazer o mundo do trabalho aceitar a redução de salários.

Vicenç Navarro

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Fonte do original em espanhol: Público.es
Tradução: DMT
Data original da publicação: 24/10/2013

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Um dos movimentos sociais mais importantes que ocorrem nos EUA, que tem passado despercebido nos principais meios de informação espanhóis, é o movimento dos trabalhadores dos estabelecimentos de comidas baratas (como o McDonalds), conhecidos como fast food, que exigem um aumento de salário para conseguir o que eles chamam de um “salário digno”. Esses trabalhadores estão entre os mais mal pagos nos EUA. Considera-se, equivocadamente, que a maioria desses trabalhadores é composta por jovens, principalmente de estudantes, que não trabalham por muito tempo nesses estabelecimentos.

Essa percepção, no entanto, é errada. Dois dos mais importantes especialistas norte-americanos em questões do mercado de trabalho, John Schmitt e Janelle Jones, têm documentado que essa percepção corresponde a apenas 30% dos trabalhadores do setor. A maioria são trabalhadores adultos, que estão presos em suas vidas profissionais nesses postos de trabalho, que pagam nove dólares por hora, apenas um pouco acima do salário mínimo (7,25 dólares). E como Schmitt e Jones mostram, esses salários tão baixos estão se convertendo nos salários de grandes setores do mercado de trabalho dos EUA. São os tipos de salários (low-paid Jobs) que estão crescendo mais rapidamente nos EUA. E a expressão “presos” reflete o fato de que não estão sendo criados empregos melhor remunerados que permitam a esses trabalhadores executar trabalhos mais bem pagos. Na verdade, metade dos empregados que têm diplomas universitários indicam que o trabalho que realizam não exige os estudos que tiveram.

Dois argumentos usados para explicar esse fenômeno têm sido, em primeiro lugar, a introdução de tecnologia avançada no processo do trabalho que, supostamente, simplifica-o, convertendo o trabalhador (incluindo o empregado qualificado com educação superior) em uma peça de uma máquina ou processo automatizado. O outro argumento é a falta de articulação (|mismatch) entre o sistema de educação e formação, por um lado, e as necessidades do mundo empresarial, por outro. No entanto, nenhum desses argumentos pode explicar a enorme polarização social e salarial, nem a enorme concentração de renda nos EUA que, como em outros países (incluindo a Espanha), vem acontecendo.

A enorme concentração de renda

Como bem disse Mark Weisbrot em seu artigo “Fast Food Workers are Fighting for the Majority of U.S. Employees” (Newsday, do qual extraio a maioria destes dados), o 1% da população de maior renda, com maior poder de compra, cresceu a sua participação na renda nacional de 10% em 1980 para 22,4% em 2012. Isto significa que o aumento da riqueza, resultado do aumento da produtividade, não foi distribuído equitativamente, e sim foi concentrado nas rendas superiores, que derivam grande parte de seus ganhos da propriedade do capital. Ou seja, capitalistas (termo quase abandonado pela narrativa midiática por ser considerado “ultrapassado”) viram os seus rendimentos aumentarem em detrimento da renda do trabalho. Uma situação idêntica tem ocorrido na Espanha. Em outras palavras, os salários vêm caindo e os lucros têm aumentado tanto nos EUA quanto na Espanha. Pela primeira vez desde o estabelecimento da democracia na Espanha, os rendimentos derivados do capital são mais elevados do que os derivados do mundo do trabalho.

Um dos fatores que têm facilitado essa realidade é a estagnação do salário mínimo oficial. Na verdade, se esse salário nos EUA tivesse crescido da mesma forma que a produtividade e a inflação cresceram, o salário mínimo naquele país seria de 17 dólares por hora em vez dos atuais 7,25. E esta estagnação dos salários se deve principalmente a fatores políticos, ou seja, ao enfraquecimento dos sindicatos e ao fortalecimento do empresariado. A evidência é esmagadora neste sentido.

Uma situação idêntica ocorre na Espanha. Todas as reformas trabalhistas que foram apresentadas com o suposto objetivo de criar postos de trabalho tinham, na verdade, o propósito de reduzir os salários, através da destruição de empregos, criando desemprego, a melhor ferramenta que o empregador tem para assustar os sindicatos e o mercado de trabalho e forçá-los a aceitar o que deveria ser inaceitável (uma consequência disso foi o espetacular crescimento do endividamento da população, tema que tenho desenvolvido em outros artigos). Muitas vezes esquecemos que a taxa de desemprego é uma variável mais política do que econômica. O desemprego é a arma que o mundo do capital usa para enfraquecer e aterrorizar o mundo do trabalho. Daí que as políticas atuais (que estão destruindo postos de trabalho deliberadamente) fazem parte de um projeto político que está alcançando os seus objetivos.

Portanto, a resposta à queda dos salários, e ao desemprego que a facilita, deveria ser mais política do que econômica: a mobilização política contra o desemprego, a precariedade e os salários baixos. Como a maioria dos cidadãos obtém sua renda do trabalho, esse movimento social nos EUA dos “low-paid workers” tem sido extremamente popular (a respeito do que nada tem sido noticiado ao público na Espanha), obrigando os empregadores a ceder a essas demandas e aumentar seus salários. Isto determinou que os sindicatos do país (AFL-CIO) prestassem atenção, e no seu último Congresso, em Los Angeles, concluíram que o futuro dos sindicatos depende de suas alianças com os movimentos sociais, estabelecendo um leque (rainbow) popular de caráter reformista que (consequência do grande enfraquecimento da esquerda política nos EUA) poderia tornar-se uma espécie de “Solidarnosc” à americana. Hoje existe uma grande inquietação social nos EUA (fato também desconhecido na Espanha) que oferece um grande potencial para o futuro desse país. Naturalmente, a situação na Espanha é diferente e exige um outro tipo de resposta, ainda que seja de grande importância e urgência que se estabeleça uma ampla aliança de forças políticas e movimentos sociais (incluindo os sindicatos) para se opor a essas medidas que estão afetando de forma tão negativa o bem-estar e a qualidade de vida das classes populares.

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Vicenç Navarro é catedrático de Políticas Públicas da Universidad Pompeu Fabra e Professor de Políticas Públicas da The Johns Hopkins University.

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